Sérgio Moro não vai cair. E isso é a melhor coisa que pode acontecer

O Brasil foi surpreendido no final da tarde do dia 09 de junho com o vazamento pelo The Intercept Brasil de conversas privadas de Sérgio Moro, Deltan Dallagnol e mais um monte de procuradores e promotores do MPF. Os conteúdos são comprometedores na medida em que revelam uma relação bastante promíscua entre o juízo e a procuradoria, longe dos parâmetros de qualquer democracia. O juiz, em muitos momentos, parece se comportar como chefe da acusação.

Depois disso, muita coisa aconteceu: o staff do The Intercept Brasil sofreu diversos ataques, as revelações foram se tornando ainda mais graves, Folha e Veja também publicaram trechoa de conversas, Moro e parte da imprensa passaram semanas ventilando a suposta atuação de um hacker, Sérgio Moro colocou a PF para investigar Glenn Greenwald, editor-chefe do The Intercept Brasil, e o bolsonarismo lançou campanhas empavoadas pedindo coisas como a prisão e a extradição de Glenn. O assunto domina o noticiário há quase um mês e nada indica que a situação mudará nos próximos dias.

Eis que, em pleno 08 de julho, na comemoração de 5 anos daquele fatídico Brasil 1 x 7 Alemanha, que destruiu a autoestima do brasileiro, deixando o país vulnerável ao caneto-heroísmo dos julgonautas da Lava Jato, Sérgio Moro pediu licença. Uma semana para esfriar a cabeça. Logo após a revelação de que o juiz vazou informações da delação da Odebrecht para a oposição venezuelana. Muitos acham que isso é o prenúncio de uma queda. Lamento informar: não é.

Sérgio Moro não vai cair. E não vai cair por um motivo simples: é parte essencial do projeto autoritário de Bolsonaro.

Bolsonaro foi eleito juntando vários grupos autoritários em torno de um projeto meio messiânico, meio despótico. Todos os que tiveram algum destaque antidemocrático no país nesses ultimos anos estão orbitando Bolsonaro. E a questão é essa: Bolsonaro exerce uma força centrípeta entre esses movimentos, e é necessário fazer muita força para ser conservador e fugir da esfera de influência de Bolsonaro. A atração é natural.

Dentro dessa órbita de Bolsonaro, estão vários grupos, não necessariamente com influência no governo. Moro encabeça o grupo do Judiciário militante, que usa as suas decisões judiciais como instrumento de favorecimento político do projeto conservador de Bolsonaro. Esse grupo é essencial por conferir “legitimidade jurídica” ao governo Bolsonaro, fazendo com que toda a guinada autoritária que o governo propõe ocorra “dentro da lei”. Sem esse grupo, as pretensões despóticas de Bolsonaro viram fumaça. E sem Sérgio Moro, o Judiciário militante perde muito de sua força junto ao bolsonarismo mais conservador. Bolsonaro e Moro são um casamento sem cláusula de divórcio.

O judiciário militante é só mais um grupo na orbita do governo Bolsonaro. Não é o cerne do governo. O cerne do governo é o tal do “projeto conservador”, o trombolavismo que se julga parte de um projeto conservador global anti-globalista. O cerne do projeto de Bolsonaro é o eixo de Bolsonaro e seus filhos, e a órbita traz todoa aqueles que querem se aproveitar desse projeto no curto prazo: o Judiciário militante, os ruralistas, os evangélicos conservadores, os militares, os grupos neoconservadores oportunistas, os caminhoneiros que vivem ameaçando greve. O caos é relativamente bem organizado, todo mundo orbita a mesma coisa.

Nesse cenário, Sérgio Moro é NOME essencial. No sistema solar bolsonarista, Moro seria Júpiter ou Saturno. É um componente essencial de estabilidade. E, por ser tão essencial, também é mais invulnerável: pode se desgastar o quanto for necessário, mas continuará forte e influente. Especialmente porque a Vaza Jato não comprometeu o papel de Moro com quem realmente importa para Bolsonaro: o bolsonarista. Pelo contrário, agora Moro é o herói que subverteu a Justiça para servir aos interesses do Mito, do astro rei que derrotou o PT.

Ok, mas por que isso seria bom? É só ver como funciona o governo Bolsonaro. O governo Bolsonaro funciona pela lógica do conflito, interna e externamente. Com a estabilização de grupos como o de Moro em torno de Bolsonaro, o conflito interno tende a cessar: os militares já estão enquadrados, os evangélicos parecem satisfeitos com a Damares, os ruralistas estão felizes com Agricultura e Meio Ambiente. Os olavistas estão bem acomodados na chancelaria e na educação.

Com isso, a criação de conflitos no governo Bolsonaro tende a ser cada vez mais artificial. Eles já estão falando de coisas estilo “defesa do trabalho infantil”. É a retórica do absurdo. Pode parecer eficiente hoje, mas esse governo está na posição de vidraça, e a criação de factóides tende a ser cada vez menos eficiente com o tempo.

Vamos tomar como exemplo o caso de João Dória na prefeitura de São Paulo. Embora Dória hoje esteja em posição privilegiada, como governador de São Paulo, essa posição tem muito mais a ver com sorte do que com juízo. Ao se ver desgastado, Dória tentou surfar na popularidade de Bolsonaro e se elegeu governador por 700 mil votos, na eleição para governador mais equilibrada que São Paulo presenciou desde a redemocratização.

Dória, no primeiro ano de mandato, apostou na superexposição e na criação de factóides. Deu certo por algum tempo. Mas, em outubro, tudo foi por água abaixo. Quando Dória quis lançar a “farinata”, angariou protestos de pais de estudantes por toda a cidade. A corrosão de sua popularidade foi tão grande que, na cidade de São Paulo, Dória perdeu a eleição para governador por 58 a 42. Para sorte do pós tucano, porém, o interior compensou isso.

Bolsonaro já está sofrendo com isso. É o presidente de menor popularidade após seis meses de mandato desde Fernando Collor. E, bem, Fernando Collor sequestrou poupanças. Ao manter todo o seu staff sob órbita, Bolsonaro faz um enorme favor aos oposicionistas, transferindo sua impopularidade crescente para Moro, para Paulo Guedes, para Damares, para Heleno e para todos os que estão sob sua influência. Para o próprio Dória, inclusive, que segue pagando flexões junto com o Presidente.

Nesse sentido, a notícia de que Sérgio Moro não vai cair é a melhor possível. Porque todas as personalidades da nova direita bolsonaristas tem pretensões próprias, mas, dentre elas, as de Moro são as mais ambiciosas. Moro desgastado na órbita de Bolsonaro tem um triplo efeito positivo: impede Moro de ir para o STF, impede as pretensões eleitorais de Moro e faz com que os desgastes de Bolsonaro e Moro se retroalimentem.

É claro que também tem um aspecto perigosíssimo aí: ambos devem apelar para o autoritarismo sem ressalvas quando sentirem que a popularidade caiu para níveis preocupantes. Vai funcionar? Depende da resiliência das demais instituições do país, e também do quanto elas estão dispostas a aturar ataques de Bolsonaro sem reagir.

Mas o desgaste está mais rápido que o previsto. E vai atingir a todos de uma vez.

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