O Único Caminho Para a Terceira Via

A verdade é que deveria estar vendendo consultoria de análise de contexto político, mas como eu sou péssimo em me vender e sou um bobão idealista (e, portanto, pobre), eu escrevo essas coisas de graça na esperança que alguém leia e entenda como agir nessa eleição para não pagar mico.

A terceira via parece morta e enterrada. Não é uma previsão, é uma constatação. A média das pesquisas eleitorais traz Lula com 45% e Bolsonaro com 30%, e mais de 75% dos eleitores em ambos os casos disseram que o voto está totalmente decidido. Isso quer dizer que é muito, muito improvável MESMO que Lula caia de 40% e que Bolsonaro caia do patamar de 25%.

Isso é corroborado por um fato eleitoral histórico: no Brasil, desde a redemocratização, esquerda e direita tem um piso de votos próximo a 30%. Existem cerca de 30% de brasileiros que se consideram de direita (e vão votar Bolsonaro), e existem cerca de 30% de brasileiros que se consideram de esquerda (e vão votar Lula). Lula ainda é inflado pela grande quantidade de pessoas que vão votar motivadas pelo ódio ao Bolsonaro. Com as pessoas considerando Lula a única alternativa ao Bolsonaro, os votos antibolsonaristas acabam se concentrando nele.

Num cenário desses, a terceira via parece ter uma chance meramente estatística de desbancar Lula ou Bolsonaro. Só que a terceira via (e a mídia que apoia essa terceira via) está agindo errado, porque não consegue enxergar o contexto político mais básico.

Só existe uma forma da terceira via ter alguma chance nessa eleição: batendo no Bolsonaro. Mas batendo sem dó, de maneira sistemática e sufocante. Expondo todos os podres do governo, recuperando momentos que provocaram desgaste, denunciando, expondo. E isso tem alguns motivos:

1) Bolsonaro tem menos público fiel que Lula. Isso é mostrado pelas próprias pesquisas. Então, estatisticamente seria mais fácil um candidato tentar desgastar Bolsonaro. Lembrando que voto tomado vale o dobro: se um voto sai do Bolsonaro e vai para a terceira via, a diferença cai duas vezes mais rápido.

2) Bolsonaro é o incumbente em uma situação desfavorável: as estratégias de desgaste colam muito mais nele do que no Lula, porque, a exceção do bolsonarista ferrenho, boa parte dos brasileiros lembra do governo Lula com bons olhos quando compara com o governo atual. É muito mais viável tirar voto de quem está no poder falando de necessidades imediatas (gás, óleo, leite) do que tirar voto de quem desperta um passado idílico, algo mais abstrato.

3) Tirar voto do Bolsonaro consistentemente pode tirar votos do Lula também: sim, parece mais difícil de entender isso. Mas aqui estamos falando de uma parte específica do voto lulista: o voto anti Bolsonaro. Se um(a) candidato (a) se levantar e o eleitor vislumbrar a possibilidade do Bolsonaro ficar de fora do segundo turno, esse voto antibolsonarista pode se deslocar para a candidatura que for capaz de tirar Bolsonaro do segundo turno.

4) Bolsonaro é o representante da extrema direita e tem consigo os votos da direita. Exceto Ciro Gomes, todos os demais candidatos à terceira via transitam pela centro direita. Até o Ciro tem feito apelos constantes a essa parte do eleitorado. Então o perfil do eleitor do Bolsonaro mostra que ele só trocaria o voto no Bolsonaro por outro voto de direita.

Na esquerda, a coisa é diferente. Não existe candidato capaz de tirar o piso de 30% dos votos que Lula teria em qualquer ocasião. Nem Ciro, que tem se esforçado em fazer críticas constantes a Lula, tem logrado êxito nisso. O que isso quer dizer? Se há algum espaço aberto para a tomada de votos, esse espaço está na direita, que está em parte insatisfeita com Bolsonaro.

Como sabemos que parte da direita está insatisfeita com Bolsonaro? Olhando a intenção de voto do Bolsonaro, oras. Bolsonaro venceu em 2018 porque agregou votos além da direita tradicional: os votos evangélicos foram determinantes (e as projeções deram que Bolsonaro levou de 70 a 30 nesse público). Sabe-se que os evangélicos estão muito destoantes do restante dos estratos sociais nas pesquisas eleitorais: são o único público demograficamente relevante em que Bolsonaro ganha de Lula (empresários e pessoas que ganham mais de 5 salários mínimos não chegam a 10% da população)

Pela proporção de votos entre os evangélicos (o último DataFolha deu 40 a 35 nesse público para Bolsonaro), cerca de 43% dos votos totais de Bolsonaro vem dos evangélicos (que são 30% da população). Isso quer dizer que, na prática, Bolsonaro tem menos votos do que parece entre as pessoas que sempre se identificaram como “de direita”. Só 24% dos “não evangélicos” votam em Bolsonaro, ainda que historicamente cerca de 30% desse público vote na direita. Isso dá algum espaço para uma terceira via crescer, embora não garanta qualquer viabilização de fato.

5) Bater em Lula vai fortalecer Bolsonaro: em uma eleição extremamente polarizada, bater em Lula sem dar uma opção viável ao Lula que não seja o Bolsonaro só vai fortalecer o Bolsonaro. E hoje essa opção não existe. Quando o antipetismo é requentado, existem dois efeitos possíveis: o primeiro é a desmobilização do voto lulista, aumentando a abstenção (isso fortalece o Bolsonaro) e o segundo é a transferência de votos pro Bolsonaro, que é visto como a opção antipetista por excelência (isso também favorece o Bolsonaro). Não há rigorosamente nenhum benefício para a terceira via em criticar o Lula. Até porque um Bolsonaro fortalecido é a pá de cal definitiva em qualquer pretensão da terceira via.

Conclusão

Esse conjunto de argumentos mostra que, em um contexto em que a terceira via está na UTI, a única opção plausível é tentar tirar votos de Bolsonaro de todas as formas possíveis. O desgaste do Bolsonaro é a única forma dessa eleição ainda ter alguma mudança em um contexto de normalidade.

Vale ressaltar a ideia de “contexto de normalidade” aqui, porque os dois últimos processos eleitorais foram completamente desestabilizados por fatos pontuais: a morte de Eduardo Campos em 2014 e a facada em Jair Bolsonaro em 2018. Em ambos os casos, as campanhas acabaram condicionadas por esses acontecimentos. Que 2022 não seja mais uma campanha marcada pela tragédia.

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