Lula e Bolsonaro Anteciparam a Eleição

Cenários de Intenção de Voto – Quaest – 11/05

Saiu uma pesquisa Genial/Quaest para a Presidência da República. Embora o cenário seja de estabilidade, essa pesquisa pareceu mais importante que as demais (especialmente as que foram feitas por telefone) por mostrar a antecipação de tendências que já ocorreram em 2018 para a eleição de 2022. E as notícias não são muito alentadoras para a candidatura de Jair Bolsonaro.

A primeira notícia ruim para Bolsonaro tem menos a ver com a pesquisa em si e mais a ver com o contexto: a parte do processo eleitoral em que ele estava “jogando sozinho” acabou. No último dia 07 Lula lançou sua pré-candidatura, tendo Geraldo Alckmin como candidato a vice-presidente. Os dois discursos foram muito bem aceitos e o lançamento em si foi uma demonstração de força importante. Além disso, Lula começou seu cronograma de viagens pelo país. Alckmin deve fazer o mesmo em breve, quando terminar de cumprir sua quarentena (ele testou positivo para COVID). Com a entrada “pra valer” do Lula em campanha, as narrativas de Bolsonaro passam a ser contestadas mais sistematicamente e o espaço na imprensa deixa de ser monopolizado pelas ações esdrúxulas do ainda Presidente.

Tanto isso é sério que Bolsonaro está tentando esvaziar a discussão eleitoral descredibilizando o processo. Faz isso ao questionar as urnas, ao tentar colocar militares no TSE, ao falar de “apuração paralela”. Todas essas papagaiadas são sintomáticas do fato de que o próprio staff de Bolsonaro sabe que o presidente está muito longe da reeleição. O objetivo da campanha de Bolsonaro era chegar numa situação de empate técnico quando Lula começasse a campanha. Isso não aconteceu. Lula segue consistentemente à frente de Bolsonaro e o teto de votos de Bolsonaro nunca ultrapassa os 40%.

E isso não aconteceu porque Bolsonaro, Lira e Ciro Nogueira fizeram uma leitura equivocadíssima (para não dizer preconceituosa) do eleitorado brasileiro. Esse próceres do antipetismo realmente acreditam na falácia de “Lula comprou o voto dos pobres com o Bolsa Família”. E, por acreditarem nisso, também acreditaram que dar um auxílio de R$ 400 faltando um ano para a eleição mudaria completamente o jogo. Não mudou. E por alguns motivos em específico.

O primeiro deles é que Bolsonaro fez, através de Paulo Guedes, uma política de deterioração das condições de vida dos mais pobres. Bolsonaro é o primeiro presidente desde o início do Plano Real a desvalorizar o salário mínimo em valores reais. É o primeiro governo desde 1994 que faz o salário mínimo ser menor do que a inflação do período.

O segundo motivo é que Bolsonaro adotou o descontrole e a desregulação como marcas de sua política. Qual é o resultado dessa política? Inflação e estagnação econômica. O governo gasta mais em desonerações e em emendas do orçamento secreto, mas gasta menos em obras estruturantes, em saúde, em educação, em políticas sociais e em pesquisa científica. Na prática, isso faz com que auxílios pontuais quase não sejam sentidos, afinal o preço dos produtos de consumo cotidiano (alimentos e combustíveis em especial) segue galopante. E Bolsonaro não consegue se eximir dessa responsabilidade, porque os preços galopantes são culpa dele de fato.

O preço dos alimentos sobe desde 2019, quando Bolsonaro resolver privilegiar armazéns privados de grande porte, desmontando a política de armazenamento público de alimentos como elemento de controle de preços e de auxílio aos produtores rurais. O preço dos combustíveis está alto porque Bolsonaro se desfez das refinarias brasileiras, aprofundando a política iniciada por Michel Temer de atrelar o preço dos combustíveis ao mercado internacional.

Juntando tudo, o resultado está nesse gráfico, que compara o salário mínimo real com o salário mínimo que o DIEESE diz ser o ideal, de acordo com o custo de vida da população. Existem dados desde o início do Plano Real e esse indicador é um proxy adequado porque a pesquisa de custo de vida do DIEESE já incorpora a inflação dos períodos pesquisados, facilitando a visualização:

Gráfico comparando Salário Mínimo e o Salário Mínimo Mensal do DIEESE. Elaboração Própria

Algumas coisas ficam claras no gráfico:

  1. O Custo de vida do brasileiro aumentou absurdamente no governo Bolsonaro. Por enquanto, ficou 70,54% mais caro. O salário mínimo do DIEESE era de R$ 3960,57 em dezembro de 2018 e hoje é de R$ 6754,33. Enquanto isso, o salário mínimo subiu 37,73% (de R$ 880,00 para R$ 1212,00)
  2. Essa tendência se repetiu nos salários acima do salário mínimo, de acordo com a FIPE, o que indica perda do poder de compra generalizado por parte das classes média e baixa.
  3. Aquela linha na parte de cima é a relação entre salário mínimo real e o salário mínimo do DIEESE. Ela mostra o poder de compra do salário mínimo. Em abril de 2022, o salário mínimo real representa apenas 17,94% do salário mínimo ideal. Isso significa que o salário mínimo, hoje, tem o menor poder de compra desde abril de 2005. Bolsonaro fez o Brasil regredir dezessete anos em poder de compra. E esse cenário deve piorar, porque o salário mínimo não deve receber novos reajustes nesse ano, mas a inflação deve seguir descontrolada.

Todo esse cenário mostra que a perspectiva econômica para os próximos meses não deve melhorar. E a economia é a principal preocupação do brasileiro no momento:

Pesquisa Quaest, 12 de maio

Além desses dados, 59% das pessoas disseram que a capacidade de pagar as contas piorou nos últimos meses. Além disso, 18% das pessoas crê que a inflação é o maior problema econômico do país no momento e 13% acredita que esse problema é o desemprego. No mundo real, dos boletos, Bolsonaro está perdendo espaço por causa de sua gestão econômica desastrosa. E isso é evidenciado por outro dado: as mulheres estão votando mais em Lula.

Pesquisa Quaest, 12 de maio

As mulheres normalmente são as gestoras do orçamento doméstico. Na maior parte das famílias brasileiras, quem tem a incumbência de ir ao mercado e de abastecer as despensas ainda é a mulher. Sim, infelizmente ainda vivemos em um país machista, em que grande parte dos homens simplesmente largam as tarefas domésticas nas costas das mulheres ao invés de compartilhar responsabilidades. E, nesse cenário, quem está percebendo melhor a deterioração da situação econômica são as mulheres. É aí que Lula está ganhando espaço nas pesquisas.

Quando a promessa de que “o auxílio Brasil viraria a eleição” começou a dar em água, Bolsonaro passou a se engajar em uma tentativa desesperada de gerar mobilização para se manter competitivo. Essa necessidade de mobilização, de março em diante, tinha um objetivo específico: acabar com qualquer possibilidade de terceira via. Porque, da forma como os votos estão consolidados, não existe qualquer possibilidade do Lula ficar de fora do segundo turno. O alvo dos candidatos de terceira via teria que ser os votos de Bolsonaro. Sérgio Moro, João Dória e até Ciro Gomes tentaram morder uma parcela do voto bolsonarista. Para evitar o crescimento dessas candidaturas, Bolsonaro começou a fazer o que ele sabe fazer melhor: criar factóides e espalhar pânico moral.

O alvo do bolsonarismo nesse movimento foi o público que decidiu a eleição de 2018: os evangélicos. Desde marco, Bolsonaro está especialmente engajado junto a esse público. Fez várias reuniões com líderes e influencers do setor, participou da Convenção das Assembléias de Deus e encorajou líderes a fazer campanha para ele em púlpito. Fez sua máquina de campanha espalhar um discurso moralista e maniqueísta, comprando briga com celebridades e trazendo a discussão para o plano da subjetividade, uma vez que objetivamente o governo Bolsonaro é uma catástrofe. Essa abordagem parece ter dado certo, uma vez que Bolsonaro passou a ter a maior parte do voto evangélico novamente.

Pesquisa Quaest, 12 de maio

É preciso ressaltar que o questionário da pesquisa deu uma escorregada, dizendo especificamente que Lula apoiava o aborto e deu declarações nesse sentido. Isso pode ter enviesado alguns dos votos evangélicos, mas também mostra qual é o potencial máximo de Bolsonaro junto a esse público. E ele parece já ter sido atingido.

O Datafolha da véspera do segundo turno de 2018 mostrou que, mesmo com toda a campanha pró Bolsonaro nas igrejas, a intenção de voto dele entre os evangélicos era de 69% dos votos válidos, contra 31% de intenção de votos em Haddad (59 a 26% em votos totais). Esse foi o pico da popularidade bolsonarista entre os evangélicos, o que indica que, em 2022, com Bolsonaro desgastado por um governo ruim, essa proporção dificilmente será atingida. No entanto, se calcularmos as intenções de voto dessa pesquisa, vemos que Bolsonaro já tem 53% dos votos válidos entre os evangélicos, enquanto Lula tem 34% e os demais candidatos somados tem 13%. Tudo isso indica que não tem mais muito voto evangélico possível para Bolsonaro além dos que ele já angariou. Quem diz isso é a própria pesquisa, ao perguntar sobre aborto: afeta as chances de voto para 62% dos evangélicos, uma parcela um pouco maior do que aquela que Bolsonaro já tem para si.

Pesquisa Quaest, 12 de maio

Suponhamos que, num cenário otimista (para Bolsonaro), ele consiga mais 10% do voto evangélico. Estamos falando de um potencial de subida de, no máximo, 3% dos votos totais a mais. E só. Bolsonaro não tem mais votos para tirar além disso. Segue com 59% de rejeição eleitoral. Segue não batendo os 40% dos votos em nenhum cenário, nem mesmo no segundo turno. Não existem entregas, legado, ou qualquer coisa do tipo. Bolsonaro antecipou a campanha eleitoral e inviabilizou de vez a terceira via, mas fez Lula antecipar seus movimentos também.

Isso indica que as cartas já estão na mesa. Os potenciais de voto já estão dados, o que se reflete na certeza de voto altíssima tanto entre os eleitores de Bolsonaro (75%) quanto entre os eleitores de Lula (76%). Ainda que uma pesquisa seja o retrato do momento, uma sucessão de pesquisas de diferentes institutos trazendo cenários similares mostram que esse cenário provavelmente é verdadeiro. E é por isso que eu não estou fazendo análise de pesquisa eleitoral aqui. Estou olhando uma fotografia e dando o contexto dela. E esse contexto mostra que os desafios de Bolsonaro para se viabilizar, mesmo com a máquina pública na mão, são muito maiores do que ele imaginava.

Um comentário sobre “Lula e Bolsonaro Anteciparam a Eleição

  1. Tenho uma parente evangélica que só “encontrou argumento”, a mencionada objetividade, por causa da MP do FIES; senão continuaria no próprio tipo de vitimismo…

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