O Uso Político do Transe Espiritual

Na última semana, logo após a nomeação de André Mendonça para o STF, uma cena viralizou: a primeira dama Michelle Bolsonaro comemorou a nomeação do Ministro (e se deixou filmar fazendo isso) como se estivesse no meio de um transe espiritual. A população que não tem familiaridade com o tema fez piada e aumentou o alcance da cena, levando a um novo debate. A própria Michelle Bolsonaro disse que estava sendo vítima de “intolerância religiosa”.

Michelle Bolsonaro comemorando a indicação de André Mendonça ao STF

Infelizmente, parece que paira uma certa ignorância da população sobre o tema. O que é um tanto quanto absurdo, uma vez que quase 30% da população brasileira professa a fé evangélica, de acordo com as estimativas oficiais. E grande parte dessas pessoas professa a sua fé em igrejas pentecostais, onde a “manifestação do Espírito Santo” é algo comum e incentivado, fazendo parte da liturgia do culto.

O que é um Transe Espiritual?

Quando as igrejas pentecostais surgiram, através de nomes como Charles Fox Parham e William Seymour, a intenção das igrejas era reviver, na sociedade moderna, a manifestação dos dons do Espírito Santo descritos pelo Apóstolo Paulo especialmente no capítulo 12 da primeira epístola aos Coríntios:

A cada um, porém, é dada a manifestação do Espírito, visando ao bem comum.
Pelo Espírito, a um é dada a palavra de sabedoria; a outro, a palavra de conhecimento, pelo mesmo Espírito;
a outro, fé, pelo mesmo Espírito; a outro, dons de cura, pelo único Espírito;
a outro, poder para operar milagres; a outro, profecia; a outro, discernimento de espíritos; a outro, variedade de línguas; e ainda a outro, interpretação de línguas.
Todas essas coisas, porém, são realizadas pelo mesmo e único Espírito, e ele as distribui individualmente, a cada um, conforme quer. (1 Co 12:7-11)

A fé pentecostal leva essa passagem bíblica muito a sério. Cada um desses dons passa a ser um objetivo de vida do frequentador da comunidade. Isso ocorre porque, para o pentecostal, manifestar esses dons serve como sinal de que o Espírito Santo habita na pessoa. Como isso funciona? Quando Cristo disse lá em João 14:16-27 que daria um Consolador para a humanidade depois de sua partida, e que esse Consolador habitaria em nós, convencionou-se, na fé cristã, que o ato de conversão teria duas características distintas, sendo 1) o reconhecimento da nossa condição humana de pecador e de que Jesus Cristo é o senhor e salvador de nossas vidas e almas; e 2) o fato de que o Espírito Santo habita em nós a partir do momento em que reconhecemos essa condição e que Cristo é nosso Senhor e Salvador. Isso é corroborado por passagem bíblicas como I Co 6:19, em que o Apóstolo Paulo chama nossos corpos de “templo do Espírito Santo”, justamente porque, após o ato de conversão, o Espírito Santo passa a habitar em nós, transformando nossas atitudes.

Com esse cenário, os pentecostais chegaram a conclusão de que “se a pessoa manifesta os dons do Espírito Santo, logo o Espírito Santo habita essa pessoa, o que testifica que de fato ela é convertida”. Além disso, há um componente social nessas manifestações: elas denotam um negócio que é muito respeitado nas igrejas: a “autoridade espiritual”. Quando uma pessoa começa a falar em línguas estranhas, por exemplo, há um temor coletivo, uma sensação de “Deus está falando nesse lugar”. Como se Deus estivesse presente ali, incorporado nas pessoas. Essa suposta capacidade de manipulação do sobrenatural, de ser “a voz de Deus”, está por trás da autoridade de inúmeros pastores e líderes religiosos ao redor do país. Mais até do que a capacidade de explicar ou traduzir os escritos bíblicos para a comunidade. Até porque existe uma conclusão bastante óbvia aqui: se Deus fala com uma pessoa através de um dom espiritual como as línguas estranhas ou a profecia, obviamente vai dar a capacidade para essa pessoa de interpretar devidamente o que está escrito na Bíblia.

Esse estado de transe é vista dentro das comunidades como uma busca tão intensa por Deus que faz com que a pessoa saia de suas faculdades mentais normais, deixando de ter controle sobre os movimentos do seu corpo (por isso pulos aparentemente aleatórios, tremedeiras e quedas são tão comuns) e da sua língua (por isso que as falas aparentemente desconexas, de termos impossíveis de compreender, também são comuns). É por isso que esse tipo de manifestação denota autoridade: porque é visto como o resultado de uma “busca intensa por Deus”.

Todo esse conjunto de afirmações de autoridade espirituais e sociais soam como algo extremamente desejável. Ser uma liderança espiritual inclusive é algo incentivado pelo texto bíblico, novamente pelo Apóstolo Paulo (I Tm 3:1). De alguma forma, a manifestação dos dons espirituais passou a estar ligada com um estilo de vida “irrepreensível”, com o líder servindo de exemplo para a comunidade de fiéis. Muitas pessoas se convertem e sonham em manifestar os dons espirituais, além de buscar conhecimento bíblico. Outras pessoas, porém, querem apenas o reconhecimento como autoridades pela comunidade, estando mais interessadas no poder do que em propriamente no serviço aos outros.

É aí que os problemas começam.

Profecia versus Profetada

Existe uma enorme discussão nos meios evangélicos acerca da manifestação dos dons espirituais, e eu não vou entrar nessa discussão. Mas, com a profusão em larga escala das igrejas pentecostais pelo Brasil, com toda essa teia de autoridade social e espiritual envolvida, começaram a surgir pessoas que fazem um simulacro de manifestações espirituais para afirmar autoridade ou até mesmo para ser aceito na comunidade.

Sim, existem comunidades pentecostais em que a não manifestação de dons como o “falar em línguas” é quase imperativa. Se a manifestação denota autoridade espiritual, a falta dela denota a falta de autoridade espiritual. A questão é que, mesmo no meio pentecostal, as pessoas sabem que nem sempre esse tipo de manifestação denota essa “busca por Deus”, especialmente quando elas envolvem o famigerado “dom de profecia”.

O que é o “dom de profecia”? Muitas pessoas confundem isso com uma espécie de vidência, e de fato muitas comunidades pentecostais pensam nesse dom em específico dessa forma. É mais ou menos assim que acontece: alguém se levanta na comunidade em algum momento do culto em que as pessoas estão mais propensas ao transe (normalmente é o pastor ou a pessoa que está no púlpito pregando, mas pode ser qualquer pessoa), e começa a falar como se Deus estivesse falando através da boca dela, usando línguas estranhas. Logo depois, essa pessoa (ou outra), “traduz” aquilo que estava sendo falado, como se Deus estivesse mandando uma mensagem importante para a comunidade. No fim, a comunidade toda se sente edificada.

Esse fenômeno pode ter destinatários individuais também. Um pastor, obreiro ou irmão da igreja pode estar impondo mãos e orando por você e começar a ser usado para falar alguma coisa a respeito de seus problemas cotidianos. Pode ser algo genérico ou específico, e muito do “poder da profecia” está em revelar aspectos específicos daquilo que as pessoas estão passando, trazendo aquele sentimento de “só eu sabia disso, era Deus mesmo que estava falando”. Independente de ser verdade ou não, é uma experiência profundamente emotiva. Vocês devem imaginar o tamanho do poder de persuasão que um líder para a ter sobre os seus fiéis a partir do momento em que passa essa sensação a eles de que “Deus está revelando as questões ocultas da sua vida”.

Bem, é aí que começam os problemas. Isso é realmente muito, muito poder. E ter esse poder sobre os outros é algo viciante. Existem líderes bem intencionados, que tem um profundo temor em relação ao que é divino e tentam não confundir suas próprias percepções com o que eles julgam que é ação divina. Mas é terrivelmente comum que líderes passem a relatar coisas “da sua cabeça” como mecanismo de manipulação mesmo. E aí entra todo tipo de manipulação: a manipulação para que as pessoas doem mais dinheiro para o ministério, para que se envolvam em trabalhos eclesiais sob promessa de “crescer na hierarquia” e até promessas do tipo “Deus manda dizer que você será pastor um dia”.

É aí que entra o conceito de “profetada”. A profetada é a versão fake da profecia. E mesmo nas igrejas pentecostais essa distinção é bem comum. A profetada é vista como uma manifestação emotiva genérica, muitas vezes acompanhada de promessas ou de vidências que se aplicam a todos, ou que são frutos de técnicas como a programação neurolinguística. É aquela coisa de ver uma pessoa com cara de preocupada na igreja, olhar para ela e falar “Irmão, Deus está vendo a sua angústia e manda dizer que o choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã”. É o modelo clássico de profetada. Consiste na identificação da fragilidade, na exploração pública dessa fragilidade, na suposta individualização da fala de Deus e no uso de uma passagem bíblica como maneira de testificar que aquilo é verdade. Não tem nada de “profecia” aí. Mas é algo muito eficiente para estabelecer um vínculo emocional e uma relação de dependência com pessoas fragilizadas.

Essa relação de dependência acaba sendo trabalhada, no cotidiano, em níveis inimagináveis. É óbvio que, em alguns casos, há menos manipulação e mais externalidades positivas: o caso de alcóolatras que deixam o vício ao ingressarem na igreja é notório nesse sentido. Outros casos importantes e comuns são os daqueles que recebem ajuda das igrejas enquanto estão desempregadas ou usam as igrejas como mecanismo de network para conseguir empregos com pessoas da própria comunidade. Mas, para além dos aspectos positivos, essa dependência cria uma relação desigual entre as pessoas. E essa relação muito frequentemente acaba sendo abusiva.

A Manifestação da Primeira Dama

Essa relação abusiva ficou notória em 2018, quando o voto de evangélico migrou para Bolsonaro com uma rapidez espantosa na última semana do primeiro turno. Nesse momento, pastores alinhados com o bolsonarismo romperam uma tradição de décadas e utilizaram os púlpitos e as redes sociais para fazer pedidos explícitos de voto para Bolsonaro. Isso foi um turning point sem precedentes no movimento evangélico brasileiro, uma vez que o alinhamento político de pastores não era novidade, mas o uso massivo dos púlpitos para explorar essas relações de dependência entre autoridade espiritual e membro da comunidade para pedir voto era inédito.

Desde então, ficou claro que o bolsonarismo seria capaz de fazer qualquer coisa para manter seu séquito de seguidores evangélicos. Até porque é o único movimento de massas que permanece com Bolsonaro. E é um movimento extremamente relevante: é por causa dele que a Avenida Paulista ficou lotada no dia 07 de setembro. Nesse sentido, o “falar em línguas” da primeira dama é muito mais estratégia de mobilização e muito menos meme do que parece.

André Mendonça é eleito para o STF com o apelido dado pelo próprio presidente de “terrivelmente evangélico”, ainda que ele seja de uma igreja protestante histórica e não de uma Igreja Pentecostal. Em comemoração, a primeira dama sapateia, ora e fala línguas estranhas como se tivesse numa igreja pentecostal. Isso remete a essa situação de dependência, a questão da “autoridade espiritual”, ao bolsonarista pentecostal vendo a manifestação de Michelle Bolsonaro como um atestado de que “o Brasil está nas mãos de Deus”, sem questionar se aquilo é uma profecia ou uma profetada.

Isso espalha pelas comunidades, pelos grupos de WhatsApp, gera um sentimento de orgulho, de pertencimento. Gera engajamento, vira assunto. A primeira dama pode acusar seus inimigos de “perseguição religiosa”. E a relação de dependência com o evangélico pentecostal só aumenta.

Mas Como Identificar Que é Profetada?

Existe uma palavra comum no meio evangélico que chama discernimento. Ela está em algumas passagens bíblicas de traduções mais antigas como a Almeida Corrigida Fiel. Discernir é, em linguagem simples, a capacidade de interpretar as coisas adequadamente:

Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais penetrante do que espada alguma de dois gumes, e penetra até à divisão da alma e do espírito, e das juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração. (Hb 4:12 ACF)

Por que isso é importante? Porque discernimento é a palavra chave para separar o que o evangélico realmente considera uma profecia de uma profetada, ou de um exercício de manipulação. E como é possível ter esse discernimento para separar pensamentos e intenções? Simples. Cristo mostra que a árvore é conhecida pelos seus frutos (Lc 6:44). Isso significa que a ferramenta mais eficiente para discernir uma profecia de uma profetada é o tempo.

O tempo pode não nos dizer nada ainda sobre a manifestação de Michelle Bolsonaro acerca da nomeação de André Mendonça, mas já pode nos dizer muito sobre o apoio de líderes evangélicos à candidatura de Bolsonaro em 2018, que tomou púlpitos e dividiu comunidades. O fruto desse apoio pode ser visto hoje: estamos diante de um país mais pobre, mais desigual, que tem dispensado tratamento catastrófico aos setores menos favorecidos da sociedade. Hoje os evangélicos são 31,8% da população, e em 2032 devem existir mais evangélicos do que católicos no país. Mas o fato dos evangélicos estarem no poder tornou o país pior em quase todos os indicadores.

Entre os evangélicos, negros e mulheres são maioria. Negros e mulheres são os mais prejudicados pelas políticas do governo Bolsonaro (ou pela ausência dela). Da tentativa de estabelecer o excludente de ilicitude ao fim do Bolsa Família, temos um sem número de políticas feitas sob medida para prejudicar negros e mulheres. A inflação no Brasil adquiriu um perfil pernicioso, sendo maior para os mais pobres do que para os ricos, o que corrói ainda mais o poder de compra de quem já não tem poder de compra. O descaso com o combate à pandemia fez do Brasil o segundo país do mundo em mortes por COVID, e o governo esperneia até hoje contra a vacina.

Na prática, os frutos do governo Bolsonaro, com seu background profundamente evangélico, lembra mais os fariseus que deixavam os pobres abandonados no Tanque de Betesda do que o Cristo que multiplicava pães e peixes para a população não ficar desamparada. Lembra mais a postura daqueles que condenaram a Cristo por curar no sábado e que planejaram matar a Cristo por causa da ressurreição de Lázaro. As lideranças evangélicas alinhadas com Bolsonaro são escravas da morte, e para elas o poder conquistado com relações abusivas justifica qualquer coisa. Não há nenhum motivo para pensar que a manifestação de Michelle Bolsonaro não foi mais uma profetada, feita sob medida para agradar esse público e para aprofundar as relações abusivas de evangélicos de boa fé sofrem nas mãos de líderes que esqueceram o evangelho de Cristo e decidiram abraçar o farisaísmo.

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