Estamos Morrendo um Pouco Por Dia

Eu queria mesmo fazer uma postagem bonita sobre a transitoriedade da vida e sobre como tudo é um sopro, mas eu não consigo. A morte da Marília Mendonça me abalou de um jeito diferente.

Eu nunca tive medo de morrer. Em alguns momentos da vida, até desejei morrer, e lamentei pela minha covardia em não conseguir dar cabo de minha existência. Mas daí eu tive duas filhas. E hoje eu morro de medo de morrer. O meu maior pesadelo não é tudo acabar: é deixar as meninas desamparadas e a Kelly sozinha com a incumbência de cuidar delas.

Na manhã da morte da Marília Mendonça, a Mirella (a mais nova, de dois anos) caiu da cama. Foi só um susto, ela ficou chorando por um tempo, mas depois dormimos de novo e eu tive um pesadelo de que eu estava morrendo e me despedindo das meninas. Acordei tão em pânico que não consegui dormir mais. Comecei a me distrair fazendo coisas habituais nesse momento da minha vida, como ler o Diário Oficial.

Talvez essa perspectiva, que pareceu tão vívida, tenha me deixado mais angustiado do que de costume. Mas o próprio roteiro foi terrível. O avião caiu, a assessoria disse que todos estavam bem, depois as informações foram se desencontrando e no fim a morte foi confirmada de maneira chocante. Mas o que doeu mesmo é o fato da Marília ter um filho pequeno. Meses mais novo que a Mirella. E ele não vai mais ter junto dele alguém para chamar de mãe.

Os filhos não deveriam morrer antes dos pais. As mães jovens também não deveriam morrer. Pais jovens também não. Meninos como o Léo, da Marília, ou o Romeu e o Gael, do Paulo Gustavo, não tinham que ficar sem sua mãe ou sem seu pai.

Isso pra não falar de nossas tragédias particulares. De nossos amigos e parentes que morreram de COVID nesses últimos 20 meses. Nunca mais vamos viver da mesma maneira. Sonhos morreram, projetos foram enterrados e nossas vidas ficaram um pouco mais vazias de amor

A sensação que dá é a de que viver é ficar cada dia mais embriagado de saudade. Estamos morrendo um pouco por dia, e não parece haver nada capaz de dar conforto nesse momento.

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