O Protesto Contra Bolsonaro Mostra as Posições de Cada Grupo Político Para 2022

Avenida Paulista tomada contra Bolsonaro

Não há qualquer expectativa de impeachment. E essa constatação é responsável pelo fato de que os protestos contra Bolsonaro não são ainda maiores do que se vê.

Com esse fato em vista, e com o fato de que não houve farta propaganda e financiamento para essa manifestação como houve para a manifestação de Bolsonaro no dia 07 de setembro, sim, mas manifestações de sábado foram um sucesso.

Política é sempre um processo de construção. De 2016 em diante a esquerda foi destroçada pelo fascismo. Muita gente está num processo de reagrupar forças e de sonhar com um novo país, e o bolsonarismo luta contra isso todo dia. Manifestações como a do dia 02 são importantes nesse processo, ainda que não sejam perfeitas.

Um lado bom da manifestação foi o conjunto de reclamações por coisas práticas: o preço do gás, os mortos na pandemia, o preço dos alimentos, o fato de que existem pessoas comendo ossos porque não tem condições de comprar comida. Isso fala muito com o cidadão comum que está sofrendo com todas essas questões em seu dia a dia. Muito mais do que qualquer manifestação bolsonarista falaria.

Estamos falando de manifestações completamente diferentes daquelas que vivemos nos últimos anos. Desde 2013, tínhamos um cenário de interdição: partidos eram mal vistos em manifestações, com casos inclusive de expulsão das pessoas que portavam materiais partidários das manifestações. Sábado, havia orgulho dos manifestantes em falar que vinte e um partidos tinham mandado representantes para protestar contra o presidente.

É claro que, em um universo tão diverso, problemas vão acontecer. Grupos vão-se engalfinhar e alguns mais estúpidos, como o PCO, vão causar confusão. Mas, como já disse o próprio Ciro Gomes, que foi vítima de vaias e de algumas garrafas plásticas no sábado: “a democracia é uma delícia, mas tem seus custos”.

Infelizmente, sem uma perspectiva realista de impeachment (ainda que haja uma urgência moral pelo impeachment), o foco das manifestações fica meio perdido. Moralmente todo mundo quer o Fora Bolsonaro, mas na prática todos sabem que a arena em que isso se dará é a eleição de 2022. Isso deixa uma sensação agridoce , mas com um fundo amargo: não somos capazes de chutar o pior presidente que o Brasil já teve única e exclusivamente porque ele está alinhado com interesses poderosos que o alicerçam no poder.

Pensando nesse aspecto, qual foi o resultado das manifestações?

Lula

Lula não esteve nas manifestações. Mandou Gleisi Hoffman, Presidenta do PT, e Fernando Haddad, candidato em 2018. Lula julga que sua presença nas manifestações impediria a presença de alguns grupos de centro direita e traria a acusação de que a manifestação é um “palanque político”. Aparentemente Lula tem alguma razão nisso, porque essas acusações já vieram mesmo sem a presença dele.

Do ponto de vista eleitoral, não muda nada. Lula, no momento, está mais preocupado em andar pelo país fazendo alianças, inclusive com políticos que votaram pelo impeachment de Dilma. Talvez não seja o movimento de radicalização que parte da esquerda esperava que fosse acontecer, mas é, no fim, exatamente o que se espera de Lula, com seu perfil de intermediador, de alguém que busca pontos de acordo entre grupos com diferentes interesses.

Bolsonaro

Bolsonaro nem se manifestou sobre sábado, mas colocou os bots para trabalhar. Todas aquelas tentativas de manipulação que nós já conhecemos, estilo pegar a filmagem das duas da tarde de uma manifestação que seria às quatro só para falar “vejam como está vazio”.

A realidade é que hoje Bolsonaro não consegue falar para além da sua bolha nas redes. Mas essa bolha é extremamente radicalizada.

Ciro

Ciro Gomes esteve na manifestação de sábado, falou de maneira agressiva (mera agressividade retórica, porém), foi vaiado por alguns manifestantes e depois tomou garrafada de alguns idiotas do PCO. Fomentou discussões apaixonadas e agressivas nas redes. No fim, cumpriu seu objetivo.

O fato é que Ciro Gomes pode ter vários defeitos, mas burro ele não é. Ele sabe que a eleição está extremamente polarizada e sua situação é dificílima, ainda mais contando com o fato de que o campo da esquerda, por onde ele transitou em 2018, está completamente tomado pelo Lula. Então a estratégia dele é essa mesmo: radicalizar os apoiadores que restaram na esquerda, para eles não se esvaírem para o Lula, e buscar votos na centro direita, que é onde ainda há alguma disputa.

Vai dar certo? Muito difícil, no cenário de momento. Mas se o Ciro for assunto em tudo o que ocorrer no país até ano que vem, as chances aumentam um pouco.

Quarta, Quinta, Sexta Via

Ninguém falou deles na manifestação. Foram tão irrelevantes quanto a manifestação do MBL no dia 12 de setembro.

Conclusão

É meio frustrante sair de uma manifestação pelo impeachment com a sensação de que não vai ter impeachment, e talvez por isso ninguém esteja satisfeito. É especialmente triste porque as questões que se avolumam no país são urgentes, e soluções imediatas parecem impossíveis.

Mas é um movimento importantíssimo no sentido de reagrupar grupos que estavam desmobilizados desde 2016. Política não é evento, é processo. A série de manifestações que vem desde maio são um processo de fortalecimento da oposição ao Bolsonaro. Que vem sendo bem sucedido, com muitas limitações. É o possível nesse Brasil degenerado de Bolsonaro e de seus asseclas.

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