A Fome, um Trauma Transgeracional

Existem alguns termos e costumes que definem gerações.

Um exemplo: se você não nasceu em uma família muito rica, certamente já tomou alguma bronca em sua infância no sentido de que “você tem que comer tudo, não pode desperdiçar comida com tanta gente passando fome”. A fome é um trauma transgeracional. Seus avós muito provavelmente passaram por severas privações de alimento em alguma fase da vida. Talvez seus pais tenham passado. Sempre foi comum ouvir dos mais velhos, aqui no Brasil, histórias sobre pessoas que comiam carne uma vez por mês e de certa maneira contavam isso com orgulho, como sobreviventes de uma sociedade muito hostil.

Essa percepção passa de geração para geração. A fome, a privação de alimentos ou a insegurança alimentar causam efeitos permanentes, que permanecem pelas gerações seguintes. Até mesmo coisas que não parecem diretamente relacionadas com a fome, como os índices de obesidade, acabam tendo relação. Isso porque a insegurança alimentar é um trauma transgeracional: quem já sofreu com a fome ou com a iminência da fome leva isso para a vida toda, algumas vezes de forma até inconsciente. E passa isso para as gerações futuras, através de ensinamentos ou padrões de comportamento.

Isso afeta até ações políticas. O ex-presidente Lula, por exemplo, nunca escondeu que sua prioridade às políticas de segurança alimentar vinham de sua experiência pessoal com a fome. As políticas do governo Lula no tema foram tão celebradas que o ex-Ministro de Segurança Alimentar e Combate à Fome, José Graziano, tornou-se, anos depois, o Presidente da FAO, sendo responsável pelas políticas de segurança alimentar e combate à fome em âmbito global.

A questão é que, embora o Brasil tenha tido êxito nas políticas de segurança alimentar durante os governos Lula e Dilma, esses êxitos estão escapando pelos dedos, muito pela destruição das políticas para a área pelo governo de Jair Bolsonaro, bem como por conta da gestão econômica atual, que provocou inflação em um momento de recessão, fazendo com que muitas pessoas não tenham mais a menor condição de se alimentar. O Senado calcula que hoje cerca de 20 milhões de brasileiros efetivamente passam fome e 120 milhões de brasileiros tem algum grau de insegurança alimentar. É como se a Região Metropolitana de São Paulo inteira não tivesse o que comer em casa hoje e mais da metade do Brasil não tivesse a certeza de ter comida no prato até o final do mês.

Isso causa traumas. Os mesmos traumas que nossos avós e pais tinham estão sendo renovados. E teremos, por mais uma ou duas gerações, que lidar com os problemas decorrentes desses traumas: (1) a visão do medo da fome como prioridade fundamental, a criação de uma política de inclusão à partir da necessidade mais básica (comer). (2) a reconstrução de um país inclusive para que as pessoas possam lidar com esses traumas cotidianos, a recriação de redes de solidariedade e de colaboração social destruídas nos últimos anos. Hoje em dia, a fome atinge as famílias desempregadas, as crianças e os idosos, que veem o poder de compra de suas aposentadorias ser destruído por uma inflação galopante, especialmente nos gêneros alimentícios.

É preciso dizer aqui que a inflação dos gêneros alimentícios é provocada pelo próprio governo. Ao contrário do que Bolsonaro disse na ONU, não há um “aumento global” no preço dos alimentos, embora o valor das commodities efetivamente tenha subido. Há, sim, uma escolha deliberada do governo Bolsonaro por exportar, em detrimento do mercado interno. É como se, em alguma medida, os alimentos do país fossem expropriados da mesma forma que os alimentos irlandeses eram destinados pelo Império Britânico na década de 1840, enquanto os irlandeses passavam fome. A concentração de terras e a destinação dos alimentos para o exterior está fazendo com que o brasileiro, a exemplo dos irlandeses na década de 1840, tenha uma alimentação cada vez mais pobre. Tudo para que um pequeno grupo de bilionários fature ainda mais.

Quando a praga das batatas explodiu na Irlanda, em 1845, ela redefiniu a história do país. Mais de um milhão de pessoas morreram de fome, e outro milhão emigrou desesperadamente para países como os Estados Unidos. É um caso de trauma transgeracional, que mostra como a fome pode ser definidor até mesmo de símbolos nacionais. No Brasil, a fome e a concentração de terras levaram ao surgimento de movimentos como o MST, que estão fazendo um papel homérico para que a fome não seja ainda maior entre os mais pobres. E, não por coincidência, são demonizados pelos bolsonaristas, ligados aos grandes proprietários de terra agroexportadores.

Tudo para falar que sim, a fome é um trauma que transita entre gerações e ajuda a definir a identidade de um povo. É algo tão horrível e lancinante que nem quando o “estado de fome” cessa ele é esquecido, trazendo efeitos individuais, sociais e políticos. É por isso que o combate à fome deveria ser a primeira prioridade do país hoje, mas aparentemente Bolsonaro prefere não fazer nada, acenando com desculpas esfarrapadas enquanto ignora o fato de que o país que ele administra está perecendo por causa da administração dele. E teremos um imenso trabalho para consertar esse rasgo na alma do país quando finalmente conseguirmos arrancar Bolsonaro do poder.

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