A Fusão Entre DEM e PSL Não é Demonstração de Força. É Sinal de Fraqueza.

Está cada vez mais próxima a fusão entre DEM e PSL. Com a perspectiva de que o Senado permitirá poucas mudanças nas regras eleitorais, ignorando muitas das mudanças que foram aprovadas pela Câmara, é possível dizer que esse sintoma é sinal de enfraquecimento em ambas as legendas.

Em uma primeira análise, é preciso dizer que a fusão é sim conveniente, e talvez por isso a discussão entre ambos os partidos esteja tão avançada. E ambos os partidos estarão enfraquecidos após 2022, o que justifica, de certa forma, o desespero em viabilizar a fusão já no processo eleitoral atual.

No PSL, Luciano Bivar tem uma enorme bomba na mão. O tamanho atual do partido (53 deputados) é totalmente artificial, e foi provocado pelo momento absurdo que foi a eleição de Bolsonaro em 2018. O PSL até 2018 era um partido totalmente desestruturado é pouco capilarizado no país. Embora a vinda de Bolsonaro tenha sido acompanhada por um razoável aporte de recursos, vindo especialmente de empresários, isso não serviu para que o PSL se fortalecesse na política local. Prova disso é que o PSL terminou 2020 elegendo meros 90 prefeitos. Para um partido com a segunda maior representação na Câmara, é um retrato mais fiel do tamanho.

Para piorar, o PSL está rachado e sabe que metade dos deputados (25 a 27, provavelmente) está de saída do partido, indo para o “partido do Bolsonaro” assim que o Bolsonaro anunciar filiação a um partido. Qual é o grande trunfo que resta para Bivar? O enorme fundo eleitoral que o PSL deve receber em 2022. Mas é perceptível que esse fundo eleitoral inflado só virá em 2022. As condições extremamente favoráveis de 2018 não se repetirão.

Do lado do DEM, temos um partido que é tradicional, está capilarizado e cresceu nos últimos anos, como parte da base aliada de Bolsonaro. Nesse cenário, o partido elegeu 459 prefeitos, o que fez o partido se colocar como o quinto partido com mais prefeituras do país. Isso ajuda muito na hora de fazer uma campanha eleitoral. O problema do DEM é outro: com 28 deputados, o fundo eleitoral do DEM é insuficiente para alimentar uma campanha capilarizada pelo país.

Além disso, existem desgastes pelo fato do partido se colocar como base do Bolsonaro: a expulsão de Rodrigo Maia pelo comando do partido é a maior evidência disso. O DEM está espremido em uma crise de identidade entre o apoio prático ao governo Bolsonaro e a tentativa de se colocar como uma terceira via, ainda que não haja no partido nenhum grande nome para isso (convenhamos que Luiz Henrique Mandetta não empolga ninguém em setembro de 2021).

A fusão entre os dois partidos parece conveniente, olhando esse cenário. Um partido tem capilaridade, o outro tem um fundo eleitoral inchado. Essas condições não devem se repetir, então o momento para a fusão é agora. Mas, ao mesmo tempo, ela tem tudo para dar errado.

Por Que Vai Dar Errado?

Em primeiro lugar, quando você funde partidos você também funde estruturas. Isso quer dizer um limite menor de candidatos: cada estado pode ter no máximo cem candidatos a deputado de um mesmo partido, e dependendo do tamanho do partido esse número é ainda maior.

O problema aí é que o número de deputados em cada estado é definido pelo quociente eleitoral. Esse é o grande motivo pelo qual é quase impossível um partido eleger mais de cem deputados no Brasil no contexto atual. E por que é quase impossível? Porque, para eleger 20% dos deputados de um estado, você precisa ter vinte por cento dos votos, e isso é muito raro, geralmente sendo causado por um candidato presidencial forte puxando votos. O exemplo mais cristalino disso é o próprio PSL com Bolsonaro, que teve 20,89% dos votos válidos para deputado federal em São Paulo e 22,18% dos votos para deputado federal no Rio de Janeiro.

Vejam bem: se em um fenômeno como o de 2018, movido pelo bolsonarismo, o partido não passa desses patamares, não existe nenhum motivo para achar que DEM e PSL juntos conseguirão grande destaque, mesmo com muito dinheiro do fundo partidário. Estando juntos em um partido, DEM e PSL terão menos candidaturas e um quociente eleitoral que tende a ser menor do que seria se os dois partidos concorressem em separado.

Além disso, tanto os crescimentos do PSL (em 2018) quanto o crescimento do DEM (em 2020, especialmente ) foram impulsionados por um fenômeno que está em crise: o bolsonarismo. Ambos os partidos inclusive querem se desvincular do nome de Jair Bolsonaro. Isso coloca ambos os partidos em situação complicadíssima: os políticos locais terão enorme dificuldade de se vincular a candidatos presidenciais. Essa falta de identidade eleitoral tira muito da credibilidade dos políticos locais, e não há dinheiro que mude isso. Óbvio que será comum ver políticos do “DEM-PSL” com vinculações não oficiais ao Bolsonaro em alguns locais, mas a estratégia nacional estará comprometida, o que vai tirar votos desses partidos especialmente nas grandes cidades.

Além disso, a similaridade entre os programas de ambos os partidos fará com que os candidatos desse novo partido disputem o mesmo público. Há pouca complementaridade entre os partidos, o que deve promover uma carnificina entre candidaturas em vários locais. Com uma base de votos reduzida em virtude da crise do bolsonarismo, a revoada dos deputados bolsonaristas e uma estrutura em processo de fusão, é provável que esse partido novo que será fruto da fusão entre DEM e PSL reduza pela metade seus atuais 81 deputados.

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