Uma Epidemia de Brasil

Pego o carro, vou até o pronto-socorro. O trânsito habitual de Santo André me faz gastar quarenta minutos num caminho que seria de apenas quinze, mas finalmente deixo meu carro no parquímetro (o que significa que estou com sorte, não se acha hora de estacionamento por menos de dez reais perto do Hospital Brasil) e vou até o Pronto Socorro. Sim, sou um privilegiado que possui convênio médico, e ele não é Prevent Senior, o que me faz realmente muito privilegiado.

Chego no Pronto Socorro, pego a ficha, espero o atendimento por meia hora porque hospital particular também tem só duas recepcionistas para cinquenta pacientes. Se bobear o SUS é mais rápido nisso.

– Documento e carteirinha do convênio, por favor – diz a recepcionista.

– Ok, aqui.

– Quais são os sintomas?

– Náusea, fraqueza, ânsia de vômito, tontura, indisposição de sair da cama pela manhã, calafrios, falta de ar, dores de cabeça, nas costas, falta de…

Ela me interrompe:

– Apresentou coriza, febre, dor de garganta ou dificuldade pra respirar nas últimas duas semanas?

– Não que eu me lembre.

– Ok, então, vou preparar sua ficha aqui.

Dez minutos depois:

– Pode assinar aqui, o doutor vai te chamar.

Quarenta minutos se passam. Televisão ligada na CNN. Eu alternando redes sociais no celular como toda pessoa sem noção faz. Deveria estar jogando joguinho como é comum entre as pessoas bem intencionadas, porque as redes sociais só fazem a gente passar nervoso. De repente, minha senha é chamada na tela. Lá vou eu para a sala de triagem.

A enfermeira:

– O que você está sentindo?

– Olha, eu estou com náusea, fraqueza, ânsia de vômito, tontura, indisposição de sair da cama pela manhã, calafrios, falta de ar, dores de cabeça, nas costas, acho que estou com psoríase…

Ela me interrompe exatamente do mesmo jeito que a recepcionista da entrada

– Ok, vou medir seus sinais vitais.

Depois de medir:

– Sua pressão está um pouco alta, mas sua oxigenação tá em 98, então está tudo bem. Espera na salinha ali do lado que o médico já vai te chamar.

Mais cinco minutos se passam e o médico finalmente me chama. Ele era um daqueles jovens bonachões que não tem muito tempo de formado mas sabem muito bem mostrar algum interesse por você. No pronto socorro isso é importante, as piores experiências de atendimento que já tive em pronto socorro foram com médicos acima de quarenta anos que provavelmente estavam frustrados com a profissão e descontavam essa frustração nos pacientes. Sabe aqueles caras que acham que você está mentindo e só quer atestado? Então, já fui vítima de vários caras assim. Mas felizmente não era o caso desse sujeito. Ele já chegou perguntando.

– É.. Leonardo. Boa tarde. O que você está sentindo?

– Acho que estou com Brasil, doutor?

Ele fez uma cara de espanto e perguntou, como se eu tivesse fazendo piada dele:

– Brasil?

– É, Brasil. Há tempos estou assim e nos últimos dias venho piorando. Eu acompanho notícias sobre o Brasil e me dá náusea, fraqueza, ânsia de vômito, tontura, indisposição de sair da cama pela manhã, calafrios, falta de ar, dores de cabeça, nas costas, acho que deu até psoríase aqui.

O médico respirou fundo e falou:

– É , entendo. E o que você está sentindo agora?

– Agora eu estou meio nauseado com as notícias que eu vi na sala de espera, com um pouco de ânsia de vômito, dor de cabeça e uma tensão no pescoço que está me matando.

– Tudo bem. Eu vou te mandar pra sala de medicação, vou te dar um Dramin, um relaxante muscular e um analgésico pra dor de cabeça. Pode ir ali naquela sala de espera no corredor que vão te chamar.

Eu me dirijo a sala de espera e logo que eu chego o enfermeiro me chama.

– Leonardo?

– Eu.

– Vem comigo.

Eu passei uma hora na sala de enfermagem sendo medicado. Uns 40 minutos dormindo por causa do Dramin. Quando eu acordei, avisei o enfermeiro que a medicação já tinha acabado. Ele disse para eu esperar em uma das inúmeras salas de espera do Pronto Socorro do hospital.

– O doutor já vai te chamar.

Eu estava totalmente dopado, então só assenti. Dez minutos depois o doutor chama:

– Está melhor?

– Sim, a náusea passou um pouco, a tensão no pescoço também.

– Vou te dar um atestado pra amanhã, pode ser?

– Tudo bem, mas eu vou trabalhar do mesmo jeito. Se eu ficar de atestado vendo as notícias é pior.

– Ok, seu atestado está aqui. Vou te dar um relaxante muscular para tomar sete dias de doze em doze horas, ele dá um pouco de sono, então recomendo tomar logo antes de dormir. Se você se sentir muito mal, volta no hospital.

– Obrigado, doutor.

Eu sai do consultório, peguei meu carro. Sorte que já tinha passado das seis da tarde, eu esqueci de renovar o parquímetro. Fui na farmácia e comprei o relaxante muscular. Também comprei um remédio para dor de cabeça.

Cheguei em casa, abri o Twitter. O governo Bolsonaro tinha falado mais uma atrocidade. Alguma coisa sobre proibir vacinas pra adolescentes. Os sintomas voltaram.

Estamos vivendo uma epidemia de Brasil.

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