A Moratória da Soja – Como o Brasil Pode Ajudar a Salvar o Planeta

O assunto do no vídeo do Canal do YouTube começou com um tweet que eu soltei na terça-feira:

Eu amadureci a discussão e inseri novos dados para que essa discussão pudesse ser feita com mais embasamento:

No momento, o STF discute a questão do Marco Temporal das demarcações indígenas. A apreciação da tese estapafúrdia de que uma terra indígena só pode ser demarcada se os indígenas forem donos dela em 1988 ignora não só a História do país, mas os inúmeros crimes cometidos pelo estado brasileiro durante a ditadura militar. O Ministro Alexandre de Moraes pediu vistas do processo, o que deve levar a decisão sobre o tema para a mão do Congresso, fortemente influenciado pela bancada ruralista. Dado esse cenário, nós vamos no sentido oposto. Para combater as mudanças climáticas e as inúmeras crises que o Brasil vem vivendo nos últimos anos (queimadas descontroladas, biomas sendo destruídos, crise hídrica e elétrica), a sugestão é que o processo comece a ser revertido. A soja tomou os solos do país inteiro nos últimos 50 anos, inutilizando muitas terras e afetando decisivamente o regime de chuvas.

O papel da mudança no uso da terra é tão preponderante que o balanço de carbono da pesquisa “Amazonia as a Carbon Source Linked to Deforestation and Climate Change” mostrou que a Amazônia atualmente emite mais dióxido de carbono para a atmosfera do que absorve. A Amazônia brasileira, em específico, emitiu entre os anos de 2010 e 2018 a média de 0,87 gigatoneladas de CO2 para a atmosfera por ano. Na comparação entre esse dado e a estimativa total de emissões de CO2 no Brasil no período, mostrada na figura a seguir, é possível constatar que entre 2010 e 2018 a emissão de CO2 na Amazônia foi responsável por mais de 40% das emissões totais de CO2 no Brasil, sendo associada especialmente à mudança do uso da terra, vinculada ao desmatamento e às queimadas, e à agricultura praticada na região.

Estimativa de Emissão de CO2, Brasil, 1990-2019. (Fonte: Análise das Emissões Brasileiras de Gases de Efeito Estufa e Suas Implicações Para as Metas de Clima do Brasil 1970 – 2019)

O relatório traz um dado preocupante associado a atuação do governo Bolsonaro, ainda que a pesquisa abarque só um ano de governo:

“Foi de 9,6% o aumento das emissões brutas de gases de efeito estufa do Brasil no ano de 2019, o primeiro do governo de Jair Bolsonaro. No ano em que o país teve sua governança federal de clima desmontada, com a extinção da Secretaria de Mudança do Clima e Florestas do Ministério do Meio Ambiente e o engavetamento dos planos de prevenção e controle do desmatamento (PPCDAm e PPCerrado), o país lançou na atmosfera 2,17 bilhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente (tCO2 e), contra 1,98 bilhão em 2018. O PIB nacional no mesmo ano subiu 1,1%, o que sugere que as emissões no Brasil, diferentemente das da maioria das outras grandes economias, estão descoladas da geração de riqueza.”

O trabalho do Observatório do Clima e de outros parceiros também mostra como a maior parte das emissões de CO2 no Brasil tem origem na agricultura e na mudança do uso da terra. No final, o vilão é menos o seu carro (segue sendo importante tornar as cidades menos poluídas) e mais o grileiro do agronegócio que desmata florestas e destina a área para agricultura e pecuária extensiva. Por isso mesmo, os dois estados que mais emitem CO2 no Brasil atualmente são Pará e Mato Grosso:

Estimativa de Emissão de CO2 por estado, Brasil, 2019. (Fonte: Análise das Emissões Brasileiras de Gases de Efeito Estufa e Suas Implicações Para as Metas de Clima do Brasil 1970 – 2019)

Plataformas como o MapBiomas mostram o quanto o Brasil perdeu de florestas, Cerrado, Pantanal e outras formações naturais entre 1985 e 2020 (Aqui: ) É hora de parar tudo. De reverter as legalizações de grilagens. De tomar de volta o terreno que deixou de ser floresta e foi destinado ao plantio de soja nos últimos dez quinze anos. É hora de começar a reflorestar as áreas que ainda podem ser reflorestadas. De romper essa lógica nefasta de que “agro é desenvolvimento”. Não é.

O Brasil está se tornando mais seco, mais pobre e mais desigual com o agro. A ideia de romper esse ciclo e de começar a reflorestar o país novamente está alinhada ao que há de mais avançado no mundo em relação ao tema das mudanças climáticas. É preciso entender que a terra não é um ativo a ser explorado, como a filosofia desbravadora que considera soja como sinônimo de desenvolvimento acha. A terra, ao contrário disso, é o chão em que construímos nossas vidas. Nossa relação com a terra não deve ser de exploração, mas de cuidado e de aprendizado. A caminhada para reflorestar o Brasil vai ser longa, complexa e cheia de sobressaltos. Mas a decisão política de começar essa caminhada precisa ser feita agora.

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