Supercentenários e a Pesquisa Pelos Limites da Vida Humana

Kane Tanaka, 118 anos

No próximo dia 19 de setembro a japonesa Kane Tanaka, atual decana da humanidade, vai completar, de acordo com o Gerontology Research Group, a idade de 118 anos e 260 dias. Ela é a terceira pessoa a atingir essa idade desde que há verificação dos registros, e a primeira desde Sarah Knauss, que morreu em 30 de dezembro de 1999 aos 119 anos e 97 dias de idade.

Nesse dia, Kane Tanaka terá vivido um ano a mais do que qualquer outra pessoa do mundo no século XXI. A pessoa mais idosa que havia vivido no século XXI era a também japonesa Nabi Tagima, falecida aos 117 anos e 260 dias em 21 de abril de 2018.

Por que esse tipo de registro é importante? Porque é uma experiência em curso dos limites de durabilidade do corpo humano. As duas pessoas verificadas que viveram por mais tempo foram a francesa Jeanne Calment (122 anos e 164 dias) e a já citada norte-americana Sarah Knauss (119 anos e 97 dias). Os cientistas estudam os dados de ambas até hoje para entender qual é o segredo de ambas para terem vivido tanto, e o caso de Jeanne Calment em específico é tão estatisticamente improvável que desde a sua morte pesquisadores chegaram a duvidar de seu recorde, a ponto de novos estudos terem sido realizados em 2019 para confirmar a autenticidade dos 122 anos de vida de Jeanne Calment.

Só que estes estudos tem limitações: ambas morreram na década de 90, quando as tecnologias para compreender os processos de envelhecimento do corpo humano ainda estava menos desenvolvidas que hoje. É possível examinar os restos mortais dessas pessoas, mas não há como ver os processos vitais funcionando ao vivo.

Nos últimos 21 anos a maior alegação de que os casos de Jeanne Calment e Sarah Knauss eram fraudes tinha natureza estatística. Para matemáticos que pesquisam os limites da humanidade, não era possível as pessoas chegarem a um lifespan de 122 anos. O fato de que nesse período a vida de grandes supercentenários não passou de 117 anos contribuiu pra essa desconfiança. Antes de Kane Tanaka, as quatro últimas decanas da humanidade (sempre mulheres) faleceram aos 117 anos. Antes delas, a idade máxima variava entre 114 e 116 anos. Então para os matemáticos, era comum que essa faixa de idade fosse enxergada como um “limite de viabilidade” da vida humana.

E sim, mulheres vivem mais que homens. O homem mais idoso verificado que viveu, Jiroemon Kimura, morreu com 116 anos e 54 dias. Vinte mulheres já superaram essa idade, e quatro delas estão vivas, incluindo aí duas brasileiras: a cearense Francisca Celsa da Silva, nascida em 21 de outubro de 1904, e a baiana Antonia da Santa Cruz, nascida em 13 de junho de 1905. Hoje, Francisca é considerada a terceira pessoa mais idosa do mundo e Antonia é considerada a quarta.

No entanto, é preciso ressaltar que a verificação de idade é um processo complexo, que vai muito além da apresentação de documentos. Até porque aleagações de longevidade extremas são comuns, e as pessoas costumam espalhar essas alegações porque em tese elas são uma boa notícia para quem não deseja morrer. Todo mundo já ouviu falar de algum “senhorzinho ou senhorinha de 130 anos” que vive em algum lugar. Normalmente essas alegações de longevidade extrema não se comprovam com documentos e exames. No Brasil mesmo sempre foi comum a confecção de documentos com base em autodeclaração ou em interesses de momento, o que inviabilizava a análise da data de nascimento.

Antigamente isso tinha a ver com escravidão e com outros fatores ligados a quem fazia os registros. Quem analisa registros históricos sabe muito bem que há um problema de confiabilidade nos dados do interior do país: até o final do império a Igreja Católica tinha papel cartorário no Brasil, registrando os nascimentos. E, pra ficar num exemplo: o número de registros de 1870 é anormal. Isso ocorria porque a Lei do Ventre Livre dizia que os filhos de escravos nascidos à partir de 1871 eram livres. No interior cafeeiro era comum que existissem acordos entre religiosos e latifundiários (que detinham o poder político) pra que essas crianças fossem mantidas escravas.

Também é preciso ressaltar que, no caso brasileiro, tem muita gente que só foi fazer documento de identificação na velhice. Então nem é fraude, mas a pessoa alega uma idade lá (sim, tem muita gente que não sabe a sua idade) e ela sai no documento. Quer dizer que ela tem tudo aquilo? Não. É por isso que algumas pessoas tem documento além dos 120 anos aqui no Brasil, mas nenhuma delas consegue comprovar a idade. Em algumas dessas pessoas foram feitos exames ósseos, sempre com estimativa de idade muito menor, o que inviabiliza a alegação de longevidade.

Documentos por si só não são confiáveis, especialmente se emitidos há mais de um século. Existem outras formas de autenticação, como registros da época e exames ósseos e corporais para fazer uma estimativa da idade óssea. Mas esse é um tema de estudo complexo e pesquisadores estão descobrindo só agora os limites de viabilidade do funcionamento do corpo humano de forma mais detalhada. É por isso que registros como o de Kane Tanaka são importantes. Os cientistas examinam e verificam ao vivo como funciona um corpo humano próximo à idade de 119 anos, e essa é uma chance inédita em muito tempo. Isso ajuda a entender processos de envelhecimento e a criar mecanismos contra eles.

Para vocês terem ideia de como estamos falando de idades impensáveis. A Fundação SEADE estima que um a cada 1344 paulistas chegará aos 100 anos em 2050. Dá 0,074%. Desses, a estimativa é que entre 0,15 e 0,25% cheguem aos 110 anos. A partir daí a chance de morte a cada ano é 50%.

Considerando 47 milhões de paulistas, seriam 35 mil pessoas com mais de 100 anos em 2050. E, na média da estimativa, 70 pessoas com 110 anos. E, de acordo com a estimativa, 35 com 111 anos, 18 com 112, 9 com 113, quatro com 114, duas com 115 e possivelmente uma com 116.

Sim, existem outliers, mas cada ano acima dos 116 tem probabilidade menor disso. Por essa estatística, a chance de termos no estado de São Paulo pessoas à partir de 117 anos seria, no ano de 2050:

117 anos: 55% de chances de ter uma pessoa;

118 anos: 27% de chances;

119 anos: 14% de chances;

120 anos: 7% de chances;

121 anos: 3% de chances;

122 anos: 1% de chances.

Isso, vejam bem, em 2050, num cenário bem mais favorável ao atual. No Censo de 2010, foram contabilizados apenas 3.234 centenários no estado de São Paulo.

Os franceses que revalidaram a idade de Jeanne Calment desenvolverem uma análise estatística que torna as coisas ainda mais difíceis: analisando dados de nascidos vivos entre 1875 e 1903, eles chegaram à conclusão de que a possibilidade estatística de um centenário atingir os 122 anos era de aproximadamente uma em cada 10 milhões.

Para termos ideia: se pegarmos os 3.234 centenários e dividirmos por essa probabilidade, chegaremos à conclusão de que a chance de existir no momento uma pessoa vivendo no estado de São Paulo com 122 anos de idade é de 0,03%.

É por isso que casos como o de Jeanne Calment e de Kane Tanaka atraem tanto interesse. Estão no limite do estatisticamente improvável, e podem ajudar a entender quais processos dentro do corpo humano ajudam as pessoas a viverem mais.

Se você quiser conferir a lista das pessoas mais idosas do mundo validadas pelo Gerontology Research Group, ela está nessa tabela.

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