O Dia em Que eu Entendi que Músicas Contam Histórias Sobre a Nossa Vida

Eu sempre gostei muito de uma música específica do Rod Stewart: Sailing. É uma música meio brega, um clichê enorme de tiozão, mas desde sempre me encantou, é uma das músicas que eu posso considerar como um dos “hinos” da minha vida, ainda que eu nem seja tão fã assim do restante do trabalho do Rod Stewart.

Isso é um tanto quanto engraçado, porque as minhas preferências musicais sempre foram muito pessoais. De certa forma, sempre achei que as pessoas não fossem gostar das músicas que eu gosto ou não fossem se identificar com as minhas preferências. Além disso, acostumei a ouvir música escondido na adolescência, quando minha família se tornou evangélica e a igreja começou a fazer uma enorme pressão para que não ouvíssemos “música do mundo”.

Isso, de certa forma, fez com que eu me fechasse em relação ao tema. Por algum tempo, comprei vários CDs, a exemplo de meus pais, que tinham vários vinis e fitas. Ali no final dos anos 90, cheguei a gravar algumas fitas com músicas que eu escutava nas rádios. Assim como eu gravava clipes no início da MTV, mas com esses eu nem contava porque sempre tinha algum familiar gravando coisas estilo filmes da Sessão da Tarde ou receitas da Ofélia por cima.

Nem mesmo depois de adulto eu tive muita mudança em relação a isso. Música para mim sempre foi um negócio muito individual, eu nãos frito minhas afinidades e meus grupos de amigos com base nas músicas que eu escutava, como fazem boa parte dos jovens. De roqueiros a k-popers, passando por sertanejos universitários, eu sempre vi as pessoas tendo na música uma forma de afirmar identidade. Não foi falta de tentativa: eu só não tinha uma tribo na qual eu pudesse me integrar. Acabei virando aquele cara meio eclético que participa de tudo (ou de nada, dependendo do meu estado de saúde mental).

Isso não impede que existam algumas músicas que sejam parte de nossa vida e contém histórias sobre a gente. Isso pode parecer muito óbvio para você, mas não era para mim. Sobre Sailing, em específico: é uma música que estava no meio dos vinis que meus pais tinham. Não era nem mesmo um vinil do Rod Stewart, era uma dessas coletâneas de música romântica que as gravadoras faziam entre os anos 70 e 80.

É engraçado, porque a música é uma dessas músicas bregas sobre amor e liberdade que acabaram virando um hino dos jovens de uma geração anterior. É quase uma viagem para a época em que meus pais eram jovens e tinham sonhos de jovem, ainda que eles mesmos não se importassem tanto com a música. Era só mais uma música que refletia os anseios de uma geração de jovens. E sei lá, jovens envelhecem.

Ao envelhecerem, jovens abdicam dos sonhos em nome do sonho dos outros. É o que pais fazem pelos filhos. E em certa altura da vida os grandes sonhos morrem: a razão de viver passa a ser o cuidado com os netos, a disposição em descansar um pouco ou o desejo de aproveitar um pouco o que o corpo ainda permite.

A vida é ingrata e cruel. E às vezes a gente entende isso quando ouve uma música. No caso dos meus pais, tem uma questão adicional: além da habitual ausência, sempre tentando trabalhar, eles começaram a ir em igrejas evangélicas na minha pré adolescência. E sempre com aquela visão de que músicas que não são da igreja são proibidas. Eu não tive uma educação musical em casa. É horrível o que o moralismo institucional faz às vezes: junto com as experiência de “restauração de vida”, vem um apagamento da vida pregressa, como se nenhuma construção anterior à conversão fosse boa.

A questão é que músicas transitam pelas nossas vidas, ativam histórias e nos fazem ter empatia pelas pessoas que de alguma forma participaram delas. E talvez por isso que a gente se apegue a um cara com voz esganiçada e estilo brega cantando uma música com letra óbvia.

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