Notas sobre o Imediatismo

Hoje provavelmente a coisa mais “política” que eu fiz foi dar vacina na minha filha mais nova (as habituais, não a de COVID), e pra falar a verdade eu fico bem triste que isso seja visto como um ato político. Culpa dos anti vacina radicalizados pro Bolsonaro.

Eu assisti uma vitória improvável do Santo André pela Série D do Brasileiro no celular, passei o dia com as crianças, perdi tempo passando um café, comprei um balão da Masha pra minha filha depois que ela tomou vacina.

Cada vez que eu saio na rua, eu tenho a certeza de que a discussão sobre política está cada vez mais restrita às redes sociais, e também parece cada dia mais inacessível. Essa semana mesmo passei em uma sorveteria perto de casa e dois bolsominions falavam besteira. Entre o resto do pessoal, era notório o incômodo. Não só pela defesa apaixonada do Bolsonaro, mas principalmente por eles “estragarem o ambiente falando de política”

As pessoas não querem ouvir sobre política no mercado, na fila do banco ou no parque enquanto fazem caminhada. Só nas redes sociais as pessoas falam sobre o tema do horário em que acordam até o horário em que dormem. E mesmo nelas, muitas vezes elas assumem a pecha de chatos. Eu mesmo já fiz isso muitas vezes, e já fui chamado de chato em várias oportunidades. Às vezes tenho que me policiar para me desvincular um pouco das discussões políticas na Internet, que ultimamente não tem levado a lugar nenhum.

Isso acontece porque o imediatismo tomou nossas vidas. É um problema que no Twitter se manifesta de forma mais grave que nas outras redes: tudo é imediato e decisivo, não existem construções de longo prazo, não se consegue enxergar adiante. Toda manifestação é a última, toda fala é sempre a mais grave, toda notícia é a mais alarmante. Às vezes somos enganados e no final não é nada disso, mas os pedidos de desculpas pelos erros geralmente tem muito menos repercussão que os erros em si.

Falo isso porque essa noção imediatista dá valor demais a algumas coisas que não tem tanto valor assim. Para ficar em um exemplo: Bolsonaro está em um processo de esvaziamento. É um processo de longo prazo, que não vai se resolver em um dia. Esse processo não depende de uma manifestação ou de uma fala em específico do presidente. Bolsonaro não vai terminar o fim de semana nem fora do poder e nem com 75% de aprovação.

Então por que tudo parece extremamente urgente? Porque muito da militância política nas redes sociais é baseada na economia da atenção. Todos seguem empenhadíssimos em mostrar “a minha pauta é mais importante é urgente que a sua”, e, para isso, precisam dar aos seus atos uma importância que eles não tem. Em uma semana, Temer virou o “salvador do Bolsonaro” e o MBL virou o “salvador da democracia”. Todos querem surfar em causas diversas para se autopromoverem e criarem narrativas enviesadas. Nada disso faz sentido, mas outra característica do jornalismo em tempos de redes sociais é que ele se confunde com assessoria de imprensa mais vezes do que seria desejável.

Isso tudo é para falar que você não precisa sair correndo. O país não depende de você. Aproveite um pouco a sua vida, esfrie a sua cabeça, cuide da sua saúde, gaste tempo dando risada, divirta-se com coisas triviais. As pessoas próximas a você precisam que você esteja bem. Deixe seu engajamento só para aquilo que faz você se sentir confortável, evite os conflitos criados por quem só quer chamar a atenção. Se derrubar Bolsonaro é urgente, também é urgente que todos nós fiquemos bem, porque teremos muito trabalho para reconstruir e descontaminar o Brasil após a saída de Bolsonaro. E não conseguiremos fazer isso se formos contaminados pelo imediatismo dos grupos que só querem chamar nossa atenção para colher autopromoção, e fazem isso enquanto se aproveitam de forma oportunista das causas que soam mais nobres.

2 comentários sobre “Notas sobre o Imediatismo

  1. Me lembrei do Médicos Sem Fronteiras lendo o seu texto: cada médico fica “em campo” por até um ano, e todos são remunerados, para que o profissional e sua família não fiquem prejudicados pelo trabalho voluntário.

    Infelizmente, a “economia do ativismo” exige das pessoas mais do que elas podem oferecer e não recompensa decentemente (não em dinheiro, e sim participação política). Ficar mobilizado a todo tempo prejudica a mente.

    Vão aparecer muitas vítimas dessa “guerra híbrida” nos próximos anos. Desnutridos crônicos de bons afetos, feridos e mutilados internamente por conta desse ambiente de ódio.

    O que me entristece é que muitos mantém esse ambiente. Gente de todas as partes do espectro político, achando que fazem um mundo melhor assim 😦

    Espero que receba muito amor (e dê amor também) para sobreviver a esse tempo.

    Abraços!

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