Dia 12, Faça o Que Você Quiser

Eu tenho sérias ressalvas com o MBL. Infelizmente eu tenho boa memória, o que me leva a lembrar de eventos lamentáveis como o do Queermuseu ou de quando eles espalharam a notícia falsa de que Marielle era amante de um traficante. Para mim, eles sempre foram um bolsonarismo teen com pouca capacidade intelectual e só mudaram de postura quando viram que a vinculação ao bolsonarismo era um tiro no pé, do ponto de vista da popularidade. Seguem defendendo pautas que transitam da pura e simples falta de noção a ma fé completa.

Oportunistas como sempre, eles reservaram o dia 12 de setembro para uma manifestação assim que Bolsonaro marcou sua manifestação para o dia 07. Em comum entre ambos os grupos, o desespero para mostrar relevância. Hoje, Bolsonaro representa o que há de mais atrasado na política nacional, mas o MBL não está muito atrás. É de se pensar: se esse pessoal pensa assim aos 25 anos e não tem nenhuma autocrítica, imaginem a pororoca de chorume que será o pensamento deles aos 60.

E é esse o meu grande problema com o MBL. Caras como o Reinaldo Azevedo também tiveram papel preponderante na formação dessa direita bolsonarista rancorosa. Mas Reinaldo Azevedo efetivamente parece ter se arrependido. Sabe fugir de discursos simplistas e canalhas como o de que Lula é igual a Bolsonaro. O MBL não. Segue nessa mesma toada, porque se considera até hoje um grupo de pequenos gênios com a incumbência de transformar o país em um paraíso neoliberal.

É perfeitamente plausível que, com esse currículo e com essa postura, o MBL não seja exatamente um movimento agregador. Pelo contrário, aliás. Expoentes do movimento como Arthur do Val ganharam projeção ridicularizando os outros de forma bem desonesta. E a coisa piora, afinal a estratégia de interditar o debate político ridicularizando os outros é um método difundido por todo o movimento. Dos grandes expoentes aos militantes locais, a forma de atuar é a mesma: criando cisões e impedindo consensos, para poder ter espaço espalhando ideias malucas. Isso pode ser ótimo para as redes sociais, mas é péssimo para as relações políticas como um todo.

Por todo esse histórico, eu entendo perfeitamente quem não queira pisar no mesmo quilômetro quadrado que eles. É uma escolha justificada e não deve ser questionada. Eles foram responsáveis por alguns dos momentos mais deploráveis da política nos últimos anos, e olha que a concorrência foi realmente forte. Eu também não gostaria de concordar com eles em nada, e por isso mesmo entendo bastante quem quer se afastar. No fundo eu mesmo gostaria de me afastar, porque eu não gosto mesmo de estar por perto de gente arrogante e de mau caráter que nem a grande maioria ali.

Por outro lado, junto com Bolsonaro veio o pior Congresso da História. E isso porque o Congresso de 2015-2018 já era terrível. Se a intenção é derrubar o Bolsonaro, infelizmente as premissas são essas: a gente vai ter que convencer a Joice Hasselman, o Frota, o PSDB, o Novo, os partidos do centrão, o MBL. É essa galera com 90% de votos pró Bolsonaro nos projetos que precisa ser convencida. Se essa galera não apoiar explicitamente o impeachment, que eles ao menos passem de passar os projetos do Palácio do Planalto como um rolo compressor. Se Bolsonaro não cair, que eles sirvam ao menos pra ajudar a obstar tudo.

E esse trabalho de aproximação inclui reforçar a manifestação do dia 12. Especialmente agora, que Bolsonaro vai querer usar a manifestação do dia 07 como demonstração de força. Então, se você não tem tanto estômago embrulhado assim com o MBL ou uma capacidade franciscana de perdoar, vá ao ato. Quanto mais gente, melhor. É notório que hoje Bolsonaro é o grande inimigo do Brasil e deve ser combatido em todas as frentes.

No final, faça o que quiser. Faça o que for mais confortável. Mas lembre-se: a percepção individual não deve ser a motivação da sua atitude política. Aliás, até pode, mas só se você se considerar uma pessoa de direita ou de centro-direita. Uma atitude política baseada em percepções individuais e não em pautas coletivas fortemente conrextualizadas é só uma opinião política individual, no fim. E é por isso que o bolsonarismo tem um poder de persuasão tão grande também: ele captura as percepções e os ressentimentos individuais, transformando esse conjunto de ressentimentos em ação política destrutiva. Não importa tanto se você vai protestar no dia 12 ou não, mas, independente do que você fizer, busque enquadrar sua posição dentro da lógica de uma ação coletiva contextualizada.

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  1. Pingback: O Choque de Realidade para o MBL | Nada Novo no Front

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