O Último Rei de Israel

Um dos meus maiores equívocos em análise política se deu às vésperas da eleição de 2018. Faltando dez dias para o primeiro turno, eu via a campanha de Bolsonaro como condenada ao fracasso, apanhando de todos os lados e enxergava que a escolha de Bolsonaro pelo eleitorado era um tanto quanto volúvel. Nessas alturas, Bolsonaro não tinha mais que 24% dos votos, de acordo com as pesquisas. Terminou o primeiro turno com 46% dos votos válidos, em um crescimento avassalador.

O fator que eu não contei em minha análise e que se revelou decisivo foi o voto do evangélico. Mais do que o voto: o engajamento do evangélico na campanha de Bolsonaro, com o uso extensivo das estruturas eclesiásticas de muitas igrejas na campanha. Para completar, a campanha da última semana pré eleição se caracterizou pela associação do nome de Bolsonaro com “profecias para o Brasil” proferidas por autoridades religiosas.

Ignorar esse fator não foi casual: para muitos evangélicos, Bolsonaro soava repugnante, com seu palavreado chulo e com sua postura belicosa. Além disso, o púlpito das igrejas sempre foi considerado um “local sagrado” em muitas denominações. Para elas, falar de política no púlpito, pedindo voto, não era considerado apenas inconveniente: era pecado. Os poucos pastores que se aventuravam a pedir voto no púlpito eram vistos com reservas por seus pares. O único pedido de voto permitido era para o membro da congregação que se candidatava ou para o pastor amigo da igreja que “ajudaria com as leis”, compondo bancadas evangélicas em diversos níveis. O afastamento era a tônica para a maioria dos pastores, quando o assunto era a eleição presidencial. É por isso que, numa perspectiva histórica, parecia improvável que a igreja evangélica mudasse de postura e gastasse essa bala de prata da recomendação política justamente em Bolsonaro.

Pois o improvável aconteceu. E com requintes de crueldade: no último domingo pré eleições, houve um pedido coletivo de votos para Bolsonaro em milhares de igrejas. E aconteceu algo pior que isso: um pedido de voto que não era embasado em argumentos racionais, mas que na autoridade profética do pastor e em supostas profecias, nas quais Bolsonaro aparecia como um salvador messiânico para o Brasil. Até a facada foi utilizada para vender Bolsonaro como uma espécie de Cristo que se sacrificou para salvar o país.

Era a subversão absoluta do que era um princípio informal de não interferência da igreja em assuntos mundanos. Ainda que existissem alguns bolsonaristas dentro das comunidades, o apoio institucional com argumentos supostamente bíblicos foi algo inédito, e transformou completamente o rumo da eleição. Porque afetou não apenas os membros das igrejas: afetou seus familiares e amigos. Essas pessoas passaram a ser não apenas eleitoras do Bolsonaro: passaram a fazer campanha. Abraçaram Bolsonaro como a figura de autoridade ungida por Deus. E muitos seguem com Bolsonaro até hoje, sem qualquer crítica ou objeção, afinal ele é o “escolhido de Deus para salvar o país”.

Ter isso em mente é essencial para entender o evangélico bolsonarista e seu processo de radicalização. Para quem se guia por essa miríade de profecias pastorais, Bolsonaro não é um presidente: é um salvador. É uma espécie de cartada única, como vários dos patriarcas heróicos que estão na Bíblia.

Aqui, cabe também uma outra observação sobre o crescimento da igreja evangélica no Brasil: ele se deu em grande parte sob raiz pentecostal e neopentecostal, mas até entre os protestantes tradicionais há uma forte tendência em se fazer uma leitura literal da Bíblia. Existem discussões acaloradas sobre como se deram os seis dias da criação e tentativas acaloradas de se encontrar evidências arqueológicas do dilúvio de Noé. O Brasil tem uma fé altamente “desteologizada”, e quando há teologia envolvida ela está mais preocupada com o sentido etimológico das palavras do que com o contexto em que se desenvolveu o texto bíblico.

Essas características (dentre outras, obviamente), contribuíram para que a fé evangélica do brasileiro fosse muito baseada na experiência pessoal. O evangélico brasileiro é motivo pela leitura literal da Bíblia, sempre com o objetivo de “ouvir a voz de Deus”, o que frequentemente leva a interpretação de mensagens genéricas e coletivas, presas a um contexto específico, como mensagens específicas e individuais. Isso também faz com que a pessoa que prega o evangelho no púlpito ganhe uma importância quase mística, como a “tradutora” daquela mensagem que está na Bíblia para esse contexto específico e individual. Imaginem o efeito quando essa figura quase mística passa a pedir voto para alguém no mesmo espaço em que promove esse serviço de “tradução” das escrituras sagradas.

Isso tem implicações no dia a dia das pessoas. Muitas vezes as atitudes cotidianas são guiadas pela fala do líder religioso. E isso vai criando uma cultura: a Bíblia passa a ser não só o livro que fala da reconciliação entre Deus e o homem, mas passa a ser uma regra social e cultural até em seus piores exemplos.

Sim, porque a Bíblia está repleta de maus exemplos. O Antigo Testamento inteiro é um péssimo exemplo. A serventia do Antigo Testamento é basicamente mostrar o quanto o homem pode se afastar de Deus quando resolve viver por conta própria, e o quanto Deus precisa se esforçar para fazer com que o mundo de alguma forma sobreviva a esse caos até o momento de redenção em Jesus Cristo. É possível imaginar o quão problemático é interpretar essas passagens de forma literal, ignorando fatores culturais, sociais e históricos.

Quando a interpretação da Bíblia é literal, valores da sociedade moderna, como democracia, passam a ser absolutamente irrelevantes. Coisas como o machismo, caracterizado pela submissão da mulher, passam a ser absolutizadas, bem como a discriminação por conta da orientação sexual. E o modelo de governo ideal para o evangélico passa a ser uma junção das características governamentais apresentadas na Bíblia.

A Bíblia, nesse sentido, se caracteriza por exaltar a figura do rei como líder político que, no frigir dos ovos, também tem papel religioso. Além disso, o líder é uma especie de salvador da nação, como ocorreu no caso dos grandes patriarcas. O texto bíblico avaliava os reis individualmente, não importando para isso a equipe ou a estrutura estatal ao redor. O rei era o líder supremo, escolhia a sua equipe e era responsável pela vida de todos, a ponto de serem comuns na Bíblia casos de líderes que puniam com a morte assistentes que se voltavam contra ele.

Além disso, a Bíblia avaliava os reis em dois aspectos, que eram essenciais em uma sociedade do século X a.C. – o militar e o religioso. Todos os demais aspectos da sociedade eram subordinados a esses dois: se havia sucesso militar e o rei era “temente a Deus”. Se o rei preenchesse esses dois pré-requisitos, o país seria automaticamente próspero e feliz.

É exatamente assim que o evangélico bolsonarista enxerga o Bolsonaro. Na eleição de 2018, o evangélico não votou em Bolsonaro para presidente, mas para ser um “rei de Israel”. Alguém que exerce o poder sem amarras, sem constrangimentos, sem ninguém atrapalhando. Todos os que impedem Bolsonaro de concluir seus planos enquanto rei se tornam automaticamente “inimigos do povo de Deus”. E, como inimigos, devem ser eliminados, como um filisteu ou uma amalequita seriam.

Isso explica também a identificação com o tom belicoso de Bolsonaro. Esse tom é familiar ao evangélico que lê a Bíblia de forma literal. O Antigo Testamento inteiro está repleto de batalhas, e a vitória do rei em geral também significava a “vitória do povo de Deus”. É por isso que, ao contrário do que eu imaginei em 2018, o tom belicoso não afastou os evangélicos. Ao contrário, serviu como afirmação de que ele realmente era o “escolhido de Deus”.

Bolsonaro sabe bem disso. E sabe que precisa manter o evangélico como base eleitoral. Para isso, faz três coisas: (1) transforma em inimigos todos aqueles que impedem seus arroubos autoritários, todos os que o impedem de ser o “chefe supremo”, colocando a culpa de sua inépcia nos outros. O STF é o Filisteu da vez, mas já foi o PT, já foi o Congresso, já foram as Universidades, já foi a “ideologia de gênero”. O importante é ter alguém para quem voltar os tanques; (2) Investe fortemente na imagem de chefe militar, inclusive nos eventos rotineiros. Quando Bolsonaro se coloca na frente de um monte de motocicletas, está agindo como comandante militar. Quando Bolsonaro submete as Forças Armadas forçando a troca de comando, está se colocando como esse comandante de tropas diretamente responsável pelo sucesso militar do país, e ainda está trabalhando a memória afetiva do evangélico que quer um comandante militar conduzindo o povo à vitória; e (3) investe diariamente em sua imagem de “homem temente a Deus”, ainda que suas atitudes mostrem o contrário. Está sempre visitando igrejas, para deixar sua mensagem por lá e mostrar que “Deus manda no país”. Além disso, sempre recebe orações ou “aceita a Jesus”. Isso não é casual. Bolsonaro cultivou por anos essa imagem de “escolhido de Deus”, a ponto de ser batizado no Rio Jordão pelo Pastor Everaldo no exato dia em que Dilma era retirada da Presidência da República pelo Senado (12 de maio de 2016).

É por isso que quando Bolsonaro chama os evangélicos para a rua no dia 07 de setembro em defesa de uma pauta autoritária muitos deles vão. E vão felizes, realmente acreditando que estão em uma “luta pela liberdade”. E esse é outro aspecto místico do evangélico que Bolsonaro sabe explorar: o evangélico no Brasil sempre teve muito medo de perseguição religiosa. Sempre teve medo de ser impedido no exercício de sua fé. Essas mesmas igrejas que interpretam a Bíblia de forma literal vivem trazendo exemplo de missionários mortos ou presos por falarem da fé cristã, geralmente em países islâmicos ou comunistas. E, nesse mundo literal, a associação passa a ser automática: se os “comunistas” assumirem o poder, os evangélicos em geral serão perseguidos, exatamente como ocorre com os missionários na Coreia do Norte.

Essa motivação é tão forte que torna admissível o uso da força “em defesa da liberdade”. E é por isso que Bolsonaro tem dito que as manifestações do dia 07 tem esse mote. É uma forma de manter os fiéis mobilizados. Os evangélicos, junto com setores militares – que tem restrições legais de manifestação – são os únicos que mantém uma capacidade relevante de reunir muita gente e levar em uma manifestação de apoio ao presidente. São eles – junto com alguns católicos conservadores – que enchem os ônibus bancados pelo agro que fazem caravana para as manifestações.

É óbvio que todo esse discurso atinge cada vez menos pessoas. Muitos evangélicos se arrependeram de votar em Bolsonaro. Alguns deles perderam familiares para a pandemia, outros estão sofrendo com a situação econômica do país. A vida está difícil e Bolsonaro é diretamente responsável por isso. Mas a questão é que Bolsonaro não precisa de todos: tendo uma multidão radicalizada capaz de encher uma avenida já está bom. É para essa minoria que Bolsonaro molda as suas atitudes, agindo como se fosse um Rei de Israel degenerado, como alguém que quer ser o comandante de um mundo com regras que só faziam algum sentido há 3 mil anos atrás.

É por isso que não adianta levantar qualquer argumento racional para vencer o bolsonarismo. É preciso convencer esse evangélico radicalizado de que Bolsonaro é um “rei mau”. Israel e Judá produziram muitos reis maus: reis idólatras, desleixados, que não se importavam com Deus e que acumulavam derrotas militares. O único jeito de fazer esse povo desembarcar do bolsonarismo é mostrar que Bolsonaro se corrompeu, e se corrompeu sob os critérios deles: é vergonhoso do ponto de vista militar, está muito longe de ser um “homem de Deus” e não tem capacidade de conduzir o país, além de não zelar pela liberdade de ninguém.

Sabem qual foi o último grupo religioso a pedir um rei de Israel antes do evangélico bolsonarista? Os fariseus, na Palestina do século I. Eles aguardavam tão ansiosos por um rei militarista e religioso que não conseguiram identificar a importância de Jesus Cristo. Os evangélicos bolsonaristas fizeram ainda pior: pegaram um arremedo, um cara que nunca fez nada decente na vida, levantaram suas mãos e disseram “esse é o nosso rei”.

5 comentários sobre “O Último Rei de Israel

  1. “Sim, porque a Bíblia está repleta de maus exemplos. O Antigo Testamento inteiro é um péssimo exemplo. A serventia do Antigo Testamento é basicamente mostrar o quanto o homem pode se afastar de Deus quando resolve viver por conta própria, e o quanto Deus precisa se esforçar para fazer com que o mundo de alguma forma sobreviva a esse caos até o momento de redenção em Jesus Cristo.”

    Você critica a leitura literal dos escritos judaicos, e então apresenta a sua leitura objetiva: “o ‘Antigo Testamento’ inteiro é um péssimo exemplo”. Receio que, além do anacronismo, há um desinteresse em conservar o tal distanciamento crítico e interpretativo que representa as tradições espirituais nascidas em torno desses textos.

    “Eles aguardavam tão ansiosos por um rei militarista e religioso que não conseguiram identificar a importância de Jesus Cristo. Os evangélicos bolsonaristas fizeram ainda pior: pegaram um arremedo, um cara que nunca fez nada decente na vida, levantaram suas mãos e disseram “esse é o nosso rei”.”

    Quando somo a minha observação anterior à leitura desse trecho, me sinto forçado a perguntar se você não reconhece um subtexto anti-semítico nos seus argumentos.

    Um abraço, shaná tová umetucá

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    • Creio que não. Até porque não há uma análise política ou étnica de Israel. Eles inclusive são extremamente bem sucedidos nesse aspecto, só por terem sobrevivido aos dois milênios de ocupação da região.

      Quando eu falo isso sobre o Antigo Testamento, é numa visão panorâmica sem nenhuma menção a um povo em específico. Até porque esse movimento ocorreu antes da existência do povo hebreu. É uma referência ao pecado adâmico mesmo.

      E no proprio texto eu mostro que militarismo + religião faziam muito sentido naquela época. Então na prática não há nenhuma crítica aos povos semitas, mas a apropriação que se faz deles hoje.

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  2. O sebastianismo é uma raiz cultural muito forte no Brasil e acredito que nem sempre reconhecida como politicamente relevante. Por ser uma forma de estruturar a compreensão do mundo e das relações sociais e políticas, ele não depende do conteúdo que lhe dá vida. Lendo seu texto, penso que no caso dos evangélicos houve o encontro do “conteúdo” neopentecostal e sua linha de pensamento com a “forma” sebastianista enraizada há séculos em nossa cultura.

    Aliás, aquela frase “Deus não escolhe os capacitados, mas capacita os escolhidos” é apropriado à exaustão pelo bolsonarismo para justificar as suas escolhas e decisões. Não importa se ele não sabe nada de economia, sociologia, história ou qualquer outro conhecimento relevante para exercer o cargo de presidente, porque, no final, ele é um dos escolhidos.

    Ótimo texto. Importante sempre analisar os sistemas de crenças que estruturam a compreensão política de diversos grupos culturais no país. Muitas vezes, os critérios “objetivos” (emprego, inflação, renda, etc.) se tornam secundários diante de valores que são vistos como sagrados (o Destino da nação, a Alma do país, a Liberdade de praticar a crença).

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