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Não Existe Gabinete do Ódio

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Esse texto não é conspiratório. É sobre papéis na sociedade. A ideia de chamar o grupo que espalha notícias fantasiosas com o nome de “Gabinete do Ódio”, tendo esse termo como a designação de algo condenável, diz menos sobre o grupo que espalha fake news do que sobre quem chama aquilo de gabinete do ódio. O termo gabinete do ódio insere de cara um juízo moral condenatório à assessoria do Bolsonaro. Denota, antes de tudo, superioridade moral. E essa superioridade moral só aumenta o ressentimento que é a mola propulsora do bolsonarismo.

Alguns podem dizer “ah, mas o ódio não é relativo ao julgamento da assessoria do Bolsonaro, é o sentimento causado pelas postagens deles”. Isso é uma meia verdade. O ódio é só o fruto final de um longo processo, que começa com um linguajar simples.

Qual é o linguajar simples? Evocar o medo através do sentimento de perda. O medo normalmente é a expectativa da perda, e criar uma sensação de perda significa evocar uma sociedade idílica que “foi perdida” por conta da “corrupção moral” atual. Qual é essa sociedade? A da ditadura militar. Esse é o segundo passo do processo.

Com a exploração do desconforto provocado pela expectativa de perda e com a criação de uma narrativa exaltando um passado idílico (ainda que mentiroso) ligado à ditadura militar, a motivação através do medo está criada. Não é casual que essa motivação seja eficaz entre os mais idosos, que são frequentemente grande parte do público nas reuniões de rebanho do Bolsonaro.

Qual é o próximo passo? A definição de inimigos como atores ativos desse processo de “promoção de perdas” que fez o Brasil sair daquele passado idílico para um presente degenerado. Os inimigos devem ser genéricos e abstratos, mas devem vir à tona em exemplos que toquem no senso comum como conformadores da narrativa de degeneração pós ditadura: daí nasce a guerra a “corrupção do PT”, ao STF, ao Congresso, a urna eletrônica, as universidades, a ideologia de gênero e ao comunismo em geral. Inclusive, para eles, comunismo é um grande agregador genérico desse processo de degeneração. Para eles, o “comunismo” é a própria entropia do sistema, que faz a sociedade sair do “estado de ordem” para a “degeneração”. Todas as instituições “inimigas do bolsonarismo” são inimigas do bolsonarismo porque foram degeneradas pelo comunismo. Em algum momento (quando os militares nomeavam governadores e senadores biônicos), essas instituições funcionavam perfeitamente.

Ao definir os inimigos e a dinâmica que os move, o bolsonarismo consegue retroalimentar o processo de geração de medo através da expectativa de perda naqueles que são afetados por esse discurso. Daí o medo se transforma em outra coisa: em ressentimento. Isso ocorre porque você já tem a sensação de perda, o causador e a dinâmica motriz. O grande objetivo da assessoria do Bolsonaro é criar essa sensação de ressentimento. Porque o ressentimento é poderoso e age na base emocional das pessoas, tornando-as impermeáveis a argumentos racionais. A pessoa que entra nessa dinâmica vai rapidamente de uma inocente sensação de desconforto com os rumos da sociedade, que antecede o medo, a um estado em que mamadeira de piroca passa a ser algo plausível e organizações como a NASA fazem parte de uma grande conspiração comunista.

Com o ressentimento plenamente implantado enquanto elemento desorientador dos pensamentos e ações, é possível dar o último passo do processo: criar uma solução personalista, simplória e pouco eficaz para o ressentimento. É aí que o discurso tosco do Bolsonaro entra como resposta. Porque a tosquice dele fala ao senso comum do ressentido, do descrente com a política, traz soluções simples e fáceis de entender estilo “fuzilar a petralhada”. Traz remédios mágicos e ineficientes como a cloroquina. Porque essa é a lógica do Bolsonaro: ele é a solução mágica e ineficiente que engana muita gente enquanto se sustenta com uma indústria de viés de confirmação para ressentidos.

Então, não existe gabinete do ódio. Existe uma fábrica de ressentimentos e de produção de narrativas fantasiosas para esses ressentidos. Para esse pessoal, realmente faz sentido que a Terra seja plana. A Terra Plana é revolucionária, é a revolta contra a superioridade moral dos cientistas que impõem ideias como se fossem entidades superiores. A Terra Plana é a desobediência última. E só tem defensores porque existe hoje um exército de ressentidos formado por um discurso de exploração do medo e da memória de um suposto passado idílico.

É por isso que chamar essa fábrica de ressentimentos de gabinete do ódio é contraproducente. Porque faz com que o bolsonarismo se assuma como uma espécie de legião de vilões revolucionários, alimentando esse ressentimento que é a mola propulsora do bolsonarismo enquanto movimento. Também é por isso que o mero combate às narrativas deles não tem resultado. Chamar a cloroquina de ineficaz é só uma narrativa que não tem a menor chance contra a enorme quantidade de viés de confirmação que o bolsonarismo produziu pra mostrar que a cloroquina é mais uma narrativa revolucionária proporcionada pelo Bolsonaro, enquanto herói revolucionário dos ressentidos.

É por isso que, apesar de tudo, um em cada quatro brasileiros ainda confia no que Bolsonaro fala. Porque Bolsonaro tem uma poderosa fábrica de ressentimentos que trabalha diariamente para produzir medo enquanto expectativa de perda, evocando um passado idílico na ditadura, para definir inimigos a partir daí e retroalimentar o medo, transformando-o em ressentimento. Tudo para que Bolsonaro possa finalmente ser apresentado como a solução mágica que vai combater os inimigos e levar o Brasil ao passado idílico prometido. Ainda que tudo isso seja mentira, é uma engrenagem discursiva poderosa, de difícil escapatória.

O restante do país está dividido em três grupos: existem os que nunca acreditaram em Bolsonaro, os que renunciaram a lógica do ressentimento e os que seguem ressentidos, mas não veem mais Bolsonaro como solução. Os últimos estão vulneráveis a novos movimentos de manipulação dos ressentimentos. Os dois primeiros grupos são a esperança de transformação da lógica que move o país nos próximos anos. São os grupos mais pautados no realismo, que denunciam o preço dos alimentos, do gás, da gasolina e o descaso do governo com as centenas de milhares de mortes na pandemia.

Que a motivação para a transformação daqui em diante não seja mais o ressentimento que move a um passado idílico falso, mas a esperança de construirmos um futuro melhor para nossos filhos. Vai ser um processo difícil, muito mais difícil que o processo de destruição que Bolsonaro propõe, mas o prêmio é inigualável: recolher essa excrescência que é o bolsonarismo a irrelevância e fechar de vez essa maldita fábrica de ressentimentos que todo mundo insiste em chamar de gabinete do ódio.

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