Despejo na Pandemia Mata

Segunda feira passada, dia 09 de agosto, eu presenciei uma tentativa de suicídio. Estava saindo do Rodoanel sentido Anchieta quando um caminhão parou em frente a um pontilhão. Na frente dele, um corpo que havia acabado de se jogar. Ao presenciar a cena, fomos pelo acostamento até coisa de cem metros à frente, onde um carro da Ecovias estava parado junto a um radar móvel. Avisamos do ocorrido. Enquanto fazíamos isso, mais carros chegavam. Eles saíram correndo para ajudar, e fomos embora consternados. É uma cena difícil de esquecer.

Hoje, a Kelly precisou resolver alguns compromissos ali na região do Riacho Grande novamente. Ela nem se lembrava do ocorrido, parece que a memória humana costuma apagar esse tipo de coisa. Mas um dos primeiros assuntos que o pessoal comentou com ela foi o “da mulher que se jogou do pontilhão”. A lembrança foi imediata. E a história torna tudo mais triste.

A “mulher que se jogou do pontilhão” ocupou uma área há vários anos junto com cerca de 300 famílias. A área pertence à Sabesp, que ganhou na justiça a reintegração de posse. Os moradores protestam há tempos contra todo o processo de reintegração. Ninguém escolhe morar em uma ocupação. Ocupações são fruto de uma política habitacional excludente, que empurra os mais pobres para terrenos distantes dos centros como os da margem da Represa Billings, em área de proteção ambiental, para depois expulsá-los da forma mais cruel possível.

Há poucos dias, a Sabesp e a Prefeitura de São Bernardo do Campo divulgaram uma lista de famílias que seriam desapropriadas e teriam direito a R$ 300 mensais de aluguel social enquanto a prefeitura não providenciasse uma moradia definitiva. A mulher em questão não estava na lista. Isso quer dizer que ela seria desapropriada e não receberia nem mesmo o aluguel social. Seria jogada na rua pelo estado, da forma mais cruel possível.

No desespero causado por essa notícia, essa mulher infelizmente se tornou “a mulher que se jogou do pontilhão”. Eu não sei o nome dela, nem o que ela faz da vida, mas ela segue viva, internada em estado grave no Hospital Municipal de São Bernardo do Campo.

Dentre tantos assassinos, um se destaca: o Presidente da República. Foi o veto de Bolsonaro a proibição de reintegrações de posse durante a pandemia, dado há uma semana, que fez o processo de reintegração se acelerar no terreno da Sabesp. Agora, 300 famílias serão jogadas na rua em meio a uma pandemia com anuência do poder público. Um poder público cada vez mais especializado em dizimar os pobres.

Vivemos sob um poder público que faz as pessoas se jogarem do pontilhão.

2 comentários sobre “Despejo na Pandemia Mata

  1. lamento pelo episódio. instrumentos de política urbana previstos no estatuto da cidade há mais de 20 anos continuam sem regulamentação ou aplicação (aumento do IPTU de imóveis sem função social, por ex.). moro no centro de são paulo e acho que nunca vi tanta gente em situação de rua – nem tantos imóveis desocupados. espero que o retorno de alguma normalidade leve a gente a ocupar a política novamente e pressionar por mudança

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  2. Pingback: Um Governo que Odeia os Brasileiros | Nada Novo no Front

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