As 500 mil pessoas

Eu queria prestar aqui uma homenagem às quinhentas mil pessoas que morreram nessa pandemia, mas eu não consigo. Eu não consigo dimensionar o que é isso. Você provavelmente não verá quinhentas mil pessoas na sua vida. Não consigo imaginar que esse tanto de gente possa ter morrido de uma enfermidade evitável por isolamento social e para a qual já há vacina há pelo menos seis meses. Vai além da minha capacidade de abstrair.

Mas eu consigo dimensionar os amigos que eu perdi. Consigo dimensionar as pessoas próximas com quem eu jogava conversa fora e lembrar que, de repente, vinha a notícia “gente, ele está internado com COVID, peço as orações de vocês”. E depois de alguns dias, vinham os falecimentos. Perdi a conta de quantas vezes esse processo de angústia aconteceu durante a pandemia. Também perdi amigos com quem não passei por essa angústia: soube da morte direto. E também perdi gente próxima, a ponto de passar por toda essa angústia e receber boletins diários até a fatídica ligação pedindo para que a família comparecesse ao hospital.

Essas perdas importam mais do que qualquer número. Porque a nossa vida está 500 mil pessoas mais vazia. Faltam 500 mil sorrisos, 500 mil abraços, 500 mil piadas de fim de tarde, 500 mil causos, 500 mil olhares amorosos e de cuidado. Estamos 500 mil almoços de família mais vazios, desejando até mesmo os momentos de irritação que aquelas pessoas proporcionavam pra gente. Que saudades das piadas sem graça, das reclamações, do olhar de desprezo quando a gente falava alguma coisa polêmica. Que saudades das brigas sem motivo, das portas batendo, das manias de velho, da teimosia. O Brasil tem vontade de chorar.

Que tristeza não poder nem passar pelos rituais de luto. Não poder ter uma despedida digna, não poder reunir os parentes e amigos para chorar junto. Que tristeza não poder ouvir as histórias de todo mundo sobre o falecido, não poder dar risada do quanto as pessoas eram amadas até o momento de fechar o caixão. Ele já vem fechado. Cada uma das quinhentas mil mortes é sem sentido. É um vazio imenso e sem atenuantes a cada vez que alguém não consegue mais respirar por causa dessa doença maldita.

Mais triste é saber que não precisava ser assim. Era para muitos sorrisos estarem entre nós. Mortes não são efeitos colaterais. Mortes são aquilo que devemos evitar antes de qualquer coisa. Nosso governo tolerou as mortes. Nosso governo fez tudo para que o país ignorasse as mortes. O Brasil ignorou distanciamento social, ignorou vacinas por muito tempo e tem um presidente que diz que vacinas não funcionam até hoje. Com isso, 500 mil pessoas já se foram. E um pedaço da nossa vida se foi junto.

Arrancar essa turma que está no poder é a única homenagem possível aos 500 mil mortos.

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