O Grande Consenso da Pandemia

A grande história não contada dessa pandemia, que deveria ser abordada na CPI, é a de que, pela primeira vez em muitos anos, o Brasil teve um grande consenso. Um consenso que durou semanas, mas um consenso. E ele ocorreu mais ou menos por umas três semanas, em março de 2020. Nessa época, a pandemia estava chegando ao Brasil e todos os governantes, sem exceção, adotaram aquilo que vinha sendo feito em Wuhan e na Itália. Fechamento do país, quarentena, todo mundo escandalizado com os picos de mortes na China e depois na Itália.

A percepção da gravidade era geral. Ainda que o governo federal fizesse suas presepadas, expressas na viagem aos EUA que fez o ex-SECOM Fábio Wajngarten voltar com COVID para o Brasil ou na participação de Bolsonaro nos atos pró-governo em 15 de março de 2020, as medidas eram mais ou menos uniformes e iam na direção de um fechamento geral e irrestrito. O Brasil tinha ótimas armas para enfrentar a pandemia. Um SUS democrático, robusto e descentralizado, um sistema de vacinação que era referência mundial, e naquele consenso de que tudo deveria permanecer fechado o país certamente seria um exemplo internacional entre os emergentes.

Mas aí o consenso se desfez.

Onde você estava no dia 24 de março de 2020, às 20:30?

Você provavelmente estava em casa, e muito provavelmente assistiu um dos momentos mais tenebrosos da História do Brasil: esse pronunciamento de Jair Bolsonaro

Nesse pronunciamento, o da “gripezinha”, o do “histórico de atleta” e o da crítica ao isolamento, milhares de pessoas foram condenadas à morte. E isso não é força de expressão: as falas de Bolsonaro tem correlação com a diminuição do isolamento social. O estudo completo é esse daqui.

A pergunta que não foi feita na CPI e que precisa ser feita para TODOS os membros do governo que forem ouvidos é uma só:

“Você se recorda de alguma fala do Presidente Jair Bolsonaro defendendo o isolamento social?”

A resposta é óbvia para nós, mas precisa sair da boca deles.

Ao contrário do que disse o Pazuello em seu depoimento, os discursos de Bolsonaro direcionam as políticas públicas do governo sim. Três dias após o pronunciamento assassino, o governo federal lançou uma campanha absurda aos moldes de Milão, chamada “O Brasil não pode parar”.

Secom apaga postagens com slogan 'O Brasil não pode parar' e diz que  campanha não existe - Jornal O Globo

Essa campanha foi lançada NO MESMO DIA em que o Prefeito de Milão admitiu que a campanha “Milão não pode parar” foi um erro horrível e custou milhares de vidas. Não é que o governo federal não tivesse exemplos, Eles sabiam exatamente o que estavam fazendo.

A justificativa para a campanha era a tese estapafúrdia de Jair Bolsonaro do “Isolamento vertical”: os idosos ficam em casa enquanto o “resto da sociedade” funciona normalmente. Naquela época a impressão é de que a doença era mais grave em idosos.

A ironia triste da coisa: um ano depois, o Brasil é um dos países em que percentualmente MENOS idosos morrem de COVID. Fruto da política anti isolamento social do governo Bolsonaro.

Além disso, Bolsonaro sempre defendeu a imunidade de rebanho. Como disse Romeu Zema, “deixa o vírus viajar”. E isso não é nem segredo: Bolsonaro passou dois meses brigando com o Ministério da Saúde até achar alguém “leal o suficiente”. Daí veio o Pazuello. Essa campanha pela imunidade de rebanho foi tão absurda e tão contínua que ainda em outubro a liderança do governo na Câmara estava fazendo audiência oficial com defesa explícita da imunidade de rebanho. Explícita!

O instrumento para convencer as pessoas a saírem, além do discurso de sabotagem do isolamento, era a cloroquina. Eu expliquei nessa postagem como Bolsonaro usou a cloroquina, com ajuda do Exército, para fazer as pessoas irem pra rua, como se fossem imunes ao vírus. E também expliquei que, quando a coisa deu errado, Bolsonaro tentou sabotar as estatísticas. E fez isso o tempo todo. Por uma triste coincidência, exatamente um ano depois daquele fatídico discurso, o Brasil completou 300 mil mortes por COVID.

De março para cá, saímos de 300 mil para quase 500 mil mortes. Sem contar subnotificação e mortes a posteriori por sequelas, que são muitas também. Um estudo feito entre instituições brasileiras mostrou que 25% das pessoas que foram intubadas com COVID e tiveram alta acabaram falecendo em seis meses, por conta das sequelas da doença.

De 24 de março de 2020 pra cá, muita coisa mudou. O auxílio emergencial foi dilapidado, as vacinas foram adiadas até o limite, faltou até oxigênio e kit intubação. Mas, de 24 de março de 2020 até hoje, uma coisa permanece exatamente igual: a disposição de Bolsonaro de fazer QUALQUER COISA contra o isolamento social. Um levantamento do jornal O Globo mostrou que Bolsonaro promoveu aglomerações ao menos 84 vezes durante a pandemia.

Então não estamos falando de “possibilidade de crimes”. É público e notório que, na ausência de testagem em massa e de rastreamento de contatos, o distanciamento social e a vacinação em massa são as melhores estratégias de combate ao coronavírus. Bolsonaro sabota diariamente as duas estratégias.

Bolsonaro é genocídio. Bolsonaro é matança desenfreada. Bolsonaro é o gosto sádico de levar pessoas para a morte todos os dias e de sentir prazer nisso

O Brasil infelizmente é governado por uma das piores pessoas que a humanidade já produziu. E ele precisa ser extirpado do poder.

E fica a questão: quem escreveu o discurso de 24 de março de 2020? Quem sentou na mesa com Bolsonaro para fazer aquele texto? Todas as pessoas ali são culpadas de crimes contra a humanidade e merecem as piores punições previstas em lei. Porque foi ali que começou o genocídio que o Brasil está vivendo.

Observação: é preciso dizer que essa história terminou sendo abordada na CPI e precisamos parabenizar o Senador Randolfe Rodrigues por isso.

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