O Populismo Genocida

O conceito de populismo genocida precisa ser melhor trabalhado.

Numa pandemia, existem duas verdades conflitantes

1) Isolamento social diminui a propagação do vírus
2) Pessoas não gostam de terem movimentação restringida

Então, a função dos governos é promover o bom isolamento. O que é o “bom isolamento”? É a promoção do isolamento social de uma forma que isso não gere ônus para a população. Como?

– Garantindo a viabilidade econômica e social (auxílios financeiros, Internet para todos poderem trabalhar de casa)
– Garantindo condições de moradia dignas
– Garantindo isso até o fim da pandemia

Ao promover essas garantias, você diminui a propensão das pessoas de sair de casa. Mas, para além disso, o bom isolamento tem mais um fator importante: a fiscalização rigorosa e contínua. O pressuposto é simples: o governo precisa das pessoas em casa e está pagando por isso nesse período. Ao desenvolver condições para um bom isolamento, o governo pode cobrar esse isolamento através de fiscalizações, multas, iniciativas ativas de redução compulsória de circulação. Por que? Por causa do segundo princípio, o de que pessoas não gostam de terem sua movimentação restringida. Então é preciso incentivar essa restrição de movimentação de outras formas.

Daí vem o conceito de populismo genocida. O que é o populismo genocida? Governos que não querem promover o bom isolamento passam a usar a indisposição das pessoas em permanecer isoladas para atuar contra o isolamento. É o que o governo Bolsonaro faz há um ano. E, para isso, promove um extenso corolário de ações temerárias:

– Nega a pandemia

– Diminui os efeitos da pandemia quando não der mais para negar (agora toda morte é COVID???)

– Nega a ciência e os estudos que demonstram a eficácia do isolamento social

– Propagandeia remédios sem efeito. Soluções mágicas são populistas na medida em que prometem “resolver a pandemia” de uma maneira fácil.

– Evoca a “liberdade de ir e vir” e se diz “defensor da liberdade” ainda que isso seja sinônimo de morte.

– Usa o discurso “todos precisam trabalhar” e “se ficarmos em casa vamos morrer de fome”, sendo que isso só é verdade se o governo não oferecer condições para um bom isolamento através de auxílios econômicos.

Esse conjunto de ações é típico de um governo que não tem condições de resolver o problema ou que não quer resolver o problema. O nosso governo claramente não quer e usa o populismo genocida para supostamente “atender ao desejo das pessoas” sem fazer nada de concreto.

Outro exemplo de populismo genocida é negar a eficácia das vacinas. De novo, o governo usa discursos conspiratórios e de senso comum para não agir. Discursos insuflados por apoiadores, que geralmente tem a confiança de outras pessoas da comunidade (pastores, por exemplo), baseados em exemplos individuais, como é comum no ciclo de propagação de fake news “Lá em Marambaia do Oeste um rapaz tomou a vacina e morreu”. Lembrem que o governo Bolsonaro chegou a comemorar a morte de um paciente que estava testando a CoronaVac em novembro.

O grande mérito da vacina é diminuir o tempo de duração da pandemia. A vacinação em massa faz com que a pandemia acabe mais cedo, impedindo a contaminação generalizada que vem ocorrendo no momento. Por que um governo não gostaria que uma pandemia acabasse? Populismo genocida, de novo. Com a pandemia em andamento a dependência em relação ao governo aumenta e o governo ganha mais popularidade fazendo menos.

Exemplo clássico disso é o auxílio emergencial: sem fazer nada (foi o Congresso que aprovou), o governo ganhou imensa popularidade dando auxílio emergencial pra a maior parte da população brasileira entre março e dezembro de 2020. Sem planejamento, isso criou dependência. Políticas públicas de transferência de renda geralmente são feitas para criar autonomia em locais pobres, para fomentar a atividade econômica local. Em um contexto de pandemia, em que as pessoas estão impossibilitadas de trabalhar, o efeito acaba sendo inverso: as pessoas dependem desse auxílio para comer, e se esse auxílio é interrompido abruptamente elas terão sérios problemas de segurança alimentar.

Além disso, em um contexto de pandemia, nada é cobrado ou fiscalizado adequadamente dentro do governo. Há uma liberdade de atuação imensa provocada pela emergência, que também passa a ser uma liberdade para o desvio de verbas públicas. Orçamentos passam a ser efetivamente peças de ficção e a celebração de contratos ganha um componente de urgência que não existia antes. Vide o caso dos milhões de comprimidos de cloroquina feita pelo Exército.

Antes da pandemia, parecia inacreditável que alguém usasse uma montanha de mortos pra fazer política rasteira criando situações de dependência pra justificar a própria inação. Mas o governo Bolsonaro se superou e começou a usar o senso comum pra criar relações de dependência. E fez isso de diversas formas:

– Usando a insatisfação das pessoas para agir contra o isolamento social, o que literalmente está matando mais gente todos os dias.
– Ganhando dividendos políticos em cima de um auxílio sem planejamento, que criou dependência na pandemia, cuja interrupção abrupta levou milhões de pessoas a uma situação terrível de insegurança alimentar.
– Usando igrejas para distribuir cestas básicas para quem tem fome, fazendo com que o benefício seja diretamente vinculado aos seus aliados políticos e criando currais eleitorais.
– Atacando o isolamento social em pontos específicos, como a realização de cultos religiosos presenciais. Isso é emblemático porque mostra como o governo Bolsonaro usa uma estratégia de populismo genocida voltando as pessoas contra o isolamento social. Isso não é baseado em racionalidade, porque não há racionalidade que comporte isso, mas tem base na religiosidade dogmática, de base mística, com sua imensa capacidade de manipulação. São o projeto populista genocida: pessoas estão felizes em suas igrejas, mas muitas vão morrer. Também há um componente econômico ligado à facilitação da lavagem de dinheiro, conforme explicado na sequência de tweets abaixo.

Abra o tweet e leia a sequência toda

Em um resumo simples, o populismo genocida de Bolsonaro

– Nega a pandemia
– Nega a eficácia do isolamento social
– Age ativamente contra o isolamento
– Nega a ação efetiva mas cria dependência e insegurança alimentar
– Usa o senso comum como ferramenta contra o isolamento social
– Age contra as vacinas para a pandemia durar mais
– Receita remédios sem eficácia para colocar na mente das pessoas que a solução da pandemia é facil.

A montanha de mortos tem nome. E o nome é o de um governo que assassinou milhares sem ar, sem UTI e sem atendimento porque está mais preocupado com processos eleitorais e com índices de popularidade. É preciso dizer com todas as palavras: Bolsonaro é um populista genocida, é quem trabalha com ele até hoje é cúmplice.

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