A Crise entre Bolsonaro e os Militares

Deixo explicar porque estamos num cenário de crise com os militares. Geralmente, os militares obedecem a um dinâmica própria para escolher os comandantes de cada força armada. É geralmente esses comandantes ficam no poder pelo período de 4 anos ou até irem para a reserva. Exemplo disso é o General Eduardo Villas Boas: assumiu o comando do Exército no início de 2015 e saiu no início de 2019, dando seu lugar ao General Edson Pujol. Essa tradição vem do fato de cada poder tinha seu Ministério até o ano de 1999. Daí foi criado o Ministério da Defesa

Desde que foi criado esse modelo de Ministério da Defesa, as mudanças sempre foram muito tranquilas. É uma das regras não escritas do pós ditadura: o estado civil não interfere nas Forças Armadas e as FAs não interferem no estado civil.

Funcionou muito bem até o Bolsonaro.

Quando Bolsonaro surgiu, promovendo forte militarização, foi comendo pelas beiradas. Primeiro com a reserva, depois com os generais da ativa que não estavam ligados à cúpula das forças armadas. Tudo por causa dessa regra aí. Apesar de rompantes como o do Villas Boas em 2018. Villas Boas, aliás, virou uma espécie de “modelo para Bolsonaro no que se refere a atuação do comandante das forças armadas: uma postura “neutra”, mas que dá suporte às ações e interesses do governo em momentos sensíveis, passando a impressão de que as Forças Armadas fazem parte do projeto de poder sem maiores comprometimentos.

Só que existem dois níveis de comprometimento aí: um deles é o de fazer parte de um governo civil sendo um militar. Isso é o que os generais que estão no governo estão fazendo. E tinha uma outra tradição aí: militar da ativa em cargo sem relação com a caserna vai pra reserva.

Essa tradição foi quebrada em 2019 com Luiz Eduardo Ramos, que assumiu a Secretaria de Governo sem ir pra reserva, o que gerou desgaste entre Bolsonaro e cúpula do Exército. Depois de meses de insistência por parte do, Ramos foi pra reserva só em julho de 2020. Mas, nessas alturas, e exemplo de Ramos já tinha feito com que vários militares da ativa se alocassem em cargos do governo sem pedir baixa da função.

Para piorar, isso ocorreria de novo no primeiro escalão, com um nome mais conhecido: Eduardo Pazzuelo. O ex Ministro da Saúde assumiu o ministério sem pedir baixa, o que gerou mais desgaste com o Exército, especialmente num contexto em que as políticas do Exército e do Ministério da Saúde para a pandemia eram quase inversas entre si.

Bolsonaro obviamente não é um estadista, e sim um autocrata. Nunca admitiu não ter o Exército em suas mãos. Conseguiu administrar essas questões sem interferir internamente nas Forças Armadas por pouco mais de dois anos, apesar das inúmeras tentativas, mas a crise atual levou Bolsonaro a rifar até o princípio de não interferir no comando das Forças. Em sua visão de autocrata, “elas não estavam apoiando o suficiente”.

Daí chegamos ao segundo nível de comprometimento, que sempre foram o pesadelo das Forças Armadas: o de sequestrar as Forças Armadas para os objetivos do governo. Bolsonaro, ao demitir o Ministro da Defesa, deixou claro que queria o General Edson Pujol, comandante do Exército, do lado de fora. O que obviamente configura sequestro das Forças Armadas.

Queria fora por que? Porque Pujol sempre foi da ala moderada, sempre controlou os arroubos golpistas que Bolsonaro incentiva desde o primeiro dia do governo, e agiu de maneira diametralmente oposta à Bolsonaro na gestão da pandemia: seriedade, isolamento, rastreamento e testagem. Isso fez o Exército ter bastante gente contaminada mas pouca gente morta. Foi um sucesso. Bolsonaro considerou uma afronta. Uma insubordinação, afinal ele sempre quis que o Exército fosse seu quintal. Frustração de quem nunca foi além de 1º tenente na ativa, talvez. (sim, Bolsonaro, na ativa, só atuou como primeiro tenente, sendo promovido a capitão quando foi para a reserva).

O problema é que as Forças Armadas (a cúpula, não os oficiais da reserva) odeiam a pecha de golpistas. Porque ela já custou muito. Além das décadas de afastamento da vida pública, em investimento mesmo. Militares sempre foram mantidos sob rédea curta (e com bastante razão). Também odeiam a pecha de golpistas porque querem manter as Forças Armadas insuladas. Já manifestaram inúmeras vezes que a participação de militares no governo é ruim para a caserna como um todo, causa desgaste na sociedade e pode causar retaliação depois.

Isso é notório em casos como o do escândalo dos gastos de comida para oficiais, que realmente foram abusivos em diversas oportunidades. Além disso, a associação da péssima gestão da pandemia com os militares, materializada em Pazzuelo, criou enormes rusgas entre a cúpula do Exército e Bolsonaro.

As Forças Armadas estão preocupadas, antes de tudo, com sua imagem institucional, e a percepção geral dentro da caserna é que a associação com Bolsonaro é muito negativa para a imagem dos militares, embora traga outros benefícios: inúmeros cargos de chefia e aumento de salários e de investimentos, para ficar em dois exemplos. Além de outros benefícios mais difíceis de mensurar, como o acesso privilegiado ao cronograma de licitações de Ministérios como o da Infraestrutura. Pouca gente sabe, mas muitas empresas que atuam de licitações públicas são tocadas por militares da reserva ou por seus parentes, e isso é tão sério que chega até em pontos nevrálgicos da atuação do governo nos próximos anos, como a licitação do 5G, por exemplo.

Daí, nesse contexto todo, Bolsonaro pede a cabeça do comandante do Exército antes dele terminar seu mandato. Também pede a cabeça do Ministro da Defesa, que era visto como moderado e tinha boa interlocução com os comandantes. Para piorar, Bolsonaro faz isso falando em Estado de Sítio, Estado de Defesa e intervenção nos estados. três coisas que o comando das Forças Armadas consideram inaceitáveis quando evocadas sem motivo. E ainda colocou Braga Netto, que foi responsável pela malfadada intervenção no Rio, na Ministério da Defesa, mostrando que suas intenções intervencionistas são mais que um argumento falacioso.

Nesse contexto, o rompimento ganhou ares concretos. Em um gesto inédito, os três comandantes pediram demissão simultaneamente, com um discurso forte de que as Forças Armadas não podem ser usadas para fomentar golpismo. Fernando de Azevedo e Silva foi na mesma linha, ainda que com uma fala mais discreta. Esse tipo de renúncia coletiva é inédito e coloca um enorme alvo em quem quer que seja nomeado pelo Presidente para os postos de comando à partir de agora. Ficou muito claro que Bolsonaro quer sequestrar o Exército para seus propósitos golpistas e a instituição se nega a isso no momento.

Mas Bolsonaro pode por qualquer um lá agora? A resposta é NÃO.

A eleição normalmente se dá entre os três generais mais antigos da ativa, em lista tríplice. É por isso que generais como Luiz Eduardo Ramos não queriam ir para a reserva: eles poderiam pleitear esses cargos. E nunca, após a reorganização de 1999, esse princípio foi desrespeitado. Por isso, qualquer nome que Bolsonaro indicar fora dessa lista tríplice deve ter forte resistência interna das Forças Armadas. Essa resistência, como é de se imaginar, também se estende aos arroubos golpistas de Bolsonaro, vistos por oficiais como um desgaste desnecessário.

o cenário ideal pros militares é o que se desenhava até hoje: milhares de militares no governo sem o governo querendo tomar a cúpula dos militares para si. Há uma enorme intersecção entre o governo Bolsonaro e os militares da ativa. Não será simples separar e nem é o que os militares querem à princípio. Cargos no posições estratégicas do governo são sinônimo de influência.

Por isso mesmo que a crise de hoje é muito importante: é um teste de stress do nível de comprometimento dos militares com Bolsonaro. O militar que hoje é comprometido com o governo por causa de um cargo não vai necessariamente apoiar um processo de radicalização. O preço em permanecer com Bolsonaro é cada vez mais alto para os militares.

A crise está instalada e não parece ter solução fácil se Bolsonaro não recuar.

É bem, a última coisa com que podemos contar nesse momento é com um recuo de Bolsonaro. A semana será longa e provavelmente Bolsonaro será contido e fará um jogo de cena pra agradar seus militantes mais extremistas. A inércia é a grande regra de atuação nesse caso. A cúpula das Forças Armadas só quer que esse momento passe logo, com o mínimo possível de estrago. De qualquer forma, o estrago já está feito, e vai levar muito tempo pras Forças Armadas se recuperarem dele.

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