Por trás do “kit covid”: o método Bolsonaro

Artigo originalmente publicado em O Iceberg, como adaptação dessa sequência no Twitter

Vamos explicar uma coisa importante.

Em março, o presidente Bolsonaro queria uma solução rápida para a crise do coronavírus, porque para ele era inadmissível que as pessoas deixassem de sair de casa e estragassem a suposta recuperação econômica dele (que aliás, só existia na cabeça do Paulo Guedes). Então, apareceram algumas pesquisas muito preliminares falando da cloroquina para o tratamento de COVID em camundongos.

Como é comum em pesquisas do tipo, a cloroquina vai bem na primeira fase, mas em geral é descartada depois pela alta toxicidade [1]. Mas Bolsonaro, desesperado para acabar com o “lockdown dos governadores”, abraçou a cloroquina com tudo. Demitiu dois ministros da saúde por causa da cloroquina. Três dias antes da demissão do Mandetta, ele teve uma reunião surpresa com a Nise Yamaguchi, que defendia o medicamento.

Além disso, a cloroquina tinha outra vantagem estratégica: o Exército já produzia o medicamento em alguma escala para combater malária entre os soldados em missões na selva, e para evitar surtos entre populações ribeirinhas. Imagina esse monte de informação circulando na cabeça de Homer Simpson do Bolsonaro: ele “acharia a cura pra doença”, “sairia como herói” e ainda “faria o povo adorar os militares”. Daí ele mandou o exército produzir milhões de cápsulas de cloroquina. E O EXÉRCITO TOPOU.

Eu não estou zoando: “Carla Araújo – Exército já produziu 3 milhões de comprimidos de cloroquina” [2]

Só faltou combinar com o vírus. Com o tempo, foi ficando claro que a cloroquina ajudava muito pouco no combate à COVID [3] e ainda trazia efeitos colaterais [4]. Mas as cápsulas já estavam lá, produzidas. E produzir medicamento sem eficácia no meio de uma pandemia e distribuir é crime. Um monte deles, aliás. É crime de responsabilidade, incorrendo em impeachment. É crime contra a saúde pública. No limite, pode até ser considerado genocídio. Este é, inclusive, um dos argumentos usados pela Ucrânia pra considerar o Holodomor um genocídio independente do dolo.

Disclaimer: pra quem defende a tese do Holodomor como genocídio, o argumento é que quando Stálin permitiu a Trofim Lysenko fazer suas políticas agrícolas anti-ciência, assumiu o risco pela morte de milhões de pessoas por inanição independente de dolo, que foi o que ocorreu. Juridicamente, é possível usar esse argumento contra Bolsonaro também: ao financiar um tratamento ineficaz para COVID e insistir nisso mesmo quando a ineficácia estava clara, Bolsonaro assumiu o risco pela morte das pessoas que foram tratadas com cloroquina.

Pois bem, desde então, tudo o que Bolsonaro tem feito com relação à COVID é para se livrar de todas essas acusações. Ele chegou a fazer uma MP (que Maia não colocou em votação e caducou), que eximia o governo dos seus próprios crimes durante a pandemia [5]. O cerco estava fechando, até o Trump desistiu da cloroquina (ele tinha uma eleição para perder, mas Bolsonaro não). E Bolsonaro precisava ter argumentos políticos e jurídicos para se safar dessa. 

Por que estou falando tudo isso? Porque Mandetta foi demitido ao não querer embarcar na loucura da cloroquina [6]. Teich foi demitido ao não querer embarcar na loucura da cloroquina [7]. O critério para um novo ministro assumir era “embarcar na loucura da cloroquina”. Zero médicos toparam. Quem é que estava junto com Bolsonaro na loucura da cloroquina? Os militares.

Foi então que Bolsonaro contratou um militar para o Ministério da Saúde. Um militar “especialista em logística”. Para que? Para despachar as milhões de cápsulas de cloroquina produzidas por ordem do presidente. Mais do que despachar as milhões de cápsulas, a missão era ao menos deixar dúvidas na cabeça da galera quanto à eficácia do medicamento. Como? Fazendo cortinas de fumaça e dando sinais confusos sobre outras cousas estilo vacina. Então, a distribuição de toda essa cloroquina produzida foi errática até o momento. Agora o governo age em duas frentes: assumir o controle das vacinas, inclusive as produzidas pelos estados, e… despachar cloroquina. Tudo ao mesmo tempo.

Reitero: eu não estou zoando: “Saúde prevê gastar R$ 250 milhões para pôr ‘kit-covid’ em farmácias populares” [8].

Não mesmo: “Governo Bolsonaro agora cogita confiscar vacina” [9].

E por que tudo junto? Porque Bolsonaro nunca admite erro ou derrota. O objetivo é sempre ajustar a narrativa para sair triunfante das circunstâncias. Então o engodo chamado Kit Covid vai ser distribuído AO MESMO TEMPO em que as vacinas. O motivo? Esse mesmo que você pensou. Quando os casos diminuírem, Bolsonaro vai colocar toda a sua estrutura de comunicação, inclusive a que está nos EUA hoje, para vender a narrativa “é o kit covid que está curando as pessoas, não é a vacina“.

Então, na cabeça dele, ele mata três coelhos numa cajadada só: despacha a cloroquina represada, consegue um bom argumento de defesa pros crimes cometidos e ainda sai como herói da pandemia, pronto para ser reeleito em 2022 e enfraquecendo possíveis adversários como Dória.

Vai dar certo? Provavelmente não, mas talvez seja o suficiente para colocar um pouquinho de dúvida na cabeça de uma parcela da população, e para enfraquecer os argumentos de acusação de crime de responsabilidade e de genocídio. E ainda limpa um pouco a barra do Exército. Bolsonaro, como protótipo de ditador, só pensa nas coisas sob um viés: o dele mesmo. 

Esse caso é ótimo exemplo para compreender a forma de proceder de Bolsonaro em qualquer ação: temos que pensar sempre sob a lógica do interesse individual imediato. Normalmente, é se livrar de acusações ou livrar os filhos. Inclusive, espero estar errado, pois essa brincadeira está rifando vidas, mas é nesses momentos que fica claro que nem valores universais como a vida estão acima de seus interesses particulares.

Leonardo Rossatto Queiroz é sociólogo, Mestre em Planejamento Territorial, Doutorando em Ciência do Sistema Terrestre e gestor público de carreira.

Fontes

[1] https://www.fcm.unicamp.br/fcm/cpc-centro-de-pesquisa-clinica/pesquisa-clinica/quais-sao-fases-da-pesquisa-clinica

[2] https://economia.uol.com.br/colunas/carla-araujo/2020/07/23/coronavirus-cloroquina-exercito-ja-produziu-3-milhoes-comprimidos.htm

[3] https://jamanetwork.com/journals/jama/fullarticle/2772922

[4] https://www.ema.europa.eu/en/news/covid-19-reminder-risk-serious-side-effects-chloroquine-hydroxychloroquine

[5] https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2020/mpv/mpv966.htm

[6] https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/05/15/mandetta-tambem-caiu-apos-discordancias-com-o-presidente-sobre-cloroquina-e-isolamento-vertical.ghtml

[7] https://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/politica/2020/05/15/interna_politica,855142/teich-pede-demissao-da-saude-apos-bolsonaro-pressionar-por-cloroquina.shtml

[8] https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2020/12/11/saude-preve-gastar-r-250-milhoes-para-por-kit-covid-em-farmacias-populares.htm

[9] https://noticias.uol.com.br/colunas/josias-de-souza/2020/12/11/governo-bolsonaro-agora-cogita-confiscar-vacinas.htm

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