Coronavírus: Algumas Notas

Desde o início dessa epidemia (agora pandemia), aconteceram muitos alertas sobre a dimensão que isso poderia tomar. Infelizmente, os alertas estavam corretos e o coronavírus virou uma tragédia mundial. Ainda que algumas pessoas neguem isso, estamos em um cenário desconhecido e que tem potencial de provocar milhões de mortes. É a primeira pandemia com alto potencial de letalidade em um mundo globalizado.

O coronavírus não é uma gripe. Nos sintomas, se aproxima mais de uma pneumonia. Eu não entendo nada de medicina. Mas entendo de políticas públicas, e, já tendo atuado em políticas públicas de saúde, posso afirmar que o coronavírus traz algumas características que o tornam um grande pesadelo para os epidemiologistas:

1) Transmissão assintomática pelo ar: a maior pandemia do mundo é a de influenza. Tanto em seu formato comum quanto no na contaminação pela H1N1. É isso tem um motivo, que é a transmissão assintomática pelo ar. O vírus da gripe se espalha muito facilmente, também tem muita mutação, e é por isso que há tanto empenho em campanhas de vacinação contra a gripe todo ano, ainda que a vacina da gripe seja a menos eficiente entre as vacinas fornecidas pelo governo.

Pois é, o coronavírus é igual. Com a diferença de que o período de incubação pode ser de até 14 dias. Pesquisas recentes mostram que o vírus sobrevive no ar por até 30 minutos e pode contaminar pessoas que estão até a 4 metros de distância. É muita coisa. É por isso que, na pandemia de coronavírus, a presença de super spreaders (supertransmissores) tem sido tão comum. Supertransmissores foram responsáveis pelas epidemias na Itália e na Coreia do Sul. Pra epidemiologia, esse cenário torna o controle da transmissão muito difícil. Muito difícil mesmo.

2) Longo período de internação com alto uso de insumos hospitalares: o coronavírus, nesse sentido, exige mais dos sistemas de saúde que epidemias que matam relativamente rápido, como a do Ebola, por exemplo. Como uma pessoa que trabalha o investimento público em saúde, vejo essa situação como a pior possível. A estrutura de saúde é limitada. No caso do Brasil, mais ainda, porque o investimento público é limitado também. O único estado que tem uma rede de hospitais um pouco mais robusta para lidar com o coronavírus é São Paulo. É esse cenário de longas internações é o inferno.

É o inferno porque demanda toda a estrutura de respiradores existente, por exemplo. Uma característica de pacientes do coronavírus é a necessidade de ventilação mecânica. Essa estrutura vai ser tomada muito rapidamente. É vai ficar ocupada pelo mesmo paciente por umas duas semanas. Com mais gente doente chegando. Daí a própria estrutura do sistema de saúde desmorona. É nesse momento que o número de mortes começa a saltar, como está ocorrendo na Itália.

3) É uma doença aguda que é crônica: essa questão do tratamento demorado é bem ruim, mas a coisa piora. Estamos falando de uma síndrome respiratória aguda. As pessoas não ficam internadas porque gostam de hospital, mas porque chegam com um quadro agudo similar ao de uma pneumonia, que demanda cuidados imediatos. O cuidado imediato pode salvar vidas literalmente. Mas o tratamento é longo e não termina quando o vírus não é mais constatado. O corpo continua debilitado e os pulmões ficam lesionados com bastante frequência. Você deve imaginar que não vai ter estrutura pro acompanhamento pós coronavírus porque ela está ocupada com outros casos de coronavírus. Sim, é horrível.

4) O coronavírus tem potencial de destruir equipes de saúde: você pode se proteger como quiser. Imagine um cenário em que você está exposto de forma prolongada a um vírus que é transmitido pelo ar. Uma hora você pega, não adianta. O coronavírus reune todas as características pra destruir equipes de hospitais. O fácil contágio é o período prolongado de exposição são o pior cenário pra quem está tratando uma doença contagiosa sem vacina e sem um medicamento antiviral realmente eficaz. É o inferno, eu repito. E compromete o tratamento de TODAS as outras doenças. Um cara que chega infartando no hospital não vai ter a mesma chance de se salvar que teria sem o coronavírus.

5) O momento é o pior possível: estamos num mundo globalizado e com forte tendência ao negacionismo. Isso faz com que as atitudes que precisam ser tomadas não sejam tomadas. Isso aumenta os casos exponencialmente. É o que estamos vendo em países como os EUA. E a ação deve ser incisiva. Não há espaço pra ações discretas.

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