Nada Novo no Front

É Preciso Se Render ao Desalento

Anúncios

A última pesquisa de popularidade do Presidente Jair Bolsonaro indica que 50% dos brasileiros aprova a pessoa do presidente. Ainda que os dados econômicos não colaborem (tivemos queda de 0,1% nas vendas do varejo no Natal), Bolsonaro se mantém popular, mesmo com todos os absurdos que fala e faz. Um monte de gente sai em defesa de Abraham Weintraub mesmo com as maiores falhas da história do ENEM. Paulo Guedes se sente tão à vontade defendendo rico que ousa falar do “absurdo” que era a empregada doméstica viajar para a Disney quando o dólar estava baixo. Na CPMI das fake news, o staff bolsonarista convenceu um tal de Hans River do Rio a baixar o nível em escalas inéditas, acusando uma das jornalistas mais credenciadas do país de assédio sexual. A relação entre Bolsonaro, seus filhos e as milícias cariocas parecem mais cristalinas a cada dia, com direito a uma suspeita de queima de arquivo. E nada disso arranha a popularidade de Bolsonaro. O que está acontecendo, afinal? Por que no final eles sempre ganham, mesmo espalhando as mentiras mais óbvias e vulgares?

É preciso se render ao desalento. É preciso abaixar a cabeça e admitir a mais dolorosa das derrotas. É preciso admitir que essa derrota já custou a vida de algumas pessoas e a dignidade de muitas outras. Não resta outra opção a não ser o choque de realidade. A esquerda montou durante décadas um projeto de país que ruiu. Fracassou completamente. Tornou-se algo totalmente rejeitado pela população. E por que? Porque foi criada toda uma cultura contrária a esse projeto da esquerda. E não adianta falar que era tudo melhor antes: a lógica do pensamento que alimenta a popularidade de Bolsonaro não é baseada em dados racionais.

Em 2018, no contexto da eleição, eu acreditava na racionalidade da população ao escolher seus agentes políticos. E tentei convencer as pessoas com argumentos racionais. Mas falhei miseravelmente, por um motivo muito simples: a lógica do bolsonarismo não é racional. Bolsonaro não fala ao cérebro: fala à amígdala. A intenção de Bolsonaro não é despertar qualquer tipo de pensamento racional, até porque ele não é capaz disso. Bolsonaro desperta os instintos mais primitivos das pessoas: o ódio, o asco, o instinto de sobrevivência. Todo mundo precisa ter uma arma em casa porque se não “ninguém vai sobreviver”. É preciso parar de investir em programas sociais porque não tem recursos pra todo mundo e portanto é preciso garantir o meu primeiro. Quem não acredita em mim é bandido e quer ameaçar a minha sobrevivência e o meu estilo de vida.

Ao fomentar esses instintos, o bolsonarismo traz uma resposta pronta: o importante é o indivíduo. O instinto é individual, a necessidade de proteção é individual, o inimigo é individual. O indivíduo está no foco de tudo, e daí fica fácil entender como um mesmo governo concilia direito punitivista, teologia da prosperidade, militarismo e um neoliberalismo que beira o anarcocapitalismo: tudo é focado no indivíduo e no atendimento dessas necessidades individuais, pessoais, imediatas e intestinas.

É por isso que todo mundo ali odeia pobre e dorme feliz com isso: esse caldo de ideologias desembocam sempre no mesmo argumento, o de que o pobre tem culpa de ser pobre. Para esses ideários baseados em individualismo e instinto de sobrevivência, o pobre é “conformado” ou não tem instinto de sobrevivência suficiente. Pior que isso: se inserirmos o componente da teologia da prosperidade, o pobre passa a ser pobre por “não ter fé” ou por “estar em pecado”. Reparem na lógica por trás desse pensamento: não é a pobreza que precisa ser combatida, é o pobre.

O pobre, para esse caldo de ideologias individualistas, é o fracassado. É aquele que não teve força mental para superar as agruras da vida e se tornar um exemplo de sucesso. É aquele que foi mais fraco que as circunstâncias. É o pária. E isso por um motivo óbvio: em uma sociedade individualizada, onde a decisão sobre a destinação do próprio dinheiro passa a ser a expressão máxima da autonomia e da individualidade, não ter dinheiro é não ter autonomia. E quem não tem autonomia em uma sociedade capitalista está incomodando quem não quer e não pode ser incomodado em seu individualismo.

Essa ideologia não é de hoje. Ela só se juntou, em uma tempestade perfeita, em torno do nome do Bolsonaro, que, mesmo sendo um completo incapaz, consegue externar os sentimentos íntimos de todos esses grupos da maneira mais torpe. O jurista punitivista e elitista existia desde o Brasil colônia. O militarismo genocida também. O ultraliberalismo entreguista foi gestado por 40 anos, desde que Reagan e Thatcher decidiram, com base nas teorias de Friedman, que era hora de favorecer os ricos sem constrangimentos, naquela que foi a maior inversão de rota político-econômica no ocidente desde a Revolução Francesa. A teologia da prosperidade é o reflexo religioso-espiritual dessa veneração à riqueza. O misticismo conspiracionista produz estragos há milênios e é alimentado por toda a sorte de ignorância.

Essas ideologias estavam dispersas: em igrejas, no mundo corporativo, em algumas varas criminais, em algumas faculdades de economia, em alguns batalhões da PM, em quartéis do exército, em livros de conspirações. Em algum momento, elas se aglutinaram e começaram a se retroalimentar. As redes sociais como espaços em que todos podem produzir e reproduzir informação trouxeram muita coisa boa, mas também aglutinaram os pensamentos desses grupos, que passaram a viver ciclos de retroalimentação e radicalização. Enquanto essa retroalimentação se dava em espaços fechados, como fóruns de discussão, a questão era contornável. Mas as ferramentas de espalhar informação se desenvolveram rápido, e em poucos anos esse ciclo de radicalização passou a atingir a maior parte da população em aplicativos como o WhatsApp.

Por que retroalimentação e radicalização? A lógica das redes sociais é assim. As redes são ambientes em que um volume inimaginável de informação é produzido. Inimaginável no sentido “toda a informação que a humanidade produziu antes da Internet é produzida a cada 48 horas na Internet”. Nesse oceano de informações, existem algumas formas de chamar a atenção: a fama prévia é uma delas. Outra forma é chamar a atenção pelo absurdo. Com isso, a lógica de difusão da informação se inverte. No reino da TV e do rádio, no século XX, os discursos radicalizados eram filtrados. No reino da Internet, os discursos radicalizados não só não são mais filtrados: eles são os que mais reverberam, ainda que pelo absurdo da coisa. Daí começa o ciclo: você radicaliza o seu discurso. Daí essa radicalização faz esse discurso reverberar. Daí você ganha alcance. Daí você radicaliza mais o discurso para reverberar mais e ganhar mais alcance. E o ciclo segue indefinidamente, porque é lucrativo para as grandes empresas detentoras das redes sociais, gerando lucro e engajamento.

A principal consequência desse ciclo é que a verdade passa a não importar mais, porque o seu objetivo é atender a demanda de quem quer um discurso cada vez mais radicalizado, longe do discurso “pasteurizado” que as pessoas se acostumaram a ver a vida toda no rádio e na TV. E mais que isso: esse ciclo de radicalização, retroalimentação e alcance é inflado por ferramentas que promovem aumento artificial de alcance, como os disparos bancados por empresas no WhatsApp.

Daí, quando esse discurso radicalizado chega, cheio de um ódio pungente, querendo destruir todas as instituições existentes, ele é referendado. E esse exercício de referendo confere autoridade a essas informações falsas. Quem referenda? O pastor da teologia da prosperidade, o policial do batalhão, o economista ultraliberal, o jurista punitivista, o conspirador maluco. Todos esses grupos tem suas esferas de influência. Muitas dessas esferas criadas justamente pelo exercício de radicalização e retroalimentação de informações proporcionado pelas redes sociais. E esse exercício de referendamento é a conexão entre a difusão de informações em ambientes virtuais e o mundo real. É onde a radicalização se materializa e vira briga de família.

Trata-se de um esquema com fortes raízes culturais, com ferramentas de difusão muito poderosas e patrocinadores influentes. É um esquema que se aproveitou de todas as ferramentas para colocar no poder grupos retrógrados, e hoje se utiliza das mesmas ferramentas para inflar a popularidade desses grupos. No governo, esses grupos exploram o senso comum como ferramenta de imposição de vontades. São coisas estilo “ninguém gosta de adolescente grávida, então não transem. E quem está contra nós gosta de adolescente grávida, de palhaçada, dessa putaria que precisa acabar”. Ou “ninguém gosta de morrer, então vamos comprar armas pros bandidos não entrarem em casa. Quem não gosta de arma está defendendo bandidos”. São armadilhas retóricas. E TODO MUNDO CAI. SEMPRE. Porque ninguém está preparado para lidar com essas armadilhas. Nós somos condicionados, agimos sempre de maneira reativa e, ao agirmos de maneira reativa, sempre referendamos o discurso deles para o brasileiro de senso comum.

Por isso, reitero: é preciso se render ao desalento. Não dá pra combater o bolsonarismo tentando as armas do bolsonarismo. Porque não as temos. É como se fôssemos combater um exército com as armas mais avançadas com paus e pedras. É inútil. É contraproducente. E ajuda a legitimar o discurso divisivo deles.

Mas calma: não estou falando para ninguém se render A ELES. É para nos rendermos ao DESALENTO. Isso significa jogar fora aquela nostalgia de um tempo que não vai voltar mais e saber, de uma vez por todas, que estamos em uma situação catastrófica. E só existe uma possibilidade de sairmos dessa situação: olhando para nós mesmos. O que podemos construir à partir do desalento?

Eu queria fazer uma breve reflexão sobre o ódio aqui. O ódio é a mola propulsora do bolsonarismo, é aquilo que faz com que a sociedade se divida de fato, com que as famílias briguem, com que as pessoas sejam intransigentes. Mas o ódio não é um sentimento originário. Todo ódio é uma manifestação de medo. E o medo, amigos, não é nada além da expectativa de perda de algo ou de alguém. Se há expectativa de perda, é porque há percepção de posse. Então, no limite, a melhor forma de se despojar do ódio é se despojar de toda e qualquer percepção de posse. Nada é nosso. Somos totalmente insignificantes nesse mundo e fazemos parte de um conjunto infinitamente maior chamado humanidade, que, por sua vez, é totalmente insignificante dentro de um conjunto infinitamente maior chamado Planeta Terra (estamos tentando estragar esse conjunto, é verdade). Por sua vez, a Terra é totalmente insignificante no Universo. Somos, em nós mesmos, a insignificância da insignificância, e nesse cenário sentir ódio por se arrogar proprietário de alguma coisa faz tanto sentido quanto uma ameba com asas.

Mas isso não quer dizer que não devemos defender quem está sofrendo ameaças. A sensação de que não somos nada nos esvazia do ódio, mas também nos une a quem precisa, porque passamos a nos enxergar como humanidade e como planeta. E, à partir daí, podemos ter esperança para construir uma sociedade melhor. Uma sociedade em que nos vejamos como iguais, uma sociedade com soluções econômicas inovadoras e limpas, umas sociedade em que reconheçamos nossa interdependência em relação às demais pessoas e à natureza.

Esse é o maior golpe na percepção individualista do bolsonarismo que exalta o culto ao rico e a ojeriza ao pobre. Porque, ao entendermos que a propriedade é a raiz do ódio, entendemos porque eles são tão odiosos: eles só conseguem pensar sob a lógica daquilo que eles tem, ou pela lógica do que eles podem vir a ter. A esperança deles não é em uma sociedade melhor, é em uma situação individual melhor. Eles não conseguem sentir o amor pelas pessoas e a esperança de um futuro melhor que nós sentimos quando nos esvaziamos do ódio.

Eu vou contar uma coisa bem óbvia aqui: ninguém gosta de sentir ódio. O ódio traz uma sensação ruim. Uma sensação de incompletude, de que falta alguma coisa. No fundo, o grande calcanhar de aquiles do bolsonarismo é esse: todo bolsonarista é um insatisfeito. Nenhum bolsonarista está plenamente feliz, ainda que diga que está. Porque a esperança do bolsonarista está restrita ao indivíduo, e toda esperança baseada no indivíduo e em suas propriedades esbarra na própria limitação da vida. Reparem, por exemplo, como que Bolsonaro tem medo da morte, por exemplo. Que ele sempre se apavora quando vai falar de temas que podem implicar em sua morte. Que ele é paranóico por segurança e acha que vai ocorrer um atentado a cada esquina. O bolsonarismo está preso em si mesmo.

Admitir o desalento é admitir que todo um projeto de país se perdeu para o individualismo, preso em si mesmo, e é preciso reconstruir o país sob novas bases. Ninguém gosta de sentir ódio, e digo mais: ninguém gosta de receber fake news pelo WhatsApp também. Tanto ninguém gosta que sempre há a necessidade dessas fake news serem referendadas por alguém em posição de autoridade. As pessoas não querem acreditar naquilo que faz elas sentirem ódio.

Nessa situação, as duas soluções são óbvias: A negação do ódio enquanto afirmação da propriedade é o amor, enquanto disposição de entrega. E a negação das fake news via Internet é a verdade olho no olho, é a disposição em conversar pessoalmente e em ouvir. É tomar café desarmando essas armadilhas relacionais. Em um café, pessoalmente, as diferenças passam a ser menos decisivas. A disposição em estar junto é mais decisiva do que qualquer diferença entre ideias.

E aí entra outro problema: o amor é muito bonito no discurso, mas frequentemente não se reflete em atitudes práticas. Isso está expresso de forma cada vez mais clara no que chamamos de “cultura de cancelamento”: as pessoas passam a ser “canceladas” nas redes sociais por alguma fala, atitude ou conjunto de atitudes que não satisfazem a um ethos das redes, a um conjunto de atitudes que a sociedade julga pertinentes e aceitáveis. Na grande maioria das vezes, esse “cancelamento” tem o mesmo motivo de fundo: o discurso dessa pessoa nas redes não se alinha, por algum motivo, com suas práticas fora das redes. E isso nos leva a uma característica fundamental que todos nós devemos ter em nosso dia a dia: a coerência entre o discurso e a prática. Se defendemos um discurso em nossas redes, não existe nenhum motivo para que não o pratiquemos em nosso dia a dia.

Estamos todos desalentados, é verdade. Mas a admissão do desalento é um esvaziamento necessário para repensarmos nossas atitudes. Espero de todo o coração que em breve esse desalento se torne um discurso de amor e de esperança, que faça as pessoas se sentirem parte de uma humanidade em que só estamos bem quando todos estão bem. E que possamos viver esse discurso em nossas atitudes também, ainda que isso proporcione momentos de angústia. A angústia é perfeitamente aceitável se tiver os motivos certos.

Talvez seja a única forma de vencer essa individualidade fútil que reina no momento.

Anúncios

Anúncios