Os EUA mataram Soleimani. E agora?

Na madrugada do dia 03 de janeiro, os EUA fizeram uma operação que matou o chefe militar mais importante do Oriente Médio nos últimos anos, Qasem Soleimani. Soleimani é uma figura importantíssima na política iraniana desde a Revolução de 1979, tendo participado da guerra contra o Iraque na década de 80. Mais recentemente, assumiu o comando das operações extraterritoriais da Guarda Revolucionária Quds, sendo o principal chefe militar do país nos últimos anos. Para fazer um pequeno comparativo: se Mohamed Bin Salman é o definidor das estratégias de guerra da Arábia Saudita desde 2015, Qasem Soleimani é seu correspondente iraniano há muito mais tempo. É responsável por estratégias como a aproximação do Irã em relação ao Hezbollah, o apoio aos Houthis na Guerra do Iêmen e o apoio iraniano a Assad na Guerra da Síria. Além disso, é um dos grandes responsáveis por combater o Daesh no Iraque, apoiando as forças militares do país e as forças curdas contra as tropas do califado.

É óbvio que Soleimani não age assim de graça. Ele sempre tentou reafirmar o poder iraniano na região. Tanto que, após a derrota definitiva do Daesh no Iraque, foi um dos grandes estruturadores do governo pró Irã que preside o paí. Foi um dos organizadores da invasão da embaixada americana em Bagdad na última semana. E provavelmente selou aí o seu destino. Junto com ele, também morreu Abu Mehdi Al Muhandis, o principal líder paramilitar pró Irã no Iraque, que atuava no país há décadas e era visto como um dos grandes inimigos dos EUA no país.

É meio precipitado fazer qualquer análise séria do assunto antes dos desdobramentos, mas a minha impressão é que o Trump deu um passo maior que a perna ao autorizar a operação que matou Soleimani e Al Muhandis:

1) Do ponto de vista eleitoral, Trump não precisava dessa operação. É o grande favorito a ganhar a eleição presidencial com a economia dos EUA em alta, baixo desemprego, juros baixos, inflação sob controle e um crescimento robusto do PIB.

2) O Irã se prepara há 40 anos para uma guerra contra os EUA. Desde a Revolução Iraniana, que depôs o Xá Reza Pahlevi, os EUA se tornaram inimigo preferencial do país, com vários episódios de tensão envolvendo os dois países.

3) Trump passou por cima do Congresso. Todas as ações militares de larga escala (Iraque, Afeganistão) tiveram aval anterior do Congresso. Trump agiu sem consultar ninguém, e isso pode desgastar ainda mais a imagem do presidente em um Congresso que acabou de aprovar o impeachment de Trump.

4) O Irã é aliado estratégico de China e Rússia. Tem um background que nenhum outro país atacado pelos EUA nas últimas décadas teve. Semana passada mesmo eles estavam fazendo exercícios militares conjuntos com Rússia e China.

4b) Uma guerra com o Irã pode prejudicar até mesmo o acordo pra acabar a guerra comercial entre EUA e China.

5) Esse ataque vai fortalecer o antiamericanismo no Oriente Médio de novo, tornando aliados dos EUA como Mohamed Bin Salman mais vulneráveis em seus territórios.

6) O acirramento dos conflitos no Oriente Médio provavelmente fará o preço do petróleo explodir, favorecendo inimigos como o próprio Irã, Venezuela e Rússia. O preço já subiu 4% entre ontem e hoje.

7) O Iraque, que já está à beira de uma guerra civil, deve sofrer ainda mais com a desestabilização definitiva provocada pelo atentado. Os próximos passos no país são imprevisíveis.

8) Esse tipo de ataque viola convenções de direitos humanos da ONU.

A retaliação mais óbvia do Irã não é um ataque contra as bases americanas na região. É uma guerra contra a Arábia Saudita. É claro que as bases americanas são importantes, mas elas tem uma capacidade de defesa maior. Se a infraestrutura saudita for atacada, porém, os EUA podem apoiar o quanto for, a diferença de capacidade de dissuasão entre Irã e Arábia Saudita é grande. E o Irã tem apoio de uma rede grande de paramilitares espalhados por vários países do Oriente Médio, e esses caras podem tomar a responsabilidade para si,.

É bom lembrar que, em setembro, os EUA acusaram o Irã de estar por trás dos ataques a duas das maiores refinarias da Arábia Saudita, que reduziram drasticamente a produção de petróleo do país por alguns dias, afetando os preços internacionais. Em um contexto de guerra total, esse tipo de ataque seria muito mais comum e destrutivo, inclusive porque ninguém tentaria esconder ou disfarçar a autoria.

No momento, grandes multidões saem às ruas de várias cidades no Irã para homenagear Qasem Soleimani, que era um heroi nacional. O que virá de retaliação de agora em diante é imprevisível. Mas é certo que alguma retaliação virá.

Aguardemos os próximos desdobramentos.

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