Um País em Litost

O Brasil está em crise desde 2015. O ano de 2014 segue sendo, em valores nominais, o ano de maior PIB já registrado no Brasil, e isso não deve mudar tão cedo: as projeções de crescimento para o PIB de 2019 estão em 0,81%, o que é modestíssimo, considerando que essa projeção começou o ano em mais de 2%.

Crises são janelas de oportunidade para a venda de discursos ideológicos. E nisso a direita segue ganhando de lavada da esquerda. Desde o início da crise, já foram aprovadas diversas leis fiéis ao receituário neoliberal: o teto de gastos, em 2016. A terceirização irrestrita e a Reforma Trabalhista, em 2017. A Lei da “Liberdade Econômica”, via MP, em 2019. A Reforma da Previdência está em processo de aprovação, e vem mais coisa por aí: privatizações em massa, Reforma Tributária, tudo como justificativa para “Crescimento do PIB” e “geração de empregos”.

Essas promessas, tais como “A Reforma da Previdência vai gerar economia de R$ 1 trilhão”, ou “A MP da Liberdade Econômica vai fazer o PIB brasileiro crescer 4% ao ano”, soam mais como as palavras de um pastor evangélico prometendo “vitória” em meio a um turbilhão de desgraças. É assim que o governo Bolsonaro funciona. Sem base prática, o bolsonarismo é a teologia da palavra da fé aplicada a todos os aspectos da vida. É pura autossugestão e tentativa de convencimento com base em torcida, como se você tivesse que convencer um corinthiano a torcer pro Corinthians.

Essa tentativa de impor uma “agenda positiva” não é nova, mas chega ao paroxismo em um cenário que não sugere nenhum otimismo. Três milhões e meio de brasileiros procuram emprego há mais de dois anos, e o desemprego segue em 12% mesmo após extensa desregulamentação. A estatísticas de trabalho em 2019 estão infladas pelos trabalhadores intermitentes, e o nível de inadimplência das pequenas empresas segue batendo recordes. Enquanto isso, o governo segue a retórica de tentar fazer ajuste fiscal destruindo estruturas como a de educação superior e de ciência e tecnologia do país, além de lotear a Amazônia para grileiros avançarem indiscriminadamente, sem nenhuma punição.

Além disso, é preciso ressaltar: o governo Bolsonaro não é um acaso. Esse governo está perfeitamente alinhado com o Legislativo e o Judiciário, ainda que pareça em constante conflito. O ethos conservador da elite de Judiciário e do MP faz com que, às vésperas da indicação presidencial para a PGR, surja um séquito de procuradores puxando o saco do presidente, prometendo sua própria agenda conservadora. A situação é tão cataclísmica que não há nem mesmo um movimento orquestrado de defesa, por parte dos procuradores, do nome mais votado na lista tríplice elaborada pelo próprio MP. Era a regra até outro dia.

É apavorante imaginar que Bolsonaro está tendo que lidar com todo tipo de lobby (Moro, por exemplo, queria que Deltan fosse o indicado, com Vaza Jato e tudo) e, em meio ao lobby, Bolsonaro está se sentindo especialmente poderoso. Poderoso o suficiente para tentar indicar um nome que blinde a sua família de investigações, sem meias palavras.

A queda de popularidade é vertiginosa, mas Bolsonaro nunca se importou com ninguém além dos 30% de brasileiros que seguem o apoiando como um mito. A elite econômica do extrativismo e das commodities, o evangélico conservador que se acha empresário, o conservador que usa o Judiciário para se manter intocável, tal qual a nobreza do Ancién Regime, o militar que está feliz porque saiu ileso da Reforma da Previdência. O Brasil virou o paraíso dos grupos de interesse, especialmente quando esses interesses vão na direção da expropriação dos bens públicos.

Todas as ações são no sentido de fazer com que o Brasil seja um mero exportador de commodities e minérios, sem mão de obra qualificada, sem indústria intensiva em tecnologia, sem qualquer tipo de independência em relação às grandes potências. Todas as reformas vão no sentido de criar subempregos de baixíssimo valor agregado, suficientes apenas para a subsistência, enquanto as exportações do Brasil são cada vez mais dependentes do mercado internacional de soja e de minério de ferro. Basicamente, a intenção é exportar milhões de toneladas de água para o exterior, ganhando no lugar alguns dólares e a destruição das nossas terras de várias maneiras possíveis: seja pela matança de índios, seja pela destruição das florestas, seja pelo risco de novas tragédias absurdas como a de Brumadinho.

Mas ninguém consegue fazer uma avaliação mínima de contexto para saber que esse modelo não vai se sustentar. O Brasil tem quatro grandes parceiros comerciais: a China, a União Européia, os EUA e a Argentina. A China e os EUA estão em uma guerra comercial que deve ter efeitos relevantes para o comércio mundial. E antes dessa guerra comercial ambos os países já estavam dando sinais de esgotamento econômico. Economistas americanos já apontam sinais de que o país passará por uma crise em breve. Depender de commodities é depender da demanda desses dois países por comprar produtos não manufaturados, que deve diminuir bastante nos próximos anos.

A União Europeia está em cenário similar. A região está em desaceleração econômica sem nem ter se recuperado direito da crise de 2008 ainda. A Alemanha, que normalmente sustenta o crescimento da região, teve retração econômica de 0,1% na última divulgação. E, até outubro, o Reino Unido deve sair da União Europeia “de qualquer jeito”, nas palavras do Primeiro Ministro Boris Johnson. Em que pese a assinatura do acordo comercial entre União Europeia e Mercosul, ele não está em vigor ainda. E, pelas última atitudes de Bolsonaro, corre risco.

Bolsonaro mandou Merkel “usar o dinheiro do Fundo Amazônia para plantar florestas na Alemanha”. Mas essa nem é a principal ameaça ao comércio internacional brasileiro. Nosso terceiro maior parceiro comercial é a Argentina. Nas prévias da eleição argentina, Macri perdeu por 15 pontos percentuais da chapa Alberto Fernandez/Cristina Kirchner. E Bolsonaro afirmou absurdos sobre o tema, como de praxe. “Não receberemos argentinos no Brasil se Macri perder” e “se Macri perder o Brasil deve sair do Mercosul” foram só dois desses absurdos.

Mas a Argentina tem um diferencial em relação aos demais parceiros econômicos do Brasil: o perfil de exportações do Brasil para a Argentina é diferente. O Brasil exporta basicamente produtos manufaturados para os argentinos, especialmente carros e motores. A cadeia automotiva gera uma quantidade de empregos ridiculamente maior que a cadeia da soja. Arrumar briga com a Argentina e ameaçar sair de acordos comerciais é basicamente pedir para a taxa de desemprego no Brasil explodir. Pior que isso: qual parque industrial brasileiro vai se sustentar se o país, graças às posturas infelizes do presidente, conseguir brigar com três de seus quatro maiores parceiros comerciais?

Bolsonaro é incompreensível. Mas ele é fruto de um sentimento de parte da sociedade brasileira. Um sentimento tóxico, que sempre existiu, mas estava envergonhado após a redemocratização. Por muito tempo, foi se formando nas sombras, até eclodir de forma brutal nos últimos anos. Não achei nenhuma palavra em português, mas achei um termo (tcheco, imagino) que Milan Kundera usa em “O Livro do Riso e do Esquecimento”. LITOST é a palavra.

É difícil até de explicar. Mas litost basicamente é um sentimento em que a pessoa se sente atormentada por sua miséria e pela falta de expectativa de futuro. E, logo a seguir, esse sentimento impele a pessoa a tentar se vingar de todos aqueles que causaram essa sensação de miséria, fazendo com que todos se tornem reféns dessa sensação horrível, que todos se sintam igualmente miseráveis. O governo Bolsonaro, de alguma forma, parece desejar exatamente isso: que todos se sintam miseráveis e limitados como ele e sua família se sentiram por décadas.

Bolsonaro é o sujeito que nunca foi levado a sério, por defender posições indefensáveis em qualquer regime democrático. É o sujeito que sentiu a vida toda que a sociedade que ele sonhou, a da ditadura militar, nunca mais vai voltar, e que seu destino seria a lata de lixo da história, como deputado extremista e incompetente que sempre foi. Agora, assumindo a presidência, Bolsonaro achou um meio de se vingar de um país inteiro, junto com outras pessoas que sempre pensaram como ele, afogadas em seus fracassos e insignificâncias (e isso mesmo tendo muito dinheiro. Significado é algo que dinheiro nenhum pode comprar).

Só existe um jeito de fugir desse desejo insano de vingança: a recusa à miséria. Não precisamos cair na mesma miséria moral dos Bolsonaros e de seus asseclas. E isso não porque somos superiores, mas porque temos esperança. Temos esperança e energia para buscar voos mais altos. Para sonhar com o país que queremos e em buscar que esse país mais justo aconteça um dia. Bolsonaro só é mais um desafio nesse processo. E a única forma dele não se consolidar no poder é construindo desde já propostas de atuação em âmbito local, é juntando pessoas, é buscando entender o que a sua cidade precisa e o que o seu bairro precisa. Não podemos nos render ao litost.

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