O All In Golpista e o Pós Bolsonaro

Existem dois termômetros importantes pra saber os rumos do governo Bolsonaro: os bots e as conversas de corredor. Ambos os termômetros soam bastante preocupantes pro governo.

Uma característica da convocação para o dia 26 é que ninguém assume a bronca, mas os bots atacam pautas bem pontuais. Só que os bots tem uma característica bem específica: eles são programados de acordo com a vontade do programador. Então eles servem como termômetro pra entender quais são as reais intenções de quem quer disfarçar essas intenções no discurso público.

Todos sabem quem é o senhor dos bots. Isso já estava claro na campanha, com distribuição massiva de notícias falsas via WhatsApp e um engajamento absurdo de contas em redes sociais. A estrutura de campanha de Bolsonaro vem sendo usada para promover as sandices do seu governo de forma capilarizada. Por exemplo: antes dos protestos do dia 15, houve uma movimentação insana no WhatsApp contra as universidades públicas, com um discurso fortemente moral (adequado pro público do Bolsonaro), cheio de mentiras, exageros e descontextualizações.

Então, ao olhar para os bots, a gente meio que sabe qual é a prioridade do Bolsonaro no momento. E, nesse contexto, trago notícias preocupantes sobre a convocação para o dia 26:

É isso mesmo. Fechar o Congresso e o STF. Essa é a intenção dos caras. Dobrar a aposta no autoritarismo, com amparo de um “forte movimento popular”. Não é à toa que viraram as costas pra essa convocação até mesmo grupos de direita que bancaram a eleição do Bolsonaro, como o MBL e o Vem Pra Rua. Para o olavismo místico de Bolsonaro e de seus filhos, o autoritarismo é a única solução de permanência.

E sim, estamos falando de permanência. E daí entram as conversas de corredor. Em Brasília, o provável fracasso do dia 26 já vai autorizar diversos atores políticos a discutir o que virá no pós Bolsonaro. Não se sabe por quanto tempo o presidente resiste, mas uma coisa é consenso: se as manifestações do dia 26 forem um fracasso, Bolsonaro se torna um desenganado político, esperando apenas a hora em que os aparelhos serão desligados.

A partir daí, o que virá depois entra na ordem do dia. E existem dois caminhos bastante pronunciados:

1) A solução Mourão: o General Mourão não está tentando se passar por moderado à toa. Ele sabe que é só uma das soluções possíveis para o fracasso do governo Bolsonaro. E que não tem tanto trânsito nas esferas de poder quanto gostaria. Além disso, anda sumido desde que os militares viraram alvo do olavismo de Bolsonaro e de seus filhos.

O sumiço de Mourão não é um mero recuo estratégico. A cúpula da caserna, que se assentou no governo Bolsonaro, teme um desgaste interno. O Brasil tem Forças Armadas que não são, historicamente, muito leais à cúpula, especialmente quando vêem a cúpula fazendo merda. Hoje está claro demais que se associar ao Bolsonaro foi a maior merda que a cúpula militar fez desde a ditadura. E isso provoca ranhuras e crises internas na caserna, que terão que ser administradas se os militares quiserem continuar com protagonismo na política do país. O custo disso talvez não compense.

Por isso, Mourão tem que andar em um fio extremamente tênue. E o sonho da presidência, que foi colocado na cabeça do Mourão pelo Levy Fidélix, pode ser um grande pesadelo no fim. Mourão já tem experimentado os infortúnios de ser vidraça e, apesar de ser melhor articulado, é tão sem projeto quanto Bolsonaro. Administrando todas essas variáveis, fica muito difícil enxergar no Mourão alguém capacitado para o enorme esforço de estabilização que precisa ser feito agora no Brasil.

2) A solução parlamentarista: parlamentarismo sem consulta popular é um golpe. Parlamentarismo nunca foi algo muito popular no Brasil. O plebiscito de 1993, por exemplo, é emblemático em relação a isso.

No entanto, há um componente importante da nossa cultura política que ajuda a explicar isso. Na ditadura militar, a grande restrição para o cidadão comum, que nunca se envolveu em qualquer manifestação política, estava na eleição dos representantes para o Executivo. Prefeitos de cidades grandes, governadores e o Presidente. Então, ao sair da ditadura, o grande indicador de que “somos uma democracia” era justamente esse: UAU, AGORA PODEMOS ELEGER O PRESIDENTE. Então a consolidação da democracia da Nova República se deu em torno da figura do Presidente como o sujeito que é o representante supremo do povo.

É por isso que, em 1993, o Parlamentarismo não teve a menor chance. É por isso, também, que o discurso “o impeachment da Dilma é golpe” não foi além da militância petista. Democracia no Brasil, na Nova República, é isso: a gente elege o presidente e, se ele for realmente mal, a gente tira ele e coloca o vice no lugar. Deu certo com o Itamar, poxa, não tem motivo pra não tentar isso indefinidamente.

A proposta parlamentarista quer romper essa lógica. Sempre tivemos uma minoria de deputados e senadores favoráveis ao parlamentarismo. O mais famoso deles é José Serra. Essa proposta sempre esteve em stand by no Congresso. A crise fez a proposta ressuscitar.

O problema do presidencialismo brasileiro é que ele demanda que os presidentes sejam, antes de tudo, estadistas. Os únicos presidentes da Nova República que se adequam à definição de estadista sem grandes ressalvas são FHC e Lula. Você pode discordar deles, mas ambos nunca se furtaram a representar o Brasil enquanto chefes de estado relevantes.

Daí, depois do governo Lula, tivemos Dilma, Temer e Bolsonaro. Nenhum dos três com perfil de estadista. O problema é que sem o estadista o presidencialismo de coalizão brasileiro não funciona. E, com tanto tempo sem funcionar, é óbvio que o sistema presidencialista passa a ser questionado.

Mas não é só o questionamento: o Brasil está em crise há tempo demais, e não há mais margem para erro, sob pena do Brasil entrar em colapso. Os defensores do parlamentarismo defendem a necessidade de uma grande coalizão para recuperar o país, para colocar o país de volta aos trilhos. E o grande viabilizador dessa “volta aos trilhos” seria o Parlamento. Um indicativo decisivo nesse sentido foi a apresentação de uma proposta alternativa de Reforma da Previdência, chancelada por Rodrigo Maia, no lugar da proposta do Paulo Guedes. É o Parlamento assumindo o protagonismo das políticas públicas em resposta à inanição do Executivo.

Um regime Parlamentarista teria a vantagem de não precisar lidar con essa rejeição. E tornaria os processos de impeachment menos traumáticos. Ainda atacaria a fragmentação partidária, com a consolidação das coalizões multipartidárias como um imperativo para que o governo aeja possível.

O lado ruim é justamente o de que o Chefe de Estado terá poderes reduzidos. Então, aquela lógica do “presidente que muda tudo” acaba. E o Brasil nunca foi muito bom de eleger congressistas. Então, o poder vai ficar na mão das velhas raposas que já conhecemos, via de regra.

Conclusão

Na prática, não há solução boa. Mas Bolsonaro está nas cordas, e não parece ter forças pra reagir. Se as manifestações do dia 26 forem um fracasso, é provável que o knockout seja inevitável no médio prazo.

Nesse cenário, as duas opções realistas são Mourão e a solução parlamentarista, provavelmente capitaneada por Rodrigo Maia. Mourão tem que ser muito moderado e afável para se mostrar viável. Maia, por sua vez, tem que convencer os demais atores da República de que é o nome agregador para o projeto que vai tirar o Brasil dessa crise de meia década que já vivemos.

Há uma opção mista também: Bolsonaro seria uma espécie de “Rainha da Inglaterra”, enquanto o Parlamento toca a recuperação do país. O problema aí é que não há nenhuma perspectiva de Bolsonaro aceitar uma situação dessas. Mourão, sob certas condições, talvez aceitasse.

Mas nenhuma das opções é fácil. E todas deixarão consequências para as próximas gerações. Mas, olhando com algum distanciamento, todas as opções ainda parecem mais adequadas que a manutenção da insanidade atual do nosso Executivo.

3 comentários sobre “O All In Golpista e o Pós Bolsonaro

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