O Bolsonarismo fustigado

Essa semana foi extremamente divertida pra quem não tem nenhuma simpatia pelo Bolsonaro e por seu projeto de governo quasifascista. Infelizmente, ele segue sendo presidente apesar dos pesares, então convém resumir o que aconteceu.

1) Dia 15 de maio o governo, que ainda não completou 150 dias, sofreu manifestações contrárias em mais de 200 cidades país afora. Bolsonaro caiu na besteira de cortar recursos da Educação, especialmente das Universidades Públicas, alegando razões ideológicas. Quando viu o tamanho do problema e tentou se explicar, era tarde demais: milhões de pessoas estavam na rua protestando e o Ministro Weintraub estava passando vergonha na Câmara dos Deputados.

O problema é que o trapalhão que habita o Palácio da Alvorada tem a habilidade estratégica de um Licinius Crassus. E, com milhões de pessoas na rua, chamou os manifestantes de “idiotas úteis”. Dado o sucesso retumbante dos protestos e o fato de Bolsonaro ter dobrado a aposta, já temos novos protestos marcados: dia 30, em todo o país.

No entanto, Bolsonaro acha que ainda tem apoio popular. E convocou manifestações para o dia 26, domingo anterior ao dia 30. Mas não adiantava só convocar, então Bolsonaro resolveu novamente investir todas as suas fichas na burrice: espalhou uma “carta apócrifa” via WhatsApp, que depois descobriu-se ser de autoria de um ex candidato derrotado a candidato federal pelo… Novo. Foi um dos momentos mais patéticos da história da democracia.

É legal falar sobre o Novo porque, junto com o PSL, foi o único partido que votou contra a convocação do Weintraub. Pois é, a revolução empreendedora na política brasileira virou em pouquíssimo tempo a linha auxiliar de um regime disfuncional que está próximo da falência.

Mas piora: a adesão ao dia 26 está baixíssima, e acaba sendo um diagnóstico bem legal de quem ainda está no barco do Bolsonaro. E só sobraram os dois setores mais vulneráveis à radicalização: os olavistas e os evangélicos.

Os militares já viraram alvos do olavismo de Bolsonaro e seus filhos há alguns meses. A crise mais recente foi a queda de braço entre os filhos de Bolsonaro e o General Santos Cruz. No final, Santos Cruz saiu fortalecido, ao contrário do que aconteceu com Bebbiano, por exemplo, demitido após intensa campanha de difamação iniciada por Carlos Bolsonaro.

O mercado deu sinais claros de que não banca mais Bolsonaro. A Bovespa, que chegou aos 100 mil pontos em março, já perdeu 10% de seu valor. Os atores do mercado não vêem mais em Bolsonaro um nome confiável para apoiar a Reforma da Previdência. E a situação do Presidente é tão absurda que na sexta-feira os deputados apresentaram, com a chancela de Rodrigo Maia, um novo projeto de Reforma da Previdência, totalmente diferente do projeto enviado por Paulo Guedes para votação. O mercado apoia quem dá lucro para o país. Hoje, Bolsonaro não é esse cara. Impressionante que ele tenha cavado sua cova tão rápido. Se os numeros do PIB em 30 de maio confirmarem o IBC-Br ruim, o desembarque do mercado será ainda mais rápido.

Ruralistas são parte desse mercado, e tem percebido os potenciais prejuízos da política externa fortemente ideologizada de Bolsonaro. Por isso já estão reticentes. Vender para o exterior depende de uma boa imagem do Brasil no exterior. E Bolsonaro tem tornado o Brasil um pária internacional, com participação decisiva de seu chanceler Ernesto Araujo e de seu filho Eduardo Bolsonaro.

A turma do Moro, por sua vez, segue sendo desmoralizada diariamente. Moro segue no governo, mas não há nenhuma garantia de que seu famigerado e tosco pacote anti crime terá qualquer futuro. Ele aguarda pela vaga no STF, mas até isso tem gerado desgaste após a promessa de vaga no STF feita por Bolsonaro a Moro vazar na imprensa.

Os olavistas e os evangélicos seguem fiéis. E seguem fiéis porque os motivos da adesão de ambos os grupos ao governo Bolsonaro não são racionais. O mercado aderiu ao Bolsonaro porque achou que poderia realizar lucros em um governo que se prometia neoliberal ao extremo. Ruralistas acharam que teriam mais oportunidades de negócios. Os militares aderiram a Bolsonaro porque por algum motivo acharam que era uma forma de derrotar o PT. A turma do Moro também. Todo mundo tinha um motivo minimamente objetivo pra apoiar o governo. Olavistas e evangélicos não.

Olavistas acreditam numa bizarra guerra cultural pra retomar um conservadorismo ocidental cristão medieval, seja isso o que for. Evangélicos acreditam que Bolsonaro é uma espécie de instrumento para que “o Brasil seja de Deus”, embora Bolsonaro seja católico. Mas o importante é que esses motivos tem um fundo místico, não tem comprovação objetiva, e daí dados e argumentos lógicos não contam: toda resistência vira algo como “as forças do mal se levantando” ou coisa do tipo.

O problema é que o argumento místico vem com essa autodefesa. Se algo dá errado, a culpa é de atores abstratos: as “corporações”, as “forças do mal”, o “levante de Satanás”. Quando você faz esse tipo de abstração, torna aceitável cometer absurdos estilo tratar estudantes como “enviados de Satanás”

É por isso que, para os bolsonaristas, o dia 26 é tão importante: se nem olavistas e evangélicos forem mobilizados, todo mundo vai perceber que Bolsonaro está sem nenhum apoio popular. Quando o Congresso e o mercado perceberem isso, vão elevar o tom. Vão vulnerabilizar ainda mais o governo Bolsonaro.

E daí, pra piorar, ainda virão as manifestações do dia 30. Que prometem ser tão grandes quanto as do dia 15. Até o final de maio, ainda ouviremos falar muito em impeachment.

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