Análise do Cenário Eleitoral: Meirelles, Amoêdo e Álvaro Dias — Retratos de uma Direita Fragmentada

Nesses últimos dias, achei legal a ideia de analisar os candidatos ao pleito presidencial, afinal eles já estão definidos. Já publiquei dois textos nesse sentido: você pode ser o primeiro aqui, sobre Lula/Haddad, Bolsonaro e Marina Silva, e o segundo aqui, sobre Ciro Gomes e Geraldo Alckmin. Esses são os cinco candidatos que realmente tem chances de ganhar o pleito, e qualquer resultado que não inclua dois desses cinco candidatos no segundo turno tem ares de hecatombe. Mas isso não torna menos importante a análise dos oito candidatos restantes, que, querendo ou não, tem um papel importante no pleito.

Peço desculpas, inclusive, porque estou cheio de compromissos e essa análise deveria ter saído antes. Mas ok, não é algo que comprometa a percepção dos candidatos no momento. No fundo, foi até bom, porque alguns fatos novos surgiram, e esses fatos embasaram as análises das candidaturas que veremos hoje.

Amoedo, Meirelles e Álvaro: compilação de imagens Band e Congresso em Foco — UOL

Henrique Meirelles/Germano Rigotto —MDB/PHS

Meirelles tem algo de heroísmo na sua candidatura. Ele leva consigo o DNA do governo Temer: uma autoestima imensa e uma profunda desconexão com a realidade. Isso fica claro em seu slogan de campanha, o “Chama o Meirelles”, criado especificamente para tentar colocar em Henrique Meirelles a imagem do sujeito que resolve situações difíceis. No papel, a estratégia de marketing é realmente ótima. E Meirelles é um dos poucos candidatos que pode bancar uma estratégia de marketing dessas com dinheiro do próprio bolso.

Mas nenhum dinheiro tira o foco de que Meirelles é o candidato oficial do governo mais mal avaliado da história recente do país. É justamente dessa pecha que ele quer se livrar. E, para isso, vai investir de R$ 20 a R$ 26 milhões de seu patrimônio pessoal. A questão aí é: como ele vai investir essa grana toda?

A primeira coisa que Meirelles fez foi contratar uma equipe de marketing realmente profissional, para tentar construir duas imagens: a de “resolvedor de problemas” e a de “descolado”. Por que essas imagens são tão importantes? Porque Meirelles sabe que não tem chances de ganhar a Presidência exceto em caso de uma hecatombe, então ao menos quer sair com uma imagem positiva das eleições.

Nesse contexto, a narrativa que Meirelles quer emplacar é: “sou o sujeito técnico que está aqui para resolver problemas, de maneira apartidária. Se precisar eu ajudo o Lula. Se precisar eu ajudo o Temer. Não importa quem seja o chefe, estou focado em resolver os problemas e por isso mesmo estou capacitado para ser o chefe agora. E para isso, acreditem: sou um cara legal”.

Bem, está óbvio que esse discurso tem incongruências. A primeira delas é a de se vender como “apolítico” e sair à Presidência justamente pelo partido de Michel Temer. A segunda é que Meirelles não é exatamente um poço de carisma. A terceira é que, além de não ser um poço de carisma, Meirelles não é bom de debate. A quarta é que Meirelles é banqueiro e fala linguagem de banqueiro. Aquela postura pedante nos debates “vocês precisam saber o básico de economia” não é exatamente a melhor forma de conquistar os votos indecisos.

É, já deu pra perceber que Meirelles não tem muita expectativa de crescimento.

Mas a candidatura Meirelles tem um trunfo: é o terceiro maior tempo de TV da campanha. E, como já foi dito, tem uma equipe de marketing legal. Até as coisas forçadas, como o “Meirelles geek”, parecem ter sido calculadas. E, querendo ou não, estamos falando de um candidato do MDB, o partido com o maior número de filiados do país e também com o maior número de cargos em prefeituras. Meirelles, querendo ou não, tem espaço para trabalhar, e, embora seja uma nulidade nas intenções de votos atualmente, deve pegar uma pequena parte dos votos daqueles 20% de brasileiros que acham o governo Temer bom ou regular. Deve terminar a eleição com algo entre 2 e 2,5 milhões de votos. Não é muito, mas é o suficiente para atrair os olhares de quem quer apoios no segundo turno.

Álvaro Dias/Paulo Rabello de Castro — Podemos/PSC/PTC/PRP

A Operação Lava Jato virou algo tão grande que ganhou até candidato presidencial próprio, na esteira do orgulho de parte da sociedade paranaense com a “República de Curitiba”. O que mostra isso é que Álvaro Dias aparece nas pesquisas presidenciais com seus habituais 4 ou 5% de votos, apesar de ser tão irrelevante quanto qualquer outro candidato nanico em todos os estados do país que não se chamam Paraná. Está perdendo uma ótima chance de ser candidato a governador do estado, se a gente considerar que o atual líder nas pesquisas de intenção de votos para o Palácio Iguaçu é o Ratinho Júnior.

Mas não só de cálculo eleitoral se faz uma campanha presidencial. Também é currículo. Nada é capaz de apagar o orgulho de um sujeito com 50 anos de trajetória política (sim, Álvaro Dias se tornou vereador em Londrina em 1969) em dizer “fui candidato à Presidência da República em 2018”. Sim, Alvaro Dias está aí mais pela alegria e pelo orgulho de ser o candidato que representa o conservadorismo predestinista de parte dos paranaenses que ganhou fama nacional com a Operação Lava Jato.

O que é o “conservadorismo predestinista” de parte do eleitorado paranaense? É a postura conservadora, com foco específico na pauta anti-corrupção, aliada a uma postura de ação ativa, o tal “senso de missão” do qual se orgulham caras como Deltan Dallagnol. Essa postura “vamos salvar o Brasil”, aliada ao orgulho regional, ganha ares até meio místicos, como no caso da vidente paranaense que previu a vitória de Álvaro Dias na eleição. Vale qualquer coisa pra alimentar a narrativa.

Na última eleição, Álvaro Dias teve mais de 4 milhões de votos para Senador no Paraná. Recorde absoluto de votação, 77% dos votos válidos. Parece claro que, apesar de todo o orgulho local, Álvaro Dias não deve atingir esse índice de votos no estado. Mesmo porque sua estrutura de marketing de campanha é fraca, o tempo de TV não é muito grande, e a única capacidade dele de se destacar em debates eleitorais é pelo excesso de botox. É o Coringa da eleição, e não no sentido de ser o jogador-chave, mas no sentido de parecer o personagem interpretado por Heath Ledger em Batman.

Mas Álvaro Dias tem importância nessa eleição sim. A grande maioria de seus votos originalmente seriam o PSDB ou de Bolsonaro. Sem os votos paranaenses em Álvaro Dias, o teto de ambos é ligeiramente menor. Numa eleição tão equilibrada, isso pode fazer diferença. Enfim, deve ter de 3,5 a 4 milhões de votos nessa eleição. O que deve ser suficiente para vender o apoio no segundo turno em troca de um ministério caso algum candidato de centro-direita vença a eleição.

João Amoêdo/Chrstian Lohbauer — NOVO

“Você já ouviu falar do Partido Novo?”

Alguém deve ter mandado pra você essa mensagem pelo Facebook nesses últimos dias. De fato, o alcance de Amoedo na plataforma tem crescido bastante. Mas quais são os motivos disso?

Amoedo é, à exemplo de Meirelles, banqueiro. E até isso já virou notícia desvirtuada no Facebook. Os apoiadores do Amoedo já espalham ao quatro ventos que “Amoedo não é banqueiro,é ex-bancário”. Ex-bancário era eu, que tinha quinze minutos de intervalo pra comer e escovar os dentes porque o banco estava lotado e tinha cliente me esperando. Amoedo, com seus mais de R$ 400 milhões de patrimônio (mais que o Meirelles até), é banqueiro mesmo.

Isso quer dizer que Amoedo tem um monte de dinheiro pra gastar na campanha. Deve gastar até mais que o Meirelles, afinal o Novo “orgulha-se de não usar o dinheiro do fundo partidário”. Inclusive é uma opção política legítima defender o neoliberalismo econômico de maneira radical. Só que, sem tempo de TV, fica a pergunta: onde o Amoedo vai gastar toda essa grana?

Essa pergunta começou a ser respondida no dia 15, quando a campanha eleitoral começou de fato: nas redes sociais, especialmente no Facebook. Isso porque o Facebook permitiu a postagem patrocinada para campanha eleitoral, ao contrário do Twitter. Com isso, Amoedo tende a conquistar parte do eleitor liberal, geralmente das classes A e B, que originalmente votariam no Bolsonaro (como eu mostrei aqui), mas consideram Amoedo uma opção mais palatável e menos virulenta. Prova disso é que os novos fãs do Amoedo tem as mesmas características dos fãs do Bolsonaro: são extremamente engajados e bastante intolerantes a opiniões contrárias, sempre querendo “provar o seu ponto”. Além disso, vendem o Amoedo como “novidade”, algo que soa como música para os ouvidos de quem propagandeia a antipolítica dia e noite.

Mas, se Amoedo ganha com isso, quem é que pode perder? Bolsonaro, obviamente, mas também Geraldo Alckmin. Porque os votos que podem estar indo pra Amoedo talvez fosse para Alckmin com o início do horário eleitoral. Mas a campanha de Alckmin está um bagunça, e inclusive os coordenadores da parte de marketing digital foram substituídos. O que é ótimo para o Amoedo, que, sabendo que o foco de sua campanha era o marketing digital, está formando uma rede cada vez maior nesse sentido.

Qual deve ser o resultado? Nesse eleição, Amoedo deve ter cerca de 2 milhões de votos em âmbito nacional, em uma análise otimista. O grande objetivo do Novo é ultrapassar a cláusula de barreira, apesar de todo o discurso “não queremos dinheiro do fundo partidário”. Esse crescimento do Amoedo será importante para isso, mas a tendência, apesar de todo esse crescimento, é que o partido não consiga tantos votos legislativos assim nessa eleição.

Conclusão: os Retratos de Uma Direita Fragmentada

Uma coisa que sempre é muito superestimada é a “genialidade” dos políticos. Parte da sociedade e dos analistas políticos consideram que os principais nomes da política nacional são dotados de certa “clarividência”, sendo capazes de enxergar vários passos à frente. Um exemplo clássico usado nesse sentido é o de Lula com seus “postes”. Na prática, a maioria dos nomes lançados por Lula nos últimos anos ou não conseguiram se eleger (como Padilha) ou deram uma enorme dor de cabeça ao ex-presidente (como Dilma e Agnelo).

No campo da direita, essa “genialidade” é superestimada também, especialmente após o impeachment de Dilma Rousseff. Todo mundo, especialmente na esquerda, acha que o impeachment foi uma articulação genial envolvendo o legislativo, o STF, a mídia, os militares, a igreja, os EUA, e, em alguns círculos mais místicos, os Illuminatti, a maçonaria, os reptilianos, os templários e alienígenas do passado em geral. Na prática,o impeachment foi só um momento de senso de oportunidade, em que a direita crescente do país viu que o PT estava enfraquecido e impopular pela primeira vez em treze anos no poder e, pouco apegada aos ideais democráticos, usou o desespero de próceres do centrão em se livrar da Lava Jato (incluindo aí Michel Temer e Eduardo Cunha) para chegar ao poder.

É óbvio que todo o processo de impeachment jogou uma enorme bomba na mão da direita brasileira, e a impopularidade do governo Temer dá uma medida do tamanho dessa bomba. Talvez o maior erro da história do PSDB tenha sido o apoio ao impeachment. Sem o impeachment, teríamos mais um PT x PSDB em 2018, mas com o PT extremamente desgastado. Com o impeachment e dois anos e meio de Temer, o PSDB se consolidou como um partido reduzido ao antipetismo, e, nesse contexto, perdeu o protagonismo do campo da direita.

Bolsonaro ganhou esse protagonismo (afinal encarna o antipetismo de maneira muito mais raivosa que o PSDB), mas a eleição presidencial também trouxe outros nomes: Meirelles, Álvaro Dias e Amoedo (Cabo Daciolo fica pra outra análise). O grande problema aí é que esses cinco candidatos, após o governo Temer, dividem entre si um grupo menor de votos, visto que a direita perdeu espaço nos últimos dois anos com os constantes ataques aos investimentos públicos em setores essenciais (saúde e educação, especialmente) e aos direitos dos trabalhadores (via terceirização irrestrita e Reforma Trabalhista). São reformas impopulares, e essa impopularidade respingou nos candidatos de direita. Então hoje, em uma análise muito otimista, a direita tem no máximo 40% dos votos válidos.

Pra piorar, Álvaro Dias tem seu público cativo, não devendo perder espaço. E Meirelles/Amoedo são os dois candidatos de maior investimento. Alckmin e Bolsonaro, os dois candidatos viáveis de direita, devem dividir uma parcela ainda menor dos votos. Por ora, Bolsonaro está em larga vantagem. Mas estão na mesa, além de Alckmin, três opções distintas de voto de direita, uma para cada perfil de eleitor do Bolsonaro: Álvaro Dias, para o eleitor anti-corrupção que põe plaquinha “Eu apóio a Lava Jato” no carro. Meirelles, pro desalentado que só quer ver os problemas resolvidos. E Amoedo, para o sujeito que adota o discurso da antipolítica, mas não quer um candidato tão virulento quanto Bolsonaro.

Se os três candidatos somados seguirem as projeções e tiverem cerca de 8% dos votos válidos, a situação de Bolsonaro e Alckmin fica dramática. Há risco sério de ambos ficarem de fora do segundo turno. E isso mostra que de “genial” a direita brasileira não tem nada: com o desmantelamento do PSDB como centralizador do discurso de direita, todo mundo quer cavar o seu próprio espaço visando as próximas eleições. É uma estratégia que pode fazer com que o segundo turno não tenha nenhum dos candidatos apoiadores do legado de reformas de Michel Temer.

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