Análise do Cenário Eleitoral: Lula/Haddad, Bolsonaro e Marina Silva

Com a confirmação das chapas da eleição presidencial, é possível traçar o cenário até outubro. Essa confirmação possibilita análises iniciais acerca das possibilidades de cada candidatura, e previsões que podem estar completamente erradas, mas que são bons parâmetros de partida. A série vai começar com três das principais candidaturas: Lula (que deve virar Haddad), Bolsonaro e Marina Silva:

Lula, Bolsonaro e Marina Silva (Fonte: jornaldemidia.com)

Lula/Haddad/Manuela D’Ávila — PT/PC do B/Pros/PCO

Esse Frankenstein eleitoral é uma cortesia da estratégia eleitoral do PT, que quer fortalecer uma candidatura que naturalmente seria fraca na esteira do enorme recall eleitoral de Lula. O PT tem tido ao menos 30% dos votos válidos no 1º turno de todas as eleições presidenciais ocorridas no país desde 1998, e, se Lula estivesse concorrendo, essa marca seria batida novamente com facilidade esse ano. Com Lula preso desde abril, a possibilidade de uma candidatura que se estenda até o fim do pleito é apenas retórica, e a chapa presidencial “pra valer” deve ter Fernando Haddad e Manuela D’Ávila.

A estratégia do PT está dividida em duas partes: a primeira, em andamento desde a prisão do presidente, está em vincular a imagem de Lula à imagem de Haddad. Não é casual que Haddad, vencendo as resistências da direção do partido, se consolidou como coordenador de campanha de Lula e, agora, como o candidato à vice-presidência que fatalmente será candidato à presidência quando a candidatura de Lula for indeferida no TSE, enquadrada na lei da Ficha Limpa.

É esse momento que vai iniciar a segunda parte da estratégia do PT: após a vinculação de Haddad com Lula, o partido vai tentar vendê-lo como aquele que vai herdar o legado de Lula, junto com Manuela. Para isso, a presença de Manuela D’Ávila no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e abril, quando Lula se entregou à Polícia Federal, foi essencial. Essas imagens e vídeos farão parte da campanha agora, assim como as imagens e vídeos de Lula com Haddad.

A estratégia já estava traçada desde aquela época? Talvez não com grande nível de detalhamento, mas em linhas gerais sim. A grande dúvida, nessa estratégia, é se os votos de Lula passarão para Haddad. É impossível determinar com antecedência capacidade de transferência de votos, mas estamos falando de um país em que 20% dos eleitores manifesta preferência político partidária pelo PT, mesmo com todos os escândalos em que o partido esteve envolvido nos últimos anos. Esse é um ativo que nenhum outro partido tem.

Além disso, há uma outra questão. A troca de candidatos pode ocorrer até o dia 17 de setembro, que é o prazo final para o TSE julgar os pedidos de impugnação de candidaturas. Se Lula for impedido nessa data, é muito provável que o nome e a foto na urna sejam os de Lula, apesar do candidato de fato ser Haddad. Isso vai causar confusão? Sim, com certeza. Mas é uma confusão que trará muitos votos ao PT.

Então Haddad está no segundo turno? Não é tão simples assim. Haddad precisará aparecer, e sofrerá ataques por conta disso. Algumas emissoras, como a Band, já se manifestaram desfavoráveis em permitir a participação de Haddad nos debates eleitorais, e o PT provavelmente terá que lidar com essa questão junto ao TSE. Além disso, há uma parte do “campo progressista” inclinado a votar em Ciro Gomes.

É prudente afirmar que, em um cenário normal, Ciro Gomes deve herdar cerca de 10 milhões dos 43 milhões de votos recebidos por Dilma no primeiro turno em 2014. São petistas decepcionados, que buscam outra opção viável dentro do “campo progressista”. Também são frutos da incessante campanha do candidato nos últimos dois anos. Também é prudente afirmar que cerca de cinco milhões desses votos migrarão para outros candidatos: Marina Silva, Guilherme Boulos, e, em menor parcela (coisa de 1 milhão, pelas últimas pesquisas presidenciais), até mesmo para candidatos conservadores como Bolsonaro. Sobra um universo de 27 milhões de votos. É nesse universo que Haddad terá que se concentrar para ir para o segundo turno.

Soa suficiente? Em condições normais, soa sim. Independente de ataques da imprensa ou de questões ligadas ao Judiciário. Até porque os últimos meses trouxeram um cenário desalentador para as forças antipetistas: a de que não adianta mais denunciar o PT por corrupção. Denúncias por corrupção são pregações para convertidos quanto estamos falando de Lula e do PT. O fato de Lula permanecer com os mesmos patamares de intenção de voto mesmo após ser preso são impactantes demais nesse sentido. A maioria dos eleitores do PT não deixarão de votar no partido por conta de denúncias envolvendo Lula ou Haddad. E isso tem muito a ver com a percepção de seletividade da Justiça em favor dos políticos do PSDB que se solidificou nos últimos dois anos.

Para completar, o PT é o partido com o maior recall eleitoral do país na eleição presidencial, com muita distância. Então é prudente apostar que, em uma situação sem grandes intercorrências, com Haddad fazendo bons debates, a chapa de Haddad e Manuela D’Ávila passa para o segundo turno com um patamar entre 25 e 30 milhões de votos.

Jair Bolsonaro/General Mourão — PSL/PRTB

Bolsonaro é um fenômeno das redes, e foi nas redes que ele alcançou sua enorme popularidade, alcançando cerca de 20% dos votos. A sua militância na Internet é a mais apaixonada, e para isso o seu discurso é essencial: um discurso extremista, que prega “soluções finais” para todos os temas, envolvidas em invólucros simples como “castração química”, “bandido bom é bandido morto” e coisas do tipo. Em um país em crise, com a economia em frangalhos e mais de 60 mil homicídios ao ano, é uma retórica poderosa.

É com essa retórica poderosa que Bolsonaro quer ir ao segundo turno. No entanto, os últimos movimentos de Bolsonaro mostraram que o candidato fez uma escolha. E essa escolha foi pela radicalização de suas posturas extremistas. Mostras dessa escolha estão no fato de que ele comprou briga com as organizações Globo, ao assinalar o apoio de Roberto Marinho à ditadura militar durante entrevista, e também na escolha do General Mourão como seu vice. Para quem não se lembra, há menos de um ano o General Mourão pediu uma “intervenção militar” no país.

Essas escolhas aumentam o engajamento de seus fãs (Bolsonaro, mais do que eleitores, tem fãs), mas também limitam o universo de eleitores propensos a abraçar a sua candidatura. Engajamento adicional é algo muito bom, mas, para a desgraça do candidato, os votos seguem valendo um, e ainda não há nenhuma regulamentação no TSE que autorize os bots criados para amplificar o alcance da candidatura Bolsonaro nas redes sociais a votarem.

Além disso, Bolsonaro é o líder nas pesquisas nos cenários sem Lula (que fatalmente se consolidarão). E é tradicional que o líder nas pesquisas também seja o candidato mais atacado pelos demais. Isso é um grande problema, especialmente quando você não conseguiu criar uma grande coligação e tem apenas doze segundos de propaganda eleitoral gratuita.

Mas o problema aumenta: Bolsonaro polariza os votos da direita (e aqui estamos falando em um grande espectro, que vai da centro-direita à extrema-direita) com Alckmin, Meirelles e Álvaro Dias. Tirando o PT, são os candidatos com maior tempo de TV — especialmente Alckmin, que concentra consigo 44% do horário eleitoral. E as armas de toda essa turma vão permanecer apontadas para Bolsonaro a campanha inteira.

Por que a campanha inteira? Porque Bolsonaro não vai desidratar rápido, independente da estratégia utilizada. E isso por conta do perfil do eleitor do Bolsonaro. Existem três tipos de eleitores do Bolsonaro, divididos de forma mais ou menos equânime entre os 20% de votos que ele tem atualmente. Embora essas características se misturem, em muitos casos, é bom fazer a tipificação para deixar o perfil claro:

  • O odioso: é aquele cara que compra de fato o discurso de ódio do Bolsonaro. Esse é o eleitor mais consolidado do candidato, aquele que não vai mudar de opinião em hipótese alguma. Mesmo porque não há nenhum outro candidato que concorra com Bolsonaro em relação à “atração eleitoral pelo ódio”. Ciro Gomes tentou fazer algumas incursões nesse sentido, mas elas não fizeram nem cócegas. Então é possível dizer que esses 7% de votos já estão consolidados.
  • O desalentado: esse é o sujeito que vota sob protesto, que não acredita em “nada do que está aí”, e que aparece sempre em duas ocasiões: na eleição para o Legislativo e em momentos de crise. Foi esse tipo de sujeito que fez Enéas Carneiro ter 7,38% dos votos válidos em 1994, com um discurso tão arrivista quanto o de Bolsonaro. É difícil tirar esse voto do Bolsonaro, porque ele é a representação por excelência do desalento com a política, mas é possível: é preciso apresentar propostas paulatinas de país, fáceis de entender, didáticas, que dêem esperança para essas pessoas. Mas é bom esperar que, no final, uma parcela pequena dessa turma tenha sido dissuadida de votar em Bolsonaro.
  • O “tucano frustrado”. A sensação de que o PSDB é privilegiado pela justiça cresceu muito nos últimos anos. Pra piorar, nos últimos dois anos o PSDB esteve alinhado ao governo Temer. Com isso, o PSDB perdeu grande parte de seu protagonismo como plataforma do antipetismo por excelência, e grande parte do discurso antipetista caiu no colo do Bolsonaro. No entanto, essa turma é a mais fácil de cooptar. Se Alckmin fizer uma campanha desconstruindo Bolsonaro e se mostrando viável, tende a trazer grande parte desses votos de volta. Mesmo porque causa um certo desconforto no eleitor tucano ter que compactuar com as pautas que Bolsonaro defende, ele está votando em Bolsonaro claramente por falta de opção.

Com esse cenário, é plausível afirmar que Bolsonaro tem aproximadamente dois terços de seus eleitores “fidelizados”. Com a radicalização de sua campanha, será muito difícil conseguir novos eleitores, ainda que hoje o candidato tenha a rede mais robusta de propagação de notícias (falsas) nas redes sociais entre todos os candidatos. Essa rede deve servir de contraponto aos seus eleitores, fazendo um forte discurso “anti Rede Globo”, por exemplo. Mas a conquista de novos eleitores deve ser algo desprezível, o que fará Bolsonaro oscilar, em condições normais, para algo entre 13 e 15% do eleitorado.

É por isso mesmo que a campanha de Bolsonaro, além da estratégia habitual de atração de votos para o candidato, tem uma outra estratégia, herdada da campanha de Trump: a de incentivar a abstenção. Bolsonaro só tem chance de ir para o segundo turno em cenários de alta abstenção. Então a campanha de Bolsonaro, além de promover o candidato, faz um discurso totalmente antipolítico, desincentivando a participação. Sob uma abstenção de 40%, por exemplo, os 147 milhões de eleitores do país se tornam 89 milhões, e, nesse cenário, os 14% de eleitores fidelizados do Bolsonaro se tornam 23%, tornando-o um candidato sério a uma vaga no segundo turno.

Então, para a chapa de Jair Bolsonaro, em condições normais, o diagnóstico inicial é o seguinte: sua chapa tende a ter entre 19 e 21 milhões de votos, tendo chance de passar para o segundo turno apenas em cenários em que a abstenção em nível nacional supere os 40%.

Marina Silva/Eduardo Jorge — Rede/PV

Em muitas oportunidades, Marina Silva foi tida como carta fora do baralho. Mas Marina Silva é um fenômeno eleitoral e é preciso respeitar esse fenômeno. Ninguém chega ao patamar de 20 milhões de votos em duas eleições presidenciais consecutivas por acaso. é preciso explicar esse fenômeno.

Marina Silva surgiu como “terceira via” em 2010, em uma eleição extremamente polarizada entre Dilma Rousseff e José Serra. Era a única opção minimamente viável ali que fugia da dicotomia PT/PSDB, e fez uma campanha consistente, com bons desempenhos em debates (sim, Marina Silva debate bem e isso tem que ser considerado no cálculo eleitoral). Atraiu o público descontente com os dois pólos da política brasileira na ocasião, tendo a maior votação para um candidato que não fosse filiado ao PT ou ao PSDB (quase 20 milhões de votos) desde Fernando Collor no primeiro tuno de 1989. E com uma proposta que juntava ambientalismo e uma faceta progressista mais “liberal” do que a adotada pelo PT.

Para 2014, Marina Silva não conseguiu formalizar a sua Rede. Conformou-se em ser vice-presidente de Eduardo Campos, que faria na eleição o papel que ela fez em 2010. Mas o acidente aéreo em Santos mudou tudo, ela se tornou a protagonista da eleição, e passou a sofrer ataques sistemáticos de PT e PSDB, interessados em manter a hegemonia da política nacional, sem dar espaço para um ator externo. Nesse cenário, foi cultivada a fama de “indecisa” na candidata e o segundo turno acabou sendo entre PT e PSDB, como de praxe. Mas Marina Silva conseguiu mais de 22 milhões de votos, e isso bateu inclusive a marca de Fernando Collor no primeiro turno de 1989. Se houve alguém capaz de capitalizar em votos a rejeição de parte dos brasileiros ao PT e ao PSDB, esse alguém foi Marina Silva.

As posições controversas dela em relação a alguns temas (apoio a Aécio no segundo turno de 2014 e um apoio velado ao processo de impeachment de Dilma, em 2016, notoriamente) corroeram a imagem dela junto a parte de seu eleitorado, e a parte mais conservadora desse eleitorado (especialmente aquela ligada às igrejas neopentecostais) acabou aderindo à candidatura de Bolsonaro. Afinal, Marina Silva não é mais a única opção de rompimento da polaridade entre PT e PSDB. Mas, mesmo com tudo isso, as pesquisas mostram ela consolidada em um patamar entre 10 e 15% dos votos. Por que?

Porque o voto em Marina Silva tem uma característica muito específica: é o voto mais desengajado de todos. Ninguém vai ver uma militância ativa pedindo votos para Marina Silva, ninguém vai defender apaixonadamente a candidatura de Marina Silva como defende a candidatura de Bolsonaro, mas, na urna, Marina Silva tem votações impressionantes. Isso ocorre porque o voto em Marina Silva é o voto antipolarização, o voto que tenta uma opção de centro, conciliadora, ainda que na prática Marina Silva não tenha dado grandes mostras de seu poder de conciliação.

Para melhorar a situação dela, tudo o que ocorreu entre 2014 e 2018 corrobora o seu discurso “eu sou a opção ponderada contra essa polarização maluca entre PT e PSDB e eles se uniram para me derrubar em 2014”. Seu público é muito consolidado, mas pouco engajado. Isso explica, por exemplo, porque Marina Silva vai tão mal em pesquisas feitas por telefone, que são mais sensíveis ao engajamento do eleitor. Mas o fato é que o voto continua valendo um, e o eleitor desengajado de Marina Silva vale tanto quanto o eleitor apaixonado de Jair Bolsonaro.

Além disso, nas eleições de 2010 e 2014 se verificou um crescimento muito grande da preferência por Marina Silva nos últimos dias em um público específico: o público evangélico. Embora existam igrejas mais próximas de Bolsonaro (algumas Assembléias de Deus são exemplo nesse sentido), a capacidade de transferência de votos dos líderes religiosos é limitada — no máximo de 30% entre os fiéis, em uma estimativa muito otimista. Os votos evangélicos de Marina Silva, no entanto, estão nos 70% restantes, os 70% que sofrem menos influência pastoral. Nesse sentido, Marina Silva tem uma vantagem, especialmente em um momento de desgaste da bancada evangélica (ela sempre buscou se desvincular desse grupo).

O pouco tempo de TV é um fator contrário, mas em 2010 esse fator foi tranquilamente superado. E, em uma campanha mais curta, o recall ganha importância. Nisso há uma grande vantagem para Marina Silva: ela não precisa se fazer conhecida para o público, todos já a conhecem.

E, para finalizar, há a questão do vice: a aliança com o PV talvez tenha sido a mais essencial dessa eleição: sem o PV, Marina Silva provavelmente não poderia participar dos debates. E Eduardo Jorge, apesar de não ter votação, ficou com uma imagem positiva nas eleições de 2014, “cool”, afugentando um pouco a imagem de senhora evangélica de meia idade que ronda Marina Silva desde a campanha de desconstrução feita por PT e PSDB em 2014.

No entanto, a campanha de Bolsonaro pela abstenção tem como principal alvo Marina Silva. O voto menos engajado também é o voto mais propenso à abstenção. Então Marina Silva precisa que os índices de abstenção estejam sob controle para ter chances de passar para o segundo turno em uma situação normal (e se tem alguém que entende de situações ANORMAIS em eleição presidencial esse alguém é Marina Silva)

Dados esses fatores, é bem provável que Marina Silva brigue pelo segundo turno até o final, com uma votação entre 20 e 22 milhões de votos, a não ser a a abstenção supere os 40%.

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Aguardem para os próximos dias a análise dos demais candidatos presidenciais. Em breve, mais novidades =)

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