Não Adianta Mais Chamar o Fascista de Fascista

A única maneira realmente eficaz de combater o discurso reacionário desumanizador é dando uma perspectiva real de futuro para as pessoas. Não é à toa que esse reacionarismo que não respeita nem a vida humana explodiu mundo afora pós crise de 2008 e no Brasil à partir de 2014. Óbvio que já existiam indícios disso tanto no Brasil quanto lá fora. O Tea Party não surgiu do dia pra noite, os movimentos anti-imigração também não, os programas policialescos estão “doutrinando” as pessoas Brasil afora há décadas.

Em alguns lugares, os campos mais progressistas estão começando a pensar só agora em soluções para a crise. E na maioria das vezes são soluções só para a crise, do estilo “vamos implantar um programa de renda mínima”, não são uma mudança paradigmática pra superar o capitalismo financeiro atual. Eu gosto muito de programas que promovam a justiça social estilo o Renda Mínima, acho sensacional, por exemplo, o Piketty ter feito cálculos pra ver o custo do programa na França no contexto da campanha presidencial do Benit Hamon. Mas sem um projeto maior de fundo, isso também vai fortalecer a lógica torta dos grupos reacionários que chamam pobre de vagabundo. É equivocado, é errado, todo mundo sabe disso, mas honestidade e rigor científico nunca foi o ponto forte desses caras.

Muitas pessoas, para criticar o socialismo marxista, dizem que os modelos socialistas dão importância excessiva às relações de trabalho. Mas o socialismo marxista é só uma resposta ao capitalismo, que dá AINDA MAIS IMPORTÂNCIA a essas relações de trabalho como mensuradoras da sociedade. A lógica do capitalismo basicamente é “se você não tem renda você não come”, e isso acaba sendo derivado em outra lógica: a de que se você não trabalha não merece nem mesmo comer. E as justificativas para esse raciocínio perverso são tanto ‘racionais’, tais como “você deve produzir valor para a sociedade”, quanto emocionais, estilo pegar a Bíblia e falar “devemos trabalhar porque Deus falou para Adão que ele comeria do fruto do seu suor”.

Isso é especialmente ruim porque coloca toda a culpa pelo fracasso das pessoas nelas mesmas. Se você tá passando fome é porque “é um vagabundo que não quer trabalhar”. Mesmo que não haja trabalho para todo mundo (e sabemos que “não ter trabalho para todo mundo” é uma velha tática capitalista para promover o achatamento de salários)

Por outro lado, isso também faz parte de uma outra estratégia que é usada há séculos, mas é especialmente cruel no modelo de capitalismo financeiro atual: salários são achatados para que você se preocupe apenas com suas necessidades e não consiga projetar um futuro. Nosso futuro é roubado, da mesma forma que o futuro dos operários do século XIX nas fábricas inglesas era roubado quando eles trabalhavam 16 horas por dia por um salário que mal pagava as despesas mais básicas. Não à toa, relatórios como o Global Wealth Report alertam que a concentração de renda global nos últimos aos atingiu patamares vistos apenas no século XIX.

Esse sistema extremamente concentrado é insustentável, essa insustentabilidade promove ciclos de crescimento e crise, e essas crises sempre são pretextos para um achatamento ainda maior dos salários e para aumentar ainda mais a desigualdade entre ricos e pobres. Daí a grande maioria com salários achatados fica ainda mais desesperada, porque é cada vez mais difícil ter as necessidades básicas atendidas. A esperança no futuro se torna uma utopia quase ofensiva. Isso afrouxa as amarras sociais e traz medo como expectativa de perda, individualizando contextos: as pessoas vão se preocupar em ver as suas necessidades básicas atendidas antes de se preocupar com qualquer outra coisa.

O medo enquanto individualização de contextos assume várias facetas: da cessão de direitos em nome da manutenção do emprego ao medo da violência que coloca em risco os bens e, em última instância, a própria vida. Daí, nesse cenário de desalento, as pessoas tem 2 opções: acreditar em projetos plausíveis de futuro ou acreditar em malucos reacionários extremamente individualistas que oferecem uma suposta solução imediata “sem pudores”, baseada na eliminação do próximo em um contexto capitalista, mas às vezes até mesmo de forma literal.

Definir “contexto capitalista” é importante pra entender: o capitalismo enxerga as pessoas como competidoras umas com as outras por uma quantidade limitada de recursos, fortalecendo o argumento da culpabilização do indivíduo por seu fracasso e do louvor ao indivíduo pelo seu sucesso — traduzido atualmente na palavra meritocracia.

Nesse contexto, quando surge um reacionário pregando a eliminação do diferente — e isso vai da reação aos movimentos identitários e do desprezo ao pobre que vive na favela até os movimentos de extrema direita anti imigração na Europa — esse discurso encontra eco num grupo de pessoas sem esperança no futuro. Porque é uma “solução” simples, fácil, com um efeito psicológico imediato: ao apontar um inimigo, as pessoas encontram “a causa de seus problemas”, a eliminam e, quando o problema permanece, é só apontar outro inimigo, perseguir e destruir. E assim sucessivamente, até um pensamento único se estabelecer (nunca acontece) ou até as pessoas perceberem que destruir outras pessoas não destruirá ideias.

Agora, uma pausa para ouvir Iggy Pop & The Stooges.

Essa busca por inimigos ideais foi essencial na vitória do Trump, que conseguiu seus votos decisivos no Rust Belt, repleto de cidades decadentes em que as pessoas já não tinham mais nenhuma expectativa. Mas também acontece na Europa após a crise, especialmente após o aumento o fluxo de refugiados da vindos do Oriente Médio e da África, e também aqui no Brasil, com a popularização de pensamentos como o do Bolsonaro, bem como de grupos temáticos, em sua maioria financiados por think tanks, que se dizem liberais mas defendem pautas profundamente retrógradas, tais como Mises Brasil, ILISP, Students For Liberty e MBL.

Nesse contexto, ficar denunciando que esses movimentos são fascistas não vai adiantar nada, porque não oferece solução prática para um problema urgente. Esses líderes reacionários também não oferecem, na verdade, mas mostram uma solução aparente e imediata, que todos sabemos que é completamente irreal. Mas é uma solução, na medida em que as pessoas em situação de desalento compram como uma solução. E daí, quando o sujeito abraça essa solução fácil, chamá-lo de fascista não vai mudar em nada o pensamento dele. Pelo contrário: vai fazer com que a pessoa se apegue ainda mais a aquele pensamento, afinal “se eu estou sendo perseguido por esse estabilishment que ferrou a minha vida então essa solução que o Bolsonaro propõe deve ser boa”.

Queremos mesmo acabar com a elevância política do Bolsonaro? Vamos oferecer soluções. Vamos tentar superar o paradigma atual com soluções estruturais. Se não dá pra acabar com a financeirização do capitalismo, vamos criar um movimento global para que ela seja regulada e taxada de forma a financiar os mais pobres. Isso nem é ideia nova: é a Tobin Tax, proposta em 1981 pelo economista ganhador do Prêmio Nobel James Tobin. Existe até um movimento internacional pela implantação da Taxa Tobin, encabeçado pela ATTAC (Associação pela Taxação das Transações Financeiras e Auxílio aos Cidadãos). Soa muito mais realizável do que propostas como “dar o calote da dívida pública”, que, além de tudo, contam com zero apelo junto a essa população desalentada aí.

Mas, antes de qualquer coisa, também é necessário romper com o paradigma “se não tem renda não come”, transformado em “se não trabalha não come” atualmente. Na sociedade do futuro não teremos emprego para todo mundo 8 horas por dia, e isso será comum a países ricos e pobres. O pós capitalismo precisa romper com os pressupostos básicos do capitalismo: a centralidade do trabalho como gerador de renda é o principal deles. É preciso construir modelos pensando nisso e comunicá-los de forma que eles pareçam plausíveis, pra restaurar a esperança das pessoas.

A automação é uma realidade, está se inserindo em todas as áreas do processo produtivo, e o discurso progressista nesse sentido precisa ser não em impedir que a automação “roube empregos”, mas em pregar a libertação da lógica capitalista do trabalho: precisamos fomentar nas pessoas a percepção de que, se distribuirmos as riquezas que produzimos, é possível trabalhar menos, é possível ter mais tempo para ser criativo, é possível até mesmo não trabalhar e gastar todo o tempo pensando em como tornar a humanidade melhor. É um dos poucos momentos da história da humanidade em que esse discurso realmente é possível.

Enquanto a gente não restaurar a esperança das pessoas e ficar só denunciando e ridicularizando fascismo, o discurso reacionário só vai ganhar terreno e quem é progressista continuará sendo visto como gente blasé que não enxerga “a realidade da sociedade”, afinal não há uma proposição de soluções imediatas para quem não tem esperança nenhuma. (E quem não tem esperança não enxerga nada além de si mesmo)

É por isso, inclusive, que soluções imediatas sao necessárias para o discurso progressista, juntamente com as soluções estruturais. E, nesse contexto, aí sim a idéia de uma renda universal faz sentido. Mas sempre com a ideia de desvinculá-la do trabalho, para quebrar o paradigma capitalista de que “não pode dar o peixe, precisa ensinar a pescar”, que basicamente é uma outra forma de externalizar o “quem não trabalha não merece comer, tão caro ao capitalismo”.

Como sociedade, produzimos riqueza demais para não dar o peixe a quem precisa. O PIB Mundial em 2017 foi de US$ 84,37 trilhões, de acordo com o FMI. Isso dá mais de US$ 10 mil per capita. Se a riqueza do mundo fosse melhor distribuída, todos os habitantes do mundo poderiam viver com a renda mensal de um brasileiro médio (nosso PIB per capita também gira em torno de US$ 10 mil ao ano por pessoa, de acordo com o FMI). Não vai acontecer, óbvio, mas é bom para compreender que ao menos as necessidades básicas de toda a população (alimentação, água, moradia, vestuário, educação, saúde, segurança) nós deveríamos estar suprindo. E falhamos miseravelmente nisso, afinal vivemos em um mundo em que 815 milhões de pessoas (mais de 10% da população mundial) passam fome, de acordo com o último relatório da FAO.

Enfim, a construção de uma sociedade melhor envolve um processo contínuo, um esforço coletivo com esse propósito, a união de forcas das pessoas bem intencionadas, unidas apesar de suas diferenças. Ninguém faz isso sozinho. É preciso ser movido por um profundo sentimento de empatia. Como a que foi demonstrada por um monte de gente, em diversos lugares do Brasil e do exterior, após o assassinato da vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes.

Manifestação no Rio de Janeiro em homenagem a Marielle Franco e Anderson Gomes, assassinados na quarta-feira (Fonte: G1/Globo)

Não importa que tenhamos um monte de diferenças. Precisamos de fato acreditar que o caminho para um outro mundo é possível e está adiante de nós, pronto para ser construído. É essa a nossa missão agora.

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