A Vida é como a Ciência

Sabe aquela citação boba de que “insanidade é fazer as mesmas coisas esperando resultados diferentes”? Não, não é do Einstein. E só é um senso comum bobo. Mesmo porque é possível sim fazer as mesmas coisas e obter resultados diferentes em muitos ramos da ciência, mas esse não é o assunto aqui.

Mas eu queria dizer que a vida é como a ciência. Porque, na ciência, a coisa funciona mais ou menos assim: nós nos deparamos com um problema e verificamos de todas as fontes possíveis se ele já tem uma solução comprovada. Na maioria das vezes, mesmo com toda a pesquisa já realizada na história da humanidade, ele não tem. Daí, o que nós devemos fazer: ter a humildade de compreender a nossa incapacidade atual, para conseguirmos nos debruçar sobre o problema até resolvê-lo, ao invés de insistirmos em soluções erradas como se elas fossem corretas.

É exatamente isso que as pessoas fazem cada vez menos. Se isso fosse um problema só dos comentaristas de Internet, estaríamos bem. Mas isso é um problema dos governos, cada vez mais. É o que nos mostra a ação da PM paulista na manifestação do MPL ontem, explodindo uma bomba a cada 7 segundos. E isso não é uma exceção. Estratégia semelhante já foi feita para inibir as manifestações de estudantes no final do ano passado, e essa mesma truculência acabou servindo como estopim para as manifestações de 2013, que não deram em nada e abriram a Caixa de Pandora do chorume no país, mas que só existiram porque policiais bateram a esmo em manifestantes e jornalistas na histórica manifestação de 13 de junho, que subiu a Consolação sob bombas e balas de borracha até a Avenida Paulista.

É daí que percebemos que não há uma análise científica da situação. Ou pior: até há, mas a lógica é subvertida porque quem promove a barbárie sabe que não vai pagar por ela. Não há nenhum esforço em resolver o problema da truculência: pelo contrário, os esquemas armados pela PM paulista para as manifestações que incomodam o governo Alckmin lembram as repressões policiais vistas nos últimos anos em países como Ucrânia e Turquia. Só falta os policiais trocarem as balas de borracha por balas de verdade (e isso pode acontecer qualquer dia, como ocorreu sem aviso prévio nesses países)

Mas Alckmin não pagará por isso. Não pagou em 2013. Teve órgão de imprensa (Época) dizendo que ele foi o único que “entendeu as ruas”. E nisso eu concordo, apesar do enfoque da reportagem puxa-saco da Época ser outro. Ele entendeu perfeitamente como manipular as ruas. Ele sabe que as pessoas não sabem separar os entes federativos, especialmente em um lugar que se julga tão autossuficiente como São Paulo. Daí ele reprime, a culpa pelo aumento das passagens cai no colo do Haddad (apesar do Metrô ter subido também) e a culpa pela situação econômica do país cai no colo da Dilma. Alckmin entende as ruas e sabe perfeitamente usar a ignorância da população, que ele mesmo ajuda a promover com sua educação porca, a seu favor.

A vida deveria ser como a ciência. Deveríamos nos debruçar humildemente e pensar a cada dia onde erramos. Qual foi a espiral de erros que nos levou a essa situação. Deveríamos analisar desapaixonadamente cada solução possível, dando prioridade sempre às que promovem a equidade, porque uma sociedade baseada em relações de opressão é uma sociedade que só vai acabar gerando mais e mais conflitos. Mas a PM paulista segue não só fazendo deliberadamente a coisa errada, mas se aprofundando nisso e dispondo de toda a força bruta e o aparato tecnológico dado pelo governo para errar com mais e mais excelência. Falta humildade.

Tem uma piada muito ruim que fala de um concurso de polícias. Já vi variações com a ROTA e o BOPE. Vou usar a ROTA aqui:

Houve um concurso pra decidir qual era a melhor polícia do mundo, entre a SWAT, a Scotland Yard e a ROTA. Os julgadores jogaram um coelho na selva e quem o capturasse em menos tempo ganhava.

A Scotland Yard capturou o coelho em 10 minutos com todo o aparato tecnológico possível.

A SWAT usou até helicópteros e trouxe o coelho em nove minutos.

A ROTA chegou com um porco em dois minutos, quase enforcado pelo policial, e daí os julgadores perguntaram:

“Não era pra pegar um coelho?”

E o porco respondeu:

“Eu sou um coelho, eu juro que sou um coelho”.

É exatamente assim que tem funcionado a PM paulista. Não só a PM. Não só em São Paulo. A ideia de não ter a humildade de admitir erros e de se debruçar atrás de soluções é comum a um monte de governos. Mas o exemplo da PM paulista é o que grita nos nossos tímpanos e fere nossas retinas atualmente.

Até quando a gente vai fingir que o porco é coelho, ao invés de tentar solucionar os problemas em sua raiz?

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