A Internet e o Direito à Ausência

A Internet é uma dessas inovações tecnológicas que mudaram o mundo irremediavelmente, catalisando relações já existentes através de novas ferramenta e criando novas relações, que seriam completamente inviáveis de outra forma. Isso é fantástico, e mudou a vida de um monte de gente mundo afora.

Só que isso trouxe à tona dois vícios latentes, transformados em obsessões por uma multidão de gente: o vício em informação, já praticado anteriormente de outras formas (a maioria do pessoal mais novo hoje não conhece termos como “rato de biblioteca”, comuns à minha geração), e o vício em interação, também praticado de outras formas (todo mundo teve um parente que ficava horas no telefone quando era adolescente). Hoje, a informação está a uma pesquisa no Google de distância, enquanto a interação se codifica como notificação nas redes sociais.

Esse novo perfil nos tornou mais imediatistas. Sabemos tudo o que aconteceu nas últimas 24 horas, mas nunca paramos para analisar a importância daquilo no contexto do último ano, da última década ou da última geração. Nossa vida cotidiana parece descolada de toda a história que a precedeu, e o momento presente é o grande totem, venerado no melhor estilo arcadista: vivemos diariamente a ideia do carpe diem, exaltamos em fotos nas redes sociais a felicidade associada ao fugere urbem e ao locus amoenus, condenamos os excessos cometidos pelos outros no melhor estilo inutilia truncat.

Tudo isso remete ao estado de fingimento poético dos ícones do arcadismo. Eles eram burgueses e viviam nas maiores cidades da época, mas imaginavam um cenário idílico de felicidade plena e o transformavam em um ideal de vida que quase nunca era levado à cabo. Exatamente como nós fazemos nas redes sociais. Há quase 3 mil anos Salomão já dizia que todas essas coisas eram vaidade.

Mas há uma outra questão aí: os vícios em informação e em interação nas redes sociais não são separados, mas complementares: enquanto um representa a macrohistória sendo escrita diante de nossos olhos, outro representa a microhistória, o cotidiano interno às redes sociais, a formação e a fluidez dessas redes internas de relacionamento. São duas facetas da mesma questão, e quanto menos importância intrínseca a informação tem, mais ela está vinculada à rede de relacionamentos construída nessas redes sociais. Porque se a informação não é importante para todo mundo, ela tem, de alguma forma, que ser importante para você. Se fôssemos responder a pergunta “você vai compartilhar essa informação?” com um gráfico, ele seria mais ou menos assim:


Acima da linha azul, é quando você considera a informação relevante para ser compartilhada. Abaixo, é quando você não considera relevante. Repare que “relevância intrínseca da informação” e “importância da informação para sua rede de relacionamentos” são coisas totalmente fluidas e quase indefiníveis objetivamente. E tem um outro fator aí: uma informação de importância inrínseca tende a ser espalhada muito mais rapidamente do que uma informação que diz respeito só à você. Então, essa curva também se aplica à temporalidade da informação: quanto mais pessoal a informação, menor é a quantidade de pessoas que compartilharão, e menos a importância da velocidade como premissa básica (uma vez que a novidade é importante pra caramba quando falamos de compartilhamento de informação)

Isso ajuda a explicar porque o vício na interação é mais grave que o vício de obter informações (e compartilhá-las, eventualmente): a interação evidencia uma relação quase sempre pessoal, em que você está em evidência. Quando chega uma notificação basicamente quer dizer que alguém se importa com você ou com algo que você disse. É normal que isso seja viciante. Mas não é necessariamente bom.

O vício em interação evidencia nossa ânsia pelo imediatismo, nossa incapacidade de olhar em perspectiva e ajuda a formar uma legião de pessoas que depende dessas interações contínuas para se manter em um estado permanentemente catártico, como se tivesse usado um entorpecente. É por isso que devemos levar mais a sério o estudo que diz que Internet pode viciar mais do que algumas drogas e também os vários estudos que dizem que redes sociais como o Facebook causam depressão. Porque estamos falando de uma expectativa de afirmação através de interações que em boa parte das vezes é frustrada ou nos revela facetas que não gostaríamos de conhecer das pessoas.

Mas há um outro lado aí: a maioria das pessoas não consegue olhar as pessoas por um ponto de vista que não seja o seu, e esse não é um problema da Internet — é da humanidade. É muito difícil trabalhar a alteridade como conceito, ter empatia pelos outros e tentar compreender as razões de cada atitude. E parte expressiva das pessoas já não conhece mais os limites entre a vida dentro e fora da Internet — aliás, essa separação entre online e offline tende até mesmo a se extinguir, depois que a expansão massiva dos smartphones e das conexões 3G e 4G tornaram a conexão de Internet algo quase onipresente.

Essa onipresença nos coloca em um estado permanente de “suspensão”. O mesmo estado de suspensão em que foram colocadas as nossas amizades depois das redes sociais: você reencontra os amigos antigos, sabe que eles estarão sempre ali, mas nunca mais retoma as conversas com eles. Por preguiça, por falta de tempo, por ver que as afinidades já não são mais as mesmas. Não importa o motivo, mas o fato é que em boa parte das vezes era melhor nem ter retomado o contato. Tá aí mais um efeito desse vício em informação e em interação: nós não deixamos mais as coisas e as pessoas irem embora.

Mas é um pouco pior: não são só as amizades antigas que não vão mais embora. O fato de estarmos online, de alguma forma, vinte e quatro horas por dias, faz com que as pessoas achem que nós temos o dever de respondê-las sempre. Mandam notificação no Twitter, no Facebook, no WhatsApp, no Telegram ou em qualquer outro aplicativo/rede social à qualquer hora. Porque você estará lá, a sua vida está em estado de suspensão aguardando a bendita notificação. Não, não está. A ausência é um direito. Cortar relações é um direito. E nada é mais insuportável do que lidar com mensagens indesejadas de gente que não respeita suas férias, seu sono ou seus afazeres, e acha que nada é mais importante que a vontade de falar amenidades com você.

Eu sei que sair é encarado como uma postura antissocial. Que minha timidez, e só agora falo de mim, em específico, acaba estragando a maioria das minhas relações, que em boa parte dos momentos eu prefiro ficar sozinho, que eu ainda tento guardar momentos “offline”. Mas eu tento olhar sob o viés de quem fica tentando entrar em contato o tempo todo, sempre nas situações mais inconvenientes, entendo que a pessoa não saiba mais separar online e offline e penso no que nos tornamos como sociedade. Se esse estado de suspensão permanente é bom ou sustentável. Se ficar ausente não é saudável para retomar o fôlego, buscar novos horizontes e até mesmo voltar a praticar velhos hábitos, como o de ser um “rato de biblioteca”.

Mais do que isso: às vezes, guardar um tempo fora nos previne dos vícios de nos informarmos e de interagirmos. É mesmo necessário? O tempo todo? Existe alguma informação importante o suficiente para que você não possa lê-la com mais calma depois? Existe alguma interação que não possa ser feita depois?

O tempo é uma sequência de eventos, e a impressão é que queremos colocar uma quantidade cada vez maior de eventos em uma quantidade cada vez menor de tempo justamente porque estamos frustrados em não conseguir fazer isso de fato. Porque vivemos um fingimento poético, à exemplo dos poetas arcadistas, e pregamos aquilo que não fazemos. Porque pensamos apenas em nós mesmos. Na informação que nós captamos. Em como podemos usar a nossa rede de relações para conseguir algo. Em como podemos ter algo, e não ser alguém com base em nossas relações e vivências.

Talvez a ausência não seja a melhor resposta pro vício em informação e em interação. Talvez seja só uma forma de sair desse estado de suspensão que acaba consumindo todos nós, fazendo com que não consigamos mais distinguir trabalho e descanso, amizade e negócio, prazer e obrigação. Mas fica aqui a recomendação: programe-se pra ficar totalmente fora da Internet por algum tempo, acesse em horários determinados, não deixe o fluxo de informação e as teias de relações exercerem domínio sobre você. Porque esse estado de suspensão em que ficamos o tempo todo conectados é a melhor forma de perder o dia tentando aproveitar o dia: ficamos estressados, ansiosos, perdemos a espontaneidade da vida, deixamos de fazer coisas legais com as pessoas que amamos.

Não vale a pena. Nunca vai valer.

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