Umas dicas despretensiosas de como lidar com pessoas desprovidas de autoestima

Falar de autoestima é sempre algo complicado. É complicado porque é algo muito pessoal e as pessoas, via de regra, não gostam de se expor pessoalmente a não ser que seja para ganharem confete. É complicado, também, porque cada pessoa tem uma história de vida e essas histórias de vida são cheias de marcas e de coisas que envergonham.

Além disso, cabe um esclarecimento: não sou psicólogo, terapeuta, e nem me pretendo nada disso. Esse é um texto feito por um leigo para outros leigos, baseado exclusivamente nas minhas experiências pessoais. Que são minhas, e de mais ninguém. Então pode ser que as coisas úteis pra mim sejam úteis para você também. Ou não.


E qual é a minha experiência? Bem, quando eu era criança sempre fui aquele sujeito “orgulho da família”. Aprendi a contar cedo, aprendi a ler cedo, sempre fui um dos melhores da turma, essas palhaçadas todas que pais costumam falar para os parentes distantes que vem visitar no Natal só pra falar “olha, meu filho é melhor que o seu”. Grande porcaria.

Bem, daí os problemas começaram. Como “orgulho da família”, as pessoas passaram a colocar expectativas em mim. E isso foi tão internalizado que eu passei a me cobrar de forma quase doentia. Óbvio que isso gerou frustração. Pra piorar, eu comecei a comer pra caramba e engordar ainda criança. Na adolescência, obeso e me cobrando alucinadamente, eu simplesmente não conseguia lidar com a rejeição. Travava. Entrava em pane. Eu me odiava, e tentava fugir do estereótipo de CDF (vulgo “cabeça de ferro”, o sujeito estudioso e introspectivo que também era chamado de nerd antes desse termo ser sequestrado por gente que passa o tempo todo discutindo se Marvel é melhor que DC). Além disso, sofria bullying, e tentava responder de qualquer forma possível. Entre a 6ª e a 8ª série, foram raras as semanas em que eu não briguei pelo menos uma vez na saída da escola. Apanhei na maioria das vezes, mas nunca fugi.

Pra piorar, foi nessa época que eu comecei a me interessar sexualmente pelas mulheres. Foi um fracasso total e retumbante. Minha baixa autoestima simplesmente me impedia de tentar qualquer coisa. Nas poucas vezes em que eu tentava, era um esforço tão absurdo pra sair qualquer palavra que a menina obviamente não entendia nada ou recusava achando que eu era louco.

Óbvio que deu merda. Eu passei boa parte da minha juventude numa espiral de autodestruição regada a um monte de coisa (nem cabe ficar falando aqui, esse texto não é para vocês terem pena de mim, não é nenhuma “história de superação”). Minhas relações sociais eram superficiais e eu simplesmente travava na frente de desconhecidos. Eu soube, por um bom tempo, o que era viver totalmente desprovido de autoestima. E sei que tem muita gente que vive assim por aí.

Eu melhorei? Mais ou menos. Minha baixa autoestima ainda me atrapalha em um monte de coisas. Um exemplo? Eu não consigo fazer um bom currículo nos Linkedin’s da vida porque eu NÃO SEI EXALTAR MINHAS QUALIDADES. Eu devo tê-las, óbvio, mas eu não consigo reconhecê-las e aprimorá-las. É horrível. Eu tenho a plena consciência de que eu não confio em mim mesmo. E de que, por mais que eu me esforce em mudar isso, parece haver uma venda nos meus olhos me impedindo de enxergar o que eu tenho e faço de bom.

Por saber que tem mais gente por aí machucado pela vida, totalmente desprovido de autoestima, eu acho bom dar uns toques, pra que você, que está com a autoestima em dia, ajude a todos aqueles de quem você gosta, mas que não conseguem gostar de si mesmos:

1.SEJA CLARO

Eu fiquei com pouquíssimas meninas na minha adolescência e juventude e só fui ter um relacionamento amoroso sério com a minha esposa. Por que isso ocorria? Porque eu me achava uma pessoa tão horrível que eu considerava que as pessoas eram incapazes de gostar de mim. Daí eu NÃO PERCEBIA quando alguma menina flertava comigo. E, se percebia, o primeiro pensamento era “ela tá me zoando”.

As coisas seriam bem mais legais se, nessa época, as pessoas fossem claras e diretas. Óbvio, não dá pra cobrar isso de ninguém, mas se você gosta de uma pessoa, DIGA. Deixe claro que você não está zoando. Não tenha nenhum receio de elogiar.

2. NÃO TRATE TIMIDEZ COMO ARROGÂNCIA

Isso obviamente não acontece com todo mundo, mas a falta de autoestima me deixava tímido. Daí, meu convívio social era assim:

  • Eu não conseguia cumprimentar as pessoas ou olhar no olho delas por ser tímido
  • As pessoas achavam que isso era um sinal de arrogância
  • As pessoas se afastavam de mim
  • Eu ficava mas tímido ainda
  • Eu não conseguia cumprimentar as pessoas…

Entenderam? Por isso eu sempre achei uma enorme bobeira aquelas pessoas que se ofendem com gente que “não cumprimenta todo mundo a todo tempo”. Pode ser má educação? Sim, pode. Mas na maioria das vezes e timidez. E, em algumas delas, é baixa autoestima.

Então, se você está bem, está feliz, não tem grandes questões pendentes e é mais extrovertido, VÁ VOCÊ cumprimentar. Demonstre interesse sincero pela pessoa. Pode acontecer duas coisas: você pode encontrar uma pessoa arrogante (mas isso é raro, em geral gente arrogante é mais extrovertida ou demonstra empáfia de cara) ou você pode acabar conhecendo melhor alguém que é mais reservado. E melhor: pode, no limite, dar um pouco de alegria pra pessoas que não se curtem muito.

E, acredite: a gente valoriza demais isso. Tem abordagem de desconhecido de quando eu tinha uns18 anos que eu lembro até hoje, que me fez ganhar a semana, apesar de eu não ter falado com a pessoa nunca mais.

3. NÃO ESPERE ELOGIOS, E NÃO DESISTA

Quando você não gosta de você mesmo, seja por qual motivo for, você tende a se fechar em você mesmo. Daí, sua percepção do mundo fica totalmente prejudicada. É como eu já comentei: se as manifestações de afeto do mundo ao redor não forem muito claras, elas não serão percebidas. Então, é bom não esperar elogios de gente com baixa autoestima. Você vai se decepcionar.

Mas, por favor, por favor mesmo, insista. Não desista, PLMDDS. Que, se você insistir, você terá algo muito mais legal que um elogio: terá a confiança. A gratidão. Porque é difícil conquistar a confiança de alguém que não gosta de si mesmo, mas quando você consegue, acontece algo fantástico: essa pessoa passa a gostar mais de si mesma POR SUA CAUSA. E não tem nada melhor que isso.

4. NÃO FAÇA COBRANÇAS

Tudo o que uma pessoa com baixa autoestima NÃO PRECISA é de cobranças. Não faça questionamentos difíceis, estilo “por que você não se importa comigo?”. Saiba, em geral a gente se importa sim. Mas a gente não sabe como demonstrar isso. A gente tem uma dificuldade imensa de demonstrar amor pelos outros porque a gente não consegue sentir isso por nós mesmos. É uma bosta. Dá um desconto, por favor.

5. FAÇA ELOGIOS SINCEROS, A GENTE SABE QUANDO O ELOGIO É VAZIO

Um elogio vazio é mais prejudicial do que uma crítica. Mas um elogio sincero muda o mundo. Sério mesmo. Gente com baixa autoestima valoriza coisas pequenas, aleatórias e sinceras, em geral. Elogios sinceros quebram o gelo. Elogios vazios dão a certeza de que a pessoa só está cumprindo, com má vontade, um protocolo social.

CONCLUSÃO

Gente com baixa autoestima não gosta de ter baixa autoestima. E se condena por isso. Então, por favor, antes de mais nada nos desculpem se somos chatos e de difícil trato social. Todo mundo é fruto de suas experiências de vida, e algumas dessas experiências deixaram marcas ruins, que nos prejudicam até hoje. Só entenda uma última coisa: nós não precisamos da pena de ninguém. Somos pessoas ótimas, capazes, sensacionais. A única diferença é que nós precisamos constantemente que alguém nos lembre disso.

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