A Sociedade Brasileira quer entender os evangélicos, mas os evangélicos precisam ajudar nisso

Os últimos dias viram um acirramento dos ânimos entre “evangélicos” (isso mesmo, como uma massa homogênea e disforme) e a sociedade brasileira em geral. Não se enganem: a questão aqui tem menos a ver propriamente com o movimento LGBT ou com outras minorias e mais a ver com os próprios evangélicos enquanto estrato social com forte representação no Congresso Nacional — incluindo o presidente da Câmara, Eduardo Cunha.

A frase anterior foi organizada de forma generalizante em relação aos evangélicos, como é fácil perceber. Como se todos os evangélicos fossem iguais e aprovassem o modus operandi de líderes que dispõem da representação política e da mídia como trunfos, tais como Eduardo Cunha (que, além de Presidente da Câmara, é dono de rádios evangélicas do Rio de Janeiro), Marco Feliciano e Silas Malafaia, ente outros.

Só nas últimas semanas, tivemos:

E tem mais coisa. Mas não cabe colar aqui, o objetivo desses links é só demonstrar como o assunto “evangélicos” está em evidência, como as pessoas querem de fato interagir com esse grupo “homogêneo e disforme” que é visto por muitos como um corpo estranho dentro da sociedade brasileira.

Mas a verdade é um pouco menos conveniente: os evangélicos são um grupo extremamente heterogêneo. É impossível dar conta de toda essa diversidade em algumas linhas, mas é preciso tentar. E fazer uma análise do movimento evangélico brasileiro sob o viés histórico.

A maioria das igrejas evangélicas tradicionais chegou ao Brasil no século XIX. Nesse cenário, incluem-se os luteranos, metodistas e presbiterianos. Essas igrejas, inspiradas em ícones do protestantismo como Martinho Lutero, John Wesley e João Calvino. Essas igrejas tinham como estratégia uma forte integração na sociedade através do ensino (laico e bíblico). Prova disso foi a fundação da Universidade Presbiteriana Mackenzie, em 1870, em São Paulo, e do surgimento posterior de institutos de ensino luteranos, metodistas e batistas pelo país.

Para entender a importância que essas igrejas dão ao componente histórico: até pouco tempo atrás, igrejas como a Presbiteriana do Brasil, de orientação calvinista, comemoravam datas como a Proclamação da República em seus calendários oficiais. Tinham hinos agradecendo pelo Brasil e pela Proclamação da República em seus hinários. O motivo? A Proclamação da República ocasionou a Constituição de 1891, a primeira Constituição da História do Brasil em que há o reconhecimento do Estado Laico.

Esse reconhecimento foi fundamental para que as igrejas e missionários de orientação protestante parassem de ser perseguidos pelo status quo católico da época. E “perseguição”, na época, tinha um caráter bem diferente de hoje: na época, era comum ver dioceses pedindo para o poder público local impedir a instalação de igrejas protestantes, especialmente em cidades menores. Se isso não ocorria, líderes políticos locais ligados à Igreja Católica por vezes confiscavam os locais em que igrejas protestantes estavam instaladas, para dificultar o seu funcionamento.

Isso ajuda a explicar porque até hoje os protestantes brasileiros tem forte tradição de se reunir para cultos nos lares dos membros da igreja, além das reuniões tradicionais no templo. Nessa época, era uma forma de continuar exercendo a fé religiosa em meio a um cenário de repressão institucional.

Em um segundo momento, surgiram as igrejas pentecostais. No Brasil, a primeira delas foi a Assembléia de Deus, inaugurada por Gunnar Vingren e Daniel Berg em 1911. Sob inspiração do reavivamento da Rua Azusa, Berg e Vingren, missionários que atuavam anteriormente em Igrejas Batistas norte-americanas, montaram um conceito de igreja que suprimiu um pouco o foco no estudo bíblico contínuo e intensivo em nome da priorização às manifestações sobrenaturais do Espírito Santo, tais como a glossolalia (falar em línguas estranhas) e a revelação de profecias. Uma das passagens bíblicas norteadoras do movimento pentecostal é a das instruções de Jesus, já morto e ressuscitado, em Marcos 16:17–18:

“Estes sinais acompanharão os que crerem: em meu nome expulsarão demônios; falarão novas línguas; pegarão em serpentes; e, se beberem algum veneno mortal, não lhes fará mal nenhum; imporão as mãos sobre os doentes, e estes ficarão curados”

Com a industrialização e a urbanização do país, surgiram, nas décadas de 50 e 60, as chamadas “igrejas pentecostais de segunda geração”: Igreja do Evangelho Quadrangular, Igreja Brasil Para Cristo e Igreja Evangélica Deus é Amor, dentre outras. Essas igrejas seguiam pressupostos parecidos com os da Assembléia de Deus, com diferenças na roupagem e nas priorizações de cada uma.

Nessas duas fases do pentecostalismo brasileiro, há algo bem notório: a menção de que “o espiritual é suficiente”, que produziu um certo isolamento dessas igrejas em relação aos temas relevantes da sociedade. A noção fomentada nessas igrejas basicamente é a de que “o mundo jaz no maligno” (1 Jo 5:19), e, portanto, deve ser ignorado. Só há salvação na espiritualidade, e a manifestação dos dons do Espírito Santo (glossolalia, cura, revelação profética, etc…) é um sinal de que você é salvo.

Nesse período, também havia outro fato relevante: os regimes repressivos da época, no contexto da Guerra Fria, colaboraram no crescimento de uma militância político-religiosa combativa de forte cunho social, de natureza católica e protestante, expressa em movimentos teológicos como a Teologia da Libertação e a Teologia de Missão Integral — que surgiu como um movimento protestante de natureza interdenominacional, reunindo estudiosos da Bíblia de diversas igrejas, mais tradicionais que pentecostais.

Todo esse contexto ajuda a explicar o pouco envolvimento das igrejas pentecostais nos questionamentos políticos durante o regime militar. Mais do que isso: ajudam a explicar como, no final da década de 70, em um regime fechado, surgiram as “igrejas pentecostais de terceira geração”, também chamadas de “neopentecostais”. Elas surgem não apenas como fruto de uma teologia isolacionista, com foco na salvação do indivíduo em um mundo caótico, mas também como resposta a movimentos religiosos de forte cunho social que cresciam em toda a América Latina.

No caso da Teologia da Libertação, em específico, o movimento foi sufocado pela repressão da própria igreja católica. Teólogos como Leonardo Boff terminaram excomungados pelo Vaticano, e os líderes episcopais do país foram aconselhados pessoalmente por João Paulo II (e pelo Cardeal Ratzinger, que depois se tornaria o Papa Bento XVI), a desincentivar as práticas desses teólogos. O cenário mudou após a eleição do Cardeal Bergoglio como Papa Francisco, em 2013, mas esse não é o assunto desse texto.

Se o sufocamento foi formal no caso da Igreja Católica, no caso dos evangélicos a estratégia foi outra, informal: o sufocamento progressivo, pelo “rolo compressor” das igrejas neopentecostais. E como funcionam essas igrejas neopentecostais?

O neopentecostalismo nasceu com algumas bases teológicas próprias, que diferenciou esse modelo de igreja dos modelos já consolidados anteriormente no país. Elas são:

  • O uso do espiritualismo sobrenatural característico dos pentecostais e do isolacionismo social característico desse modelo eclesiástico.
  • Uma abordagem específica do conceito calvinista de “ascese espiritual”. O conceito de ascese espiritual diz respeito à privação de prazeres e coisas carnais com o objetivo da obtenção de um estado espiritual mais elevado, de uma proximidade com Deus. Max Weber mostra, em A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, como esse conceito ajudou no florescimento do capitalismo após a Revolução Industrial: o sucesso profissional das pessoas que se privavam de certos prazeres e trabalhavam diligentemente ajudaria a provar a “superioridade moral” dessas pessoas. É um discurso tão atual que passou a ser utilizado pelas igrejas neopentecostais como forma de arregimentar membros.
  • A Teologia da Prosperidade, originada na década de 1950 entre os televangelistas americanos, como forma de justificar que a bênção financeira é o desejo de Deus para os cristãos, e que a vida cristã se faz em três pilares: a fé, o discurso positivo e as doações para a expansão dos ministérios. A idéia exposta por Calvino de que “o sucesso prova a superioridade moral” passa a ser não só individual, mas também institucional.
  • As estratégias para esse plano de expansão: reinvestimento massivo no negócio. As igrejas passam a ter uma abordagem empresarial e expansionista, com forte investimento em exposição na mídia e em expansão física dos templos. Os templos precisam ser enormes e megalômanos — isso é uma demonstração de sucesso. E o discurso dessas igrejas é o de que o sucesso institucional pode proporcionar, também, o sucesso individual a quem se filia à igreja.

Esse modelo, que teologicamente é muito questionável, teve enorme sucesso. Igrejas compraram horários na TV e no rádio, construíram enormes redes e cativaram públicos fiéis. Lembrando sempre que a estrutura dessas igrejas está firmada no uso do espiritualismo e no isolacionismo em relação à sociedade. E daí os paradoxos desse modelo ficam notórios: para essas igrejas, a sociedade não é mais o meio em que a igreja se integra, mas um “território inimigo” em que você vai para “conquistar despojos”. O importante é usar a mídia para trazer o máximo de pessoas possíveis e retroalimentar a própria estratégia de marketing da igreja, que precisa demonstrar diariamente sua grandeza.

Essa estratégia obviamente não é sustentável em si mesma, e então o projeto expansionista dessas igrejas logo se transforma em um projeto de poder. Existe estratégia de marketing melhor do que obter o poder político por meio dos votos? E daí nasce o conceito de bancada evangélica: é a apropriação indevida do termo “evangélico” — que significa “aquele que traz boas novas” — por uma bancada utilizada para demonstrar o poder de um grupo social específico, que precisa se afirmar para o resto da sociedade como próspero.

Enquanto isso, onde estão aqueles movimentos evangélicos progressistas com forte cunho social? Sufocados, embaixo do rolo compressor das igrejas neopentecostais. Porque essas igrejas não produziram só uma mudança na forma como a sociedade vê as igrejas: elas também modificaram as próprias igrejas tradicionais e pentecostais. Como? Através da exposição exaustiva na mídia. Os cristão das igrejas tradicionais e pentecostais, além do convívio habitual na igreja, passaram a consumir produtos neopentecostais, dando audiência para rádios e TVs, comprando livros, CDs e camisetas.

Parece pouco, mas isso acontece continuamente desde a década de 80. A filosofia neopentecostal foi entrando em muitas igrejas tradicionais e pentecostais aos poucos, sem ninguém perceber. E isso começou a afetar a própria liturgia dos cultos: os louvores entoados passaram a ser de grupos como Renascer Praise e cantores como Cassiane, as pregações não podiam mais ser uma mera exposição da Bíblia, os pastores do rádio de da TV passaram a ser tratados como líderes inspiradores, e as pessoas cada vez mais acostumaram-se a ouvir promessas motivacionais que muitas vezes eram frutos de interpretações equivocadas da Bíblia.

E essas interpretações equivocadas da Bíblia, na maioria das vezes, nem eram fruto de má fé, mas do pouco conhecimento em Teologia mesmo. A expansão acelerada da religião evangélica no Brasil nos últimos 30 anos, impulsionada pelas igrejas neopentecostais, demandou um número enorme de pastores, bispos, missionários, dentre outras titulações eclesiásticas. A grande maioria deles, ingressou na “carreira” sem nunca ter feito um curso de Teologia. E isso porque o pastorado sempre foi visto nessas igrejas como uma vocação, e não como uma profissão. A pregação religiosa sempre foi vista como uma inspiração divina, como um momento em que a pessoa sobe em um púlpito e é tomada pelo Espírito Santo para falar aquilo “que Deus quer passar para a igreja”. O estudo exaustivo da Bíblia e dos teólogos sempre ficava em segundo plano, em nome dos objetivos imediatos: a expansão das igrejas e a prosperidade dos membros.

Enquanto os meios de comunicação por excelência eram a TV e o rádio, esse modelo funcionava muito bem. Com a popularização da Internet como instrumento de agregamento de ideias (e aqui estamos falando de algo que aconteceu, no máximo, nos últimos dez anos, e que cresceu exponencialmente com a introdução do smartphone como elemento que conecta continuamente às pessoas à rede), esse modelo começou a ter suas falhas expostas. Os evangélicos que estavam sufocados por esse rolo compressor começaram a se reorganizar, ainda que de forma tímida (o dinheiro, acreditem, faz muita diferença). Apesar disso, os resultados tem sido expressivos, como na campanha de grupos evangélicos contra a redução da maioridade penal


Por outro lado, as ideias desse grupo evangélico predominante, de natureza neopentecostal, começaram a ser expostas e discutidas pela sociedade. E contestadas, obviamente. Afinal, décadas de isolamento voluntário em relação à sociedade fizeram com que os evangélicos neopentecostais ignorassem a evolução das demandas sociais. As demandas que os neopentecostais defendem na mídia e no cenário político são janelas para o passado, para uma sociedade patriarcal, pré-industrial, e talvez por isso soem como anacrônicas para a maioria.

Só que a maioria dos evangélicos (e esse problema não é só dos neopentecostais, é bom dizer) não reage muito bem a contestações sociais. Com os neopentecostais isso é mais grave, porque, como já foi dito, eles veem a sociedade como “o território inimigo onde eles vão buscar despojos”, mas lembrem-se, todos os evangélicos acabaram influenciados, em maior ou menor grau, pela retórica neopentecostal. Daí, quando a sociedade questiona os evangélicos, a primeira reação da maioria é a de tratar a sociedade como inimigo, firmando o pé em suas crenças. Esse processo se repete diversas vezes. E, a cada reafirmação de crenças, o evangélico vai se afundando mais no atoleiro do fundamentalismo.

Qual é o remédio para isso? Existem duas atitudes que deveriam ser um tanto óbvias para os evangélicos, mas que foram esquecidas no caminho, dado todo esse contexto histórico:

  1. Retomar uma postura de integração com a sociedade, de abertura, de ajuda mútua. É óbvio que nesse processo muitos pensamentos terão que ser revistos, feridas serão que ser enxugadas e tratadas, mas, bem, é o procedimento cristão tratar e enxugar feridas: o próprio Jesus disse, com o exemplo do bom samaritano, que deveríamos tratar feridas, e não reabrí-las. Cabe até pedir perdão por muita coisa no processo. Porque a sociedade precisa conhecer de fato os evangélicos além daqueles que se dizem porta-vozes, como se “evangélico” fosse uma categoria única. Não é. Só interessa para a estratégia de marketing dos líderes neopentecostais continuar tratando a sociedade como “inimigo”. Um exemplo? Essa entrevista do Pastor Ed René Kévitz pra BBC Brasil.
  2. Retomar aquilo que deveria ser mais óbvio para um evangélico: o estudo da Bíblia como regra de fé e prática. As igrejas tradicionais acabaram sendo as menos influenciadas pelo tsunami neopentecostal, por um motivo bastante simples: elas sempre enfatizaram a necessidade de estudar exaustivamente a Bíblia para ter um procedimento cristão adequado. Para compreender as passagens dentro de um contexto. Para interagir com a sociedade de maneira amigável, amável, afinal, “amar o próximo como a ti mesmo” estabelece uma relação igualitária com qualquer pessoa que aparecer em sua vida.

A sociedade brasileira precisa muito entender os evangélicos. É necessário, para aplacar as tensões no tecido social do país. Só que o evangélico precisa ajudar nisso, e o primeiro movimento nesse sentido é acabar com essa impressão de que os evangélicos são um grupo “homogêneo e disforme”, manipulável na mão de algumas poucas lideranças com acesso quase irrestrito à mídia e às esferas de poder.

Finalmente, é necessário frisar uma coisa bem importante: esse fundamentalismo que toma a nossa sociedade não é só “evangélico”. É algo que atinge todos os setores da nossa sociedade, atualmente. E o papel do evangélico nesse contexto deveria ser justamente o de pacificador, que acalma os ânimos trazendo luz pro mundo e regando a sociedade com aqueles que são os verdadeiros frutos do Espírito, de acordo com a Bíblia: amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio. (Gl 5:22–23).

No Brasil, o evangélico tem trazido amor à sociedade? Tem trazido paz? Tem trazido alegria? Tem trazido bondade? Tem sido amável? Tem sido fiel? Tem sido manso? Tem tido domínio próprio?

Aparentemente, não. E isso, por si só, deveria ser motivo para todo evangélico (e eu me incluo nisso) repensar a sua atuação na sociedade, individual e coletivamente. Resgatando, quem sabe, aquele cunho social que ficou sufocado debaixo do rolo compressor que as igrejas neopentecostais impuseram para o protestantismo brasileiro nas últimas décadas.

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