Por que vocês têm preconceito contra carros chineses?

Chery Tiggo e Lifan X60 (Fonte: a Tarde — UOL)

Quando eu comentei com alguns amigos que queria comprar um carro chinês, alguns deles viraram a cara: “ah, mas o acabamento é ruim”, “não é confiável”, “não tem garantia”, e “pelo amor de Deus, carro chinês não” foram só algumas frases ouvidas por gente que se dizia apaixonada por carro e que dizia entender do tema.

Tinha vindo de uma experiência traumática. O meu carro anterior, de marca francesa (essas, apesar da fama de frágeis, tem superado o preconceito do público nacional, especialmente a Renault), apresentou inúmeros problemas desde quando eu comprei, mesmo tendo menos de 5 anos de fabricação e estando com as revisões em dia. Essas, inclusive, eram caríssimas, mesmo com o carro tendo o preço de um modelo popular. A impressão é que o carro era um sorvedouro de dinheiro.

Nós, brasileiros, temos uma relação bem afetiva com nossos carros. Eu mesmo já presenciei amigos chorarem muito ao venderem um carro “querido”, desses que marcam a vida. Por outro lado, quando associamos um carro a experiências negativas perdemos rapidamente o “tesão” nele, a ponto de querermos nos livrar da “bucha” na primeira oportunidade.

Essa relação afetiva do brasileiro com o carro ajuda a explicar o mercado automotivo no país, inclusive, e é algo tão notório e mensurável que é explorado pelas marcas que atuam no país. Reparem nas propagandas: os carros não são vendidos pela maioria das montadoras como algo útil para o cotidiano, mas como um elemento de realização. O “comprar um carro” é considerado um objetivo de vida em uma sociedade fortemente carrocêntrica, que investiu sem parar no modal rodoviário nos últimos 60 anos, bem como no desenvolvimento da indústria de automóveis internacional com montadoras instaladas no país.

No ABC paulista, região de onde eu venho e maior base da indústria automotiva nacional, essa percepção é ainda mais presente. Todo mundo tem um amigo ou parente metalúrgico no ABC. Eu mesmo cheguei a fazer estágio em montadora antes de me tornar um “comunistinha que faz Ciências Sociais” ou um “capitalista de humanas hipócrita pequeno burguês”, dependendo do ponto de vista.

Se o Brasil tem 200 milhões de técnicos de futebol, é lícito dizer que o ABC paulista tem 2,5 milhões de especialistas em carros. E esse monte de especialistas tem opiniões formadas e arraigadas por suas experiências ao volante, pelos relatos de amigos e por suas experiências de trabalho em montadoras, autopeças e outras empresas derivadas do setor petroquímico (de plásticos, por exemplo) ou metal-mecânicas. Como especialistas, essas pessoas criam preferências. Assim como o “torcedor de partido político”, também existe o “torcedor de montadora”. Gente que “só compra Volks”, que acha que “só GM é bom” e por aí vai.

Obviamente, quando um novo “player” surge no mercado, o primeiro sentimento é de resistência. Até o início do década de 90, a mercado automotivo nacional era dominado por 4 marcas: Volkswagen, FIAT, Ford e General Motors. A abertura de mercado na década de 90 foi seguida por um forte preconceito inicial contra as novas marcas que ingressaram no mercado nacional, notoriamente as coreanas e as francesas. Os carros japoneses, por sua vez, eram vistos como “bons, mas inacessíveis para a classe média”.

Os carros franceses vem tentando até hoje superar a impressão de fragilidade imprimida a eles na década de 90. A Renault teve bem mais sucesso que Citroën e Peugeot nessa empreitada, disputando nos últimos anos com a Hyundai a quinta posição entre as montadoras que mais vendem veículos no país, enquanto Citroën e Peugeot não aparecem nem entre as dez montadoras que vendem mais veículos por aqui (11ª e 12ª posições em 2014, respectivamente)

Os carros japoneses, por sua vez, não fazem tanta questão de parecerem acessíveis para a classe média. Toyota Etios e Nissan March são as exceções. Isso está dentro da estratégia das montadoras japonesas em oferecer um produto de excelência, como é característica dos veículos japoneses, para um público específico. Com essa estratégia, abocanham parcela significativa do mercado, especialmente entre consumidores de alto poder aquisitivo, que podem pagar mais de R$ 50 mil por um carro.

Os carros coreanos são um caso à parte. Quando chegaram ao Brasil, na década de 90, os carros da Kia e da Hyundai eram vistos como veículos de qualidade duvidosa, frequentemente associados às peruas e furgões que invadiram o país na mesma época para concorrer com a Kombi em mercados como o de transporte escolar. Como eles reverteram essa impressão negativa? Duas coisas foram essenciais: a reversão da sensação de insegurança, por meio de garantias estendidas, e a compreensão da natureza afetiva da relação do brasileiro com o seu carro. Hyundai e Kia começaram a vender seus veículos como sinônimo de status, explorando aquela sensação de “carro como elemento para a pessoa se sentir bem” tão comum às propagandas de veículos por aqui.

Nisso, a Hyundai foi muito mais agressiva e bem sucedida. Apesar de ter pagado mico com o Veloster, conseguiu sucesso com modelos como o I30, e, especialmente, com a HB20, que está posicionada entre os 5 veículos mais vendidos do país no momento. Uma confusão intencional da marca também ajudou a consolidar o sucesso: a Hyundai nunca faz menção de dizer que é coreana nas propagandas veiculadas no Brasil. Muitos proprietários de veículos acham que a Hyundai é japonesa. Isso também acontece com a Kia, em menor escala (ambas as empresas são no mesmo grupo — ou chaebol — hoje).

Reparem que essa estratégia das montadoras coreanas para conseguir a confiança do mercado é exatamente a mesma que as montadoras chinesas estão adotando, em escala menor. A JAC Motors dá seis anos de garantia para seus veículos. Lifan, Chery e Geely dão cinco anos. O que explica, então, o fracasso das montadoras chinesas no Brasil até o momento? Três fatores somados são preponderantes: vacilos próprios, sabotagem e preconceito.

Eu, pessoalmente, tinha uma impressão inicial positiva dos carros chineses, porque o primeiro deles que apareceu no país foi a Towner, da antiga Asia Motors, que depois de falir viu a marca ser comprada pela CN Auto (Hafei), e a Towner me traz ótimas lembranças: era o carro de churros por excelência. Além disso, pouca gente sabe, mas era o carro mais barato do país no meio/final dos anos 90: custava menos de R$ 10.000,00, algo totalmente maluco e impensável hoje.

Eu lembro até hoje que um parente distante da família tinha uma concessionária LADA no início da década de 90, e depois, com o fracasso dos russos no país, passou a vender utilitários como Towner e Topic. Eu ficava fascinado, no alto dos meus 13 anos, com a ideia de comprar uma Towner um dia. Afinal, além de tudo, cabiam sete pessoas no carro quando ele não estava configurado como barraca de churros ou hot dog. Mais que qualquer Fusca ou Chevette que meu pai teve (sim, éramos bem pobres na época)

Não dá pra isentar totalmente as montadoras chinesas pela rejeição aos veículos do país. Depois de entrarem no país com os utilitários, na década de 90, se aventuraram com os veículos de passeio de forma gradativa, à partir de 2007. Geely, Effa (com a operação comprada pela Lifan depois) e Chery entraram no país quase sem serem percebidas. Tudo mudou quando a JAC chegou no país, em 2011, com muita publicidade e altos investimentos, capitaneados por Sérgio Habib. A Chery aproveitou o embalo pra lançar sua linha de veículos populares (o QQ, em especial, que chegou a ser o “mais barato do país”). A Lifan veio com o 620 e o 320, que foi processado pela BMW por ser “imitação do Mini Cooper”.

Bem, aí começaram os problemas. A questão do design imitado, que afetou o Lifan 320, é recorrente em outros carros chineses. O próprio Chery QQ é considerado uma imitação de um modelo da Daewoo, o Matiz. Esse tipo de erro tirou, de cara, parte da credibilidade das montadoras chinesas no país. Além disso, os planos de expansão espalhafatosos de marcas como JAC e Chery tiveram resultados catastróficos: a estrutura de concessionárias não foi feita junto com uma estrutura de peças de reposição, e isso compromete qualquer esforço no sentido das marcas parecerem confiáveis para o grande público.

Para completar, carros como o Chery QQ e o Lifan 620, que foi descontinuado depois, além de todos os da primeira geração da JAC, tinham problemas seríssimos de acabamento e de estabilidade. O QQ era tão pouco confiável que dava a impressão de que o eixo do carro se contorcia a cada curva. Isso deixou uma impressão inicial muito ruim ainda em 2011, o ano em que mais foram vendidos carros chineses no Brasil.

Em 2012, entrou em cena o segundo fator que explica o insucesso dos carros chineses por aqui: a sabotagem. Por pressão das montadoras nacionais, que tinham medo de perder mercado para os carros sino-brasileiros, o governo Dilma aumentou substancialmente o imposto dos veículos produzidos fora do Mercosul: esses veículos passaram a ter um ágio de 30% ao entrarem no país. Com isso, os planos das montadoras chinesas de ganhar mercado no curto prazo foram para o espaço.

Cada montadora lidou de uma maneira diferente com o problema: a Chery acelerou seus planos de construir uma fábrica no Brasil e inaugurou a planta de Jacareí em agosto de 2014. A Lifan adquiriu a operação da planta da Effa em San Jose, no Uruguai, e produz veículos de passeio para o Brasil de lá, sem a necessidade de pagar IPI adicional por montá-lo em um país do Mercosul. Além disso, pretende construir uma planta no país em breve. A JAC Motors, que chegou com pompa, segue claudicante, encolhendo e com previsão de inaugurar sua fábrica em Camaçari em meados de 2016. A Geely Motors está um pouco atrás: quer construir uma fábrica no Brasil, mas ainda não foi além dos planos.

Além disso, as montadoras chinesas também lidaram com a questão da reposição de peças faltantes, tão dramática em 2011/2012. A Chery e a JAC refizeram todo o seu sistema de oficinas autorizadas e distribuição de peças. A Lifan, por sua vez, construiu um centro de distribuição gigantesco em Salto/SP, e garante a entrega de qualquer peça do carro em no máximo 24 horas em qualquer uma das oficinas autorizadas do país.

Os erros e a sabotagem se somam a um terceiro fator que fecha a conta da rejeição dos carros chineses produzidos no país: o preconceito. Na década de 90 montadoras francesas e coreanas também cometeram erros sérios ao tentarem se inserir no mercado nacional. Modelos importados como o Renault 19 ou o Twingo apresentavam muitos problemas para se adaptar às estradas e aos motoristas do país, assim como modelos antigos da Hyundai, como o Atos, o Elantra e o Accent. Com o tempo, essas marcas foram se adaptando e ganhando o respeito do mercado nacional.

Com as marcas chinesas, nota-se um processo parecido. As montadoras do país aprendem rápido com seus erros e desenvolvem carros melhores a cada ano. A última geração dos veículos Chery e JAC Motors já é bem melhor no acabamento e na estabilidade. A Lifan, por sua vez, refez toda a sua linha de veículos, livrando-se do estigma de “imitadora” que o modelo 320 lhe deu. Prova disso é que a SUV X60 é hoje o veículo chinês mais vendido no Brasil, e o sedã 530, lançado no final de 2014, tem um belo (e próprio) design.

O Lifan 530, lançado no final de 2014 (fonte: Ig Carros)

Mas todo esse processo de melhoria acaba ignorado quando os “especialistas em carro” criam um preconceito inicial e o solidificam no decorrer do tempo. Hoje, os carros chineses já parecem aceitáveis e parecidos com o restante do mercado mesmo no que eles eram bem pioreshá 2 ou 3 anos: o acabamento. O do Lifan 530, por exemplo, lembra a qualidade do acabamento de um Fiesta 0 Km que eu utilizei há menos de um ano. Ok, a Ford não é referência de acabamento para ninguém e os carros estão em categorias diferentes, mas isso mostra que a diferença entre os carros chineses e os carros das demais montadoras já não é tão grande assim.

Isso também escancara um outro dado, um pouco mais incômodo: as montadoras tradicionais, que são consideradas referência de qualidade no mercado, não tem tanta qualidade assim. É um dos benefícios da concorrência. Quando um novo “player” aparece, os demais precisam desqualificar o produto deles (algo que tem sido feito sistematicamente com os veículos chineses), melhorar o seu próprio produto ou simplesmente impedi-lo de entrar no mercado, como aconteceu com a promulgação da lei que aumentou o IPI dos veículos importados.

A questão é que, se os carros chineses saíssem todos hoje do Brasil, já teríamos que agradecer a eles: quando eles chegaram no país, introduziram uma mudança conceitual importante. Historicamente as montadoras tradicionais estão acostumadas a vender carros totalmente “pelados”, cobrando caro por itens opcionais que deveriam ser de série em qualquer veículo, como trio elétrico e câmera de ré, por exemplo.

Daí chegaram os carros chineses. E eles tem uma característica específica: neles, a maioria das coisas vendidas como opcionais pelas demais montadoras, acostumadas ao mercado brasileiro, são ítens de série. Para o padrão brasileiro, os preços são baixos para carros tão equipados. As versões mais simples de carros como o Chery Cielo, o JAC J3 Turin e o Lifan 530 já surgem “completas”, cheias de opcionais que não são encontrados nos veículos da maioria das montadoras que atuam na mesma faixa de preço.

Isso inibiu um pouco a ação das demais montadoras e abriu o olho de muitos clientes: para ter um carro completo, não é necessário pagar R$ 10 ou 15 mil a mais do que na versão mais simples. Isso é um truque das montadoras para maximizar seus lucros, em um mercado notoriamente fechado, como mostra a alíquota do IPI para veículos produzidos fora do Mercosul.

Isso é algo que confere uma identidade honesta aos veículos chineses. Se o carro francês é o que “carro tecnológico que quer provar que não é frágil para as estradas brasileiras” e o carro coreano é o “carro que quer status se pretendendo um veículo japonês”, o carro chinês pode ser definido como “o carro completo com preço bom e acabamento um pouco inferior”.

Além disso, há diferença entre as montadoras chinesas que atuam por aqui. Enquanto a Lifan oferece veículos mais robustos e está entrando no Brasil gradativamente, a Chery e a JAC tentaram entrar de sopetão, com foco no segmento popular, e perderam espaço para seus próprios erros e para o lobby das montadoras junto ao governo. Cada montadora tem sua própria história para contar, e tentar igualá-las faz tanto sentido quanto tentar igualar Renault, Citroën e Peugeout. Ou Mercedes e BMW.

O que eu quis dizer com esse texto imenso é que carros chineses são tão prestigiosos quanto os carros de qualquer montadora. Tem diferenciais positivos e negativos. Não deixe de testar ou de comprar um carro apenas “porque ele é chinês”. Os preços tem valido muito a pena, especialmente no cenário econômico atual.

O que explica o preconceito com os carros chineses também explica o sucesso da Hyundai no Brasil: os brasileiros não tem carro só pela funcionalidade e pelo conforto, mas também pelo status. Hoje, ter um Hyundai, um “quasijaponês”, confere um status maior do que ter um veículo chinês, ainda que você pague cerca de R$ 15 mil a menos em um Lifan X60 em comparação a uma Hyundai Tucson, por exemplo, com um pacote de opcionais semelhante.

No fim, eu comprei um carro chinês e sigo muito satisfeito com ele, ciente de suas potencialidades e limitações. A relação afetiva, mencionada no início do texto, segue intacta, e estou muito mais satisfeito com esse carro do que com o meu veículo anterior, “não-chinês”. Para mim, que precisava de um carro “completo” e novo, que não tivesse muito custo de manutenção além das revisões, foi o ideal. Mas só deu certo porque deixei meu preconceito inicial com carros chineses de lado.

No fundo, essa história de comprar carro para ter status não é nada além de uma grande frescura.


Clique em “write a response” logo abaixo e diga o que você pensa.


Gostou do texto? Então clique no botão Recommend, logo abaixo.
Fazendo isso, você ajuda esta história a ser encontrada por mais pessoas.

Siga o Medium Brasil | TwitterFacebookRSSCanal oficial
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s